Entrevista/ “No fundo, o nosso segredo está no equilíbrio entre tradição e inovação”
“Ao longo dos anos, fomos capazes de nos reinventar constantemente: começámos na fotografia e evoluímos para os equipamentos de escritório, tornámo-nos especialistas em managed print services e demos um passo decisivo na área da robótica e da inteligência artificial”, afirma Ana Cantinho, diretora-geral da Beltrão Coelho, no ano em que a empresa celebra 78 anos de atividade.
Num setor onde a inovação dita o ritmo e a obsolescência espreita a cada ciclo tecnológico, poucas empresas conseguem manter-se relevantes ao longo de várias décadas. A Beltrão Coelho é uma dessas exceções. Com 78 anos de história, a empresa portuguesa de origem familiar tem procurado reinventar-se e seguir as transformações do mercado.
Do negócio da fotografia às soluções para ambientes de trabalho digitais, passando pela robótica e pelas salas de aula do futuro, a trajetória da Beltrão Coelho acompanha a evolução tecnológica das últimas décadas e revela uma aposta contínua na diversificação. Em entrevista ao Link to Leaders, Ana Cantinho explica como a empresa equilibra legado e futuro, aposta na tecnologia como motor de transformação e coloca as pessoas no centro da sua estratégia.
A Beltrão Coelho celebra 78 anos de atividade num setor marcado por rápidas transformações tecnológicas. Como se consegue manter relevância e capacidade de inovação ao longo de quase oito décadas?
Manter a relevância ao longo de quase oito décadas exige, acima de tudo, uma capacidade contínua de adaptação, e isso faz parte do ADN da Beltrão Coelho desde a sua fundação. Somos uma empresa familiar, na sua terceira geração, o que nos dá uma base muito sólida de valores, mas também uma enorme responsabilidade: honrar o legado enquanto antecipamos o futuro. Ao longo dos anos, fomos capazes de nos reinventar constantemente: começámos na fotografia e evoluímos para os equipamentos de escritório, tornámo-nos especialistas em managed print services e demos um passo decisivo na área da robótica e da inteligência artificial.
A inovação, para nós, não é uma tendência — é uma prática contínua. Temos uma preocupação constante em acompanhar as transformações do mercado e, mais do que isso, em antecipá-las, criando soluções que respondam às necessidades reais dos nossos clientes e que contribuam para ambientes de trabalho mais produtivos, digitais e colaborativos.
Mas há um fator que considero absolutamente diferenciador: as pessoas. A Beltrão Coelho sempre foi, e continua a ser, uma empresa que valoriza profundamente a sua equipa e a relação de proximidade com clientes e parceiros. Esta cultura de confiança, aliada a uma forte aposta em inovação tecnológica, é o que nos permite crescer de forma sustentável e manter relevantes num setor em constante transformação. No fundo, o nosso segredo está no equilíbrio entre tradição e inovação.
“(…) nunca vimos os nossos clientes como relações de curto prazo. Para nós, o objetivo é criar parcerias para a vida”.
Sendo uma empresa de origem familiar, que valores fundadores continuam hoje a orientar as decisões estratégicas da Beltrão Coelho?
Como empresa de origem familiar, há valores fundadores que não só se mantêm, como continuam a orientar de forma muito clara todas as nossas decisões estratégicas. Na Beltrão Coelho, costumamos dizer que tudo pode evoluir e evolui. Desde sempre, a nossa palavra tem valor contratual. Este compromisso com a seriedade e com o cumprimento daquilo que prometemos é a base da confiança que construímos com os nossos clientes ao longo de décadas. Ao mesmo tempo, prezamos a verdade e o respeito como uma lei inabalável.
Estes valores estão presentes na forma como trabalhamos diariamente, seja na relação com clientes, parceiros ou colaboradores. Acreditamos que só com transparência e integridade é possível construir uma empresa sólida.
Por outro lado, nunca vimos os nossos clientes como relações de curto prazo. Para nós, o objetivo é criar parcerias para a vida. Esta visão de longo prazo influencia profundamente a nossa estratégia, levando-nos a privilegiar relações duradouras baseadas na proximidade, na confiança e na entrega contínua de valor. No fundo, estes princípios refletem aquilo que sempre fomos: uma empresa familiar que cresceu com base em relações humanas fortes e que continua, ainda hoje, a pôr as pessoas e a confiança no centro de tudo o que faz.
A empresa destaca-se atualmente na gestão de parques de impressão, na robótica e, mais recentemente, nas salas de aula do futuro. Como é que estas áreas se articulam numa visão integrada de inovação?
