Na sua 14.ª edição, o foco do Portugal Exportador esteve em mercados como Angola, Alemanha e Espanha, e nos setores agroalimentar, metalomecânico e ecommerce. Pela primeira vez, houve também espaço para dar voz às start-ups.  O Link To Leaders esteve à conversa com o presidente da Fundação AIP sobre o evento e sobre o que é preciso para que as empresas consigam exportar e ganhar quota de mercado.

Há 14 anos a pensar nas empresas que estão a dar os primeiros passos no processo de internacionalização e que querem explorar e diversificar novos mercados, o Portugal Exportador voltou a reunir, num só espaço e num só dia, os principais players do universo global das exportações. Pela primeira vez, houve ainda lugar para as start-ups através do Meet The Leaders, que colocou frente business angels e empreendedores.

Em jeito de balanço, Jorge Rocha de Matos, referiu que o evento foi ao encontro daquilo que a Fundação AIP pretende: “levar a economia portuguesa a internacionalizar-se mais através das exportações, mas a não se esgotar e a partir desse ato criar focos de investimento em países de referência para permitir que exista alavancagem para outras áreas territoriais”.

O presidente da Fundação AIP considera que Portugal tem que continuar as ver as exportações como um desígnio nacional, o que é fundamental para o equilíbrio da balança comercial e para a sustentabilidade da dívida. Uma meta que só será assegurada através do aumento da base exportadora nacional.

Qual o balanço que faz da 14.ª edição do Portugal Exportador?
O balanço que posso fazer neste momento é qualitativo. O evento correu muito bem. O interesse dos empresários e também de outras entidades que estão envolvidas, como stakeholders, relativamente ao processo de exportação foi muito envolvente e diria que correu tudo muito bem.  A informação que constatei relativamente aos vários setores de atividade que estiveram a ser promovidos no Portugal Exportador e aos três países que escolhemos como de mais fácil crescimento, dois na Europa e um fora da Europa, é que foi muito importante. Foi engraçado verificar o muito interesse que Angola está a ter no relacionamento com Portugal.  O embaixador de Angola vincou o grande interesse que o seu governo tem relativamente a este aprofundamento de relações com Angola. E depois os outros mercados no quadro europeu, quer a Espanha, quer a Alemanha, também mostraram ser áreas de muito interesse.

Sensibilizou-me muito verificar o interesse que existe relativamente às start-ups que estiveram presentes porque conclui que há duas coisas que estão à procura: de quem as possa ajudar a alavancar financeiramente o seu negócio e aqui há várias entidades que podem contribuir para isso e querem encontrar parceiros para escoar os seus produtos. Este evento foi muito ao encontro do que pretendemos: levar a economia portuguesa a internacionalizar-se mais através das exportações, mas a não se esgotar e a partir desse ato criar focos de investimento em países de referência para permitir que exista alavancagem para outras áreas territoriais.

“Atualmente, graças a uma evolução qualitativa substancial, as empresas abordam com muito à vontade os mercados internacionais, não só de língua portuguesa, mas também de língua inglesa ou espanhola e muitas até já andam a aprender o mandarim, tendo em vista o mercado chinês”.

O que é preciso para que as empresas consigam exportar e ganhem quota de mercado?
Cada empresa é um caso. Uma das carências que normalmente as empresas tinham estava relacionada com dificuldades linguísticas nos contactos. Atualmente, graças a uma evolução qualitativa substancial, as empresas abordam com muito à vontade os mercados internacionais, não só de língua portuguesa, mas também de língua inglesa ou espanhola e muitas até já andam a aprender o mandarim, tendo em vista o mercado chinês. Verifica-se, por outro lado, que as empresas começam em alguns mercados a juntar a sua ação para o lançamento de um produto completar e isto quer na área alimentar, quer na área da química, quer na área dos produtos metalomecânicos. Não me admira nada que comecemos a ver este tipo de fenómenos em mercados de diversificação concretos e várias empresas a começarem a trabalhar em conjunto para terem uma oferta mais complementar nesses mercados.

Neste sentido, gostei muito no Portugal Exportador da intervenção dos nossos colegas ligados à parte da corrente financeira do Novo Bando, a sua visão relativamente ao mercado e de como pensam ajudar as empresas, e também da AICEP. Julgo que este triângulo – Fundação AIP, AICEP e Novo Banco – é o modelo ideal para acelerar o processo das exportações portuguesas.