A gestão de parques de impressão, em que temos uma posição consolidada, representa a base da nossa atuação: ajudar as organizações a tornarem-se mais eficientes, sustentáveis e digitalizadas. É um serviço que nos permite estar muito próximo dos nossos clientes e compreender, em profundidade, as suas necessidades operacionais.
A partir dessa proximidade, fomos, naturalmente, evoluindo para outras áreas tecnológicas, como a robótica e a inteligência artificial. Aqui, o nosso foco passa por automatizar tarefas, melhorar a experiência do utilizador e libertar as pessoas para funções de maior valor acrescentado, seja em ambientes empresariais, hotelaria, saúde ou retalho.
Mais recentemente, com as salas de aula do futuro, demos um passo ainda mais estratégico: aplicar a tecnologia como motor de transformação da educação. Estamos a integrar soluções como painéis interativos, realidade aumentada e robótica, para criar experiências de aprendizagem mais imersivas, participativas e eficazes.
O que une todas estas áreas é uma lógica muito clara: utilizar a tecnologia como ferramenta para melhorar a forma como as pessoas trabalham, aprendem e interagem. A nossa visão é acompanhar os clientes em todo o processo de evolução, da otimização de processos à criação de novos modelos de trabalho e aprendizagem.
“Não vimos a robótica como um produto isolado, mas como uma solução integrada, adaptável a diferentes setores, desde hotelaria e saúde até eventos, retalho e educação”.
A entrada na robótica aconteceu em 2018 e hoje é já uma área consolidada. O que foi determinante para que esta aposta se tornasse um caso de sucesso?
A entrada na robótica foi, acima de tudo, uma decisão estratégica muito consciente e alinhada com aquilo que sempre definiu a Beltrão Coelho: antecipar tendências e preparar o futuro. Em 2018, criámos, internamente, um grupo de trabalho multidisciplinar com um objetivo muito claro: pensar o que a empresa deveria estar a fazer nos próximos 5 a 10 anos. Dessa reflexão nasceram várias hipóteses e a robótica destacou-se naturalmente como uma área com enorme potencial de crescimento e impacto.
O facto de termos tomado a decisão cedo foi determinante. Como costumo dizer, “é melhor entrar no comboio no início do que a meio”, e isso permitiu que nos posicionássemos como um dos pioneiros em Portugal na área da robótica de serviço. Outro fator crítico foi a forma como abordámos o mercado. Não vimos a robótica como um produto isolado, mas como uma solução integrada, adaptável a diferentes setores, desde hotelaria e saúde até eventos, retalho e educação. Apostámos também na criação de uma equipa especializada, capaz de programar e personalizar os robôs de acordo com as necessidades concretas de cada cliente.
Além disso, sempre tivemos uma preocupação muito clara: a tecnologia deve complementar o trabalho humano e não substituí-lo. Essa visão ajudou a desmistificar a robótica e a acelerar a sua aceitação no mercado, posicionando-a como uma ferramenta de apoio, eficiência e melhoria da experiência do utilizador.
No caso das salas de aula do futuro, que necessidades concretas do sistema educativo português a Beltrão Coelho procura responder?
No caso das salas de aula do futuro, aquilo que procuramos é responder a desafios muito concretos que o sistema educativo português enfrenta atualmente, sobretudo ao nível da motivação dos alunos, da adaptação aos novos paradigmas digitais e da necessidade de desenvolver competências para o futuro.
Durante muitos anos, o modelo de ensino manteve-se relativamente estático, com uma abordagem mais expositiva e centrada no professor. Hoje, sabemos que isso já não responde às expectativas das novas gerações, nem às exigências do mercado de trabalho. É precisamente aqui que a Beltrão Coelho procura fazer a diferença: ajudar a transformar a aprendizagem num processo mais dinâmico, participativo e centrado no aluno.
As nossas soluções de “salas de aula do futuro” assentam numa visão integrada que combina três pilares essenciais: pedagogia, tecnologia e espaço. O objetivo é criar ambientes de aprendizagem inovadores, onde os alunos possam investigar, colaborar, criar e interagir, desenvolvendo não só conhecimento, mas também pensamento crítico, criatividade e autonomia.
Outro ponto fundamental é o apoio aos professores. A inovação na educação não passa apenas pela tecnologia, mas também pela capacitação de quem ensina. Por isso, estas soluções permitem novas metodologias pedagógicas e incentivam uma evolução do papel do professor.
Com uma equipa de 92 colaboradores, como se constrói uma cultura que combina especialização tecnológica, proximidade com o cliente e capacidade de adaptação?
Construir uma cultura com essas três dimensões — especialização tecnológica, proximidade e adaptação — é, para nós, um trabalho contínuo e muito intencional. Em primeiro lugar, a especialização tecnológica vem de uma aposta clara na formação e na evolução das nossas equipas. Estamos num setor em constante mudança e isso exige que os nossos colaboradores estejam permanentemente atualizados e preparados para trabalhar com soluções cada vez mais avançadas. A inovação faz parte do nosso ADN e traduz-se diretamente na forma como capacitamos as nossas pessoas.
Mas tão importante quanto a componente técnica é a proximidade. Promovemos um ambiente de confiança, respeito e entreajuda, em que as pessoas se sentem parte integrante do projeto. Aliás, acreditamos verdadeiramente que relações sólidas são a base de qualquer negócio sustentável.
Gostaria ainda de destacar que vemos os nossos colaboradores como a nossa maior força. O investimento no bem-estar, na motivação e no desenvolvimento das equipas tem sido uma prioridade constante, porque sabemos que são as pessoas que garantem a qualidade do serviço que prestamos e a confiança que construímos no mercado.
“(…) a Beltrão Coelho teve uma ligação natural à cultura e à criatividade, e a criação da galeria, em 2015, surge precisamente desse compromisso (…)”.
A Galeria Beltrão Coelho é um exemplo pouco comum de ligação entre empresa e cultura. Porque é importante para a Beltrão Coelho investir num espaço cultural aberto à comunidade?
A Galeria Beltrão Coelho representa de forma muito clara aquilo que acreditamos ser o papel de uma empresa na sociedade: não apenas criar valor económico, mas também contribuir ativamente para a comunidade em que se insere.
Desde sempre, a Beltrão Coelho teve uma ligação natural à cultura e à criatividade, e a criação da galeria, em 2015, surge precisamente desse compromisso, num momento em que se verificava uma redução significativa dos apoios às artes. Decidimos, por isso, abrir as nossas portas e criar um espaço onde os artistas pudessem expor o seu trabalho em condições favoráveis e sem contrapartidas.
Mais do que um projeto cultural, a galeria é uma extensão dos nossos valores. Tal como na nossa atividade principal, também aqui procuramos promover relações de confiança, dar oportunidades e apoiar o desenvolvimento, neste caso, artístico e cultural. Já acolhemos dezenas de exposições, abrangendo diferentes formas de arte, desde pintura e escultura até design e fotografia, sempre com o objetivo de valorizar a diversidade criativa.
Ao abrir este espaço à comunidade, estamos a contribuir para democratizar o acesso à arte e a criar pontos de encontro entre artistas, público e diferentes áreas de conhecimento.
A Beltrão Coelho atua maioritariamente no mercado B2B, apoiando empresas e entidades públicas na transformação digital. Onde estão hoje os maiores desafios desse processo em Portugal?
A transformação digital em Portugal tem evoluído de forma muito positiva, mas ainda existem desafios estruturais importantes, sobretudo quando olhamos para o tecido empresarial, que é maioritariamente composto por PME. Um dos principais desafios continua a ser a maturidade digital. Apesar dos avanços, apenas cerca de metade das PME apresenta um nível básico de intensidade digital, o que demonstra que ainda há um caminho significativo a percorrer em termos de adoção tecnológica e modernização dos processos.
A isto junta-se uma questão cultural. Muitas organizações ainda enfrentam resistência interna à mudança ou dificuldade em adaptar modelos de trabalho tradicionais a uma lógica mais digital. A transformação digital não é apenas tecnológica; é, acima de tudo, uma transformação de mindset e de cultura organizacional.
Outro desafio relevante prende-se com as infraestruturas e o investimento. Em muitos casos, as empresas operam com sistemas desatualizados ou enfrentam barreiras financeiras para migrar para soluções mais avançadas, como cloud ou inteligência artificial.
Também a capacitação das pessoas é tão importante quanto o investimento em tecnologia. Do nosso ponto de vista, enquanto parceiros de transformação digital, o maior desafio, e, simultaneamente, a maior oportunidade, está em ajudar as organizações a fazer esta transição de forma integrada: não apenas adotando tecnologia, mas repensando processos, capacitando pessoas e criando valor real para o negócio.
“Mais do que tecnologias isoladas, aquilo que vamos ver é a criação de ecossistemas inteligentes, tanto nos ambientes de trabalho como na educação”.
Que tendências tecnológicas — da automação à inteligência artificial — terão maior impacto nos ambientes de trabalho e educativos nos próximos anos?
Acredito que estamos a viver um momento de transformação muito profundo, em que várias tendências tecnológicas se cruzam e reforçam mutuamente. Mais do que tecnologias isoladas, aquilo que vamos ver é a criação de ecossistemas inteligentes, tanto nos ambientes de trabalho como na educação.
Desde logo, a inteligência artificial terá um papel central. Não apenas na automação de tarefas, mas sobretudo na capacidade de apoiar a tomada de decisão, personalizar experiências e aumentar a produtividade das pessoas.
Outra tendência muito relevante é a criação de ambientes de trabalho e aprendizagem cada vez mais digitais, conectados e flexíveis. Espaços onde a tecnologia está integrada de forma natural, permitindo, assim, novas formas de trabalhar, ensinar e aprender mais dinâmicas e participativas.
No fundo, o maior impacto destas tendências será este: permitir-nos trabalhar melhor, aprender e, acima de tudo, preparar melhor as próximas gerações para um mundo em constante mudança.
Quais são as prioridades estratégicas da Beltrão Coelho para 2026 e para o médio prazo?
As nossas prioridades estratégicas passam, acima de tudo, por continuar a evoluir com o mercado, antecipando as necessidades dos nossos clientes e criando soluções com impacto real nos seus negócios. Para 2026, e para o médio prazo, temos três grandes eixos muito claros.
O primeiro é o reforço da nossa posição como referência nacional em soluções para ambientes de trabalho digitais. O segundo eixo é a diversificação e inovação contínua do portefólio, com uma aposta clara em áreas como a inteligência artificial, a robótica de serviço e as soluções para educação.
Por fim, há um terceiro eixo que, para mim, é absolutamente essencial: as pessoas. Queremos continuar a investir numa cultura de proximidade, confiança e desenvolvimento, tanto dos nossos colaboradores como das relações de longo prazo com os nossos clientes.
Enquanto diretora-geral, como define o seu estilo de liderança num contexto de crescimento, inovação constante e responsabilidade social?
Definiria o meu estilo de liderança como muito próximo, transparente e orientado para as pessoas, porque acredito verdadeiramente que são elas o motor de qualquer organização. A Beltrão Coelho é uma extensão da minha família e isso reflete-se na forma como lidero. Procuro estar presente, ouvir, envolver as equipas e criar um ambiente de confiança, onde todos se sintam parte do caminho que estamos a construir.
Ao mesmo tempo, é uma liderança muito focada na ação e na transformação. Gosto de estar com as mãos na massa, de perceber os processos, de desafiar o status e de procurar continuamente formas de fazer melhor.
Liderar hoje implica ter uma consciência muito clara do impacto que temos nas nossas pessoas, nos nossos clientes e na sociedade. Temos vindo a trabalhar entre crescimento e responsabilidade social, promovendo práticas de bem-estar, sustentabilidade e ética empresarial, porque acreditamos que o sucesso só faz sentido se for partilhado e sustentável a longo prazo.
No fundo, procuro liderar com base em três princípios: proximidade, exigência e propósito. Proximidade com as pessoas, exigência nos resultados e, acima de tudo, um propósito claro: continuar a construir uma empresa que se reinventa, sem nunca perder os seus valores. Porque, no fim de contas, mais do que liderar uma empresa, o que me move é cuidar de uma equipa e de um legado que queremos levar ainda mais longe.
“São, precisamente, os momentos de pressão ou crescimento acelerado que definem a identidade de uma organização a longo prazo”.
Que conselho deixaria a outros líderes que procuram equilibrar performance económica, impacto social e visão de longo prazo?
Diria que o mais importante é perceber que esses três pilares não estão em conflito, mas que, sim, se reforçam mutuamente. Ao longo do nosso percurso na Beltrão Coelho, aprendemos que a performance económica sustentável só é possível quando está assente em relações de confiança, cultura forte e num compromisso genuíno com as pessoas.
O primeiro conselho que deixaria é: não perder de vista os valores. São, precisamente, os momentos de pressão ou crescimento acelerado que definem a identidade de uma organização a longo prazo. Depois, diria que é essencial ter uma visão clara e consistente, mas, ao mesmo tempo, flexível. O mundo está a mudar, e os líderes têm de conseguir adaptar-se sem perder o rumo. Outro ponto fundamental é investir nas pessoas. Acredito profundamente que equipas motivadas, envolvidas e alinhadas com o propósito da empresa são o maior fator de sucesso.
E, por fim, diria que é importante liderar tendo consciência do impacto. Hoje, as empresas têm um papel muito relevante na sociedade e isso traz responsabilidade. Crescer é importante, mas crescer de forma sustentável e com impacto positivo é ainda mais.