Portugal poderá continuar a ganhar quota de mercado mundial em termos de exportação?
Penso que sim e penso que não podemos esquecer as palavras do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, no Centro de Congressos de Lisboa, que alertou para o facto de o PIB ter vindo a crescer  e de se verificar também que o percentual de participação das exportações do PIB também tem vindo a crescer. Portanto, estes dois movimentos podiam eventualmente dizer que as exportações diminuíram, mas não é assim. O percentual de exportação está de alguma forma a acompanhar uma dinâmica que está relacionada com uma realidade empresarial portuguesa, em que a conjugação de vários fenómenos, o interesse empresarial, a disponibilidade de produtos para mercados, a capacidade financeira das empresas para melhor responder aos desafios e, por outro lado, a disponibilidade de informação que existe de vários segmentos da administração pública, como, por exemplo, a  AICEP são muito importantes para apoiar a atividade empresarial neste desafio da internacionalização.

“As start-ups portuguesas têm de ser o resultado de uma ação de empreendedores e de empresários portugueses. Porque ninguém melhor do que nós sabe as dores que temos e como as podemos tratar”.

De que forma as start-ups podem ajudar a apoiar as exportações? Qual o apoio da Fundação AIP a este segmento?
As start-ups portuguesas têm de ser o resultado de uma ação de empreendedores e de empresários portugueses. Porque ninguém melhor do que nós sabe as dores que temos e como as podemos tratar. Precisamos é de ter algum apoio para atingir os objetivos. Em todas as nossas realizações setoriais, quer na área do turismo, ambiente, no mar, quer na área da metalomecânica, construção, imobiliária, em todas estas áreas temos sempre espaços reservados para as start-ups estarem presentes. É esse convívio que vai permitir que as start-ups tenham melhores condições para se poderem afirmar. O facto de existir uma start-up, não quer dizer que o sucesso esteja assegurado.

A start-up é um desafio do empreendedor, normalmente jovem, mas atualmente já é difícil dizer onde acaba a juventude porque o empreendedorismo é algo que tanto é latente na juventude como é em pessoas de maior idade. Há muitas pessoas que já não são jovens, mas continuam a ter um espírito empreendedor. Esse espírito leva a que os seus negócios comecem suavemente, evoluam e se tornem casos de sucesso. Eu diria que esta ligação às nossas várias feiras setoriais e a ligação do empreendedor da start-up com o empresário já afirmado no mercado está a criar uma dinâmica de cooperação muito interessante entre as start-ups e as empresas.

Deveria haver uma maior concertação entre organismos do Estado dedicados a estas empresas?
Os organismos do Estado estão a fazer um bom trabalho, mas será um erro pensar que os mesmos vão substituir aquilo que deve ser o espírito e a dinâmica do empresário. O Estado pode ajudar, mas não substitui. Compete ao empresário privado ser ele a lançar as suas ideias, a aplicar no mundo real, ver onde estão os apoios que poderá obter, quer seja junto das estruturas empresarias, quer das nossas feiras, quer dos organismos públicos, para melhor trilhar o caminho que quer percorrer.

Mas o sucesso de qualquer empresa resulta da vontade do empresário. Muitas vezes há empresários que pela sua dinâmica, pela sua força de vontade conseguem ultrapassar obstáculos, muitos até de natureza administrativa que criam dificuldades tremendas ao desenvolvimento da atividade empresarial, mas conseguem com a sua persistência contornar as dificuldade e alterar o estado que existe na área pública que é mais burocrático, para que a atividade se desenvolva.

Além dos fundos comunitários e das linhas de tesouraria, de que outros apoios precisam as empresas?
Uma ligação cada vez maior às universidades. As universidades sempre foram centros de saber, mas hoje, para além da teoria, começam a ter também uma componente prática que é muito importante.  Se as start-ups trabalharem em conjunto com as universidades, disponibilizando algumas tecnologias, os seus produtos podem ser melhorados. Se uma start-up começar a funcionar como fornecedora de uma empresa média ou de maior dimensão, também é importante para a partir daí ir e reboque para outros mercados ou serem elas próprias a abrir o caminho.

“Os mercados mais apetecíveis são aqueles que são mais concorrenciais e que obrigam a que o empresário/empreendedor tenha de ajustar as suas estratégias a um mundo em concorrência permanência e que isso não o faz esmorecer”.

Quais os mercados que neste momento apresentam melhores perspetivas, por exemplo, para uma start-up que está a começar?
Não há ninguém que possa dizer vá para ali ou vá para acolá. O empresário tem de sentir o destino do produto, através da informação que tem disponível, do risco desse mercado, do risco político, financeiro, económico, da concorrência que esse mercado pode ter relativamente a mercados terceiros e essa sensibilidade pode ser mais afinada a partir da disponibilidade de informação que se obtém em eventos como o Portugal Exportador. É muito difícil dizer apostem neste mercado ou naquele mercado. O que podemos dizer é que há uma procura maior no mercado x do que no mercado y, mas a opção tem a ver com uma série de vetores. Os mercados mais apetecíveis são aqueles que são mais concorrenciais e que obrigam a que o empresário/empreendedor tenha de ajustar as suas estratégias a um mundo em concorrência permanência e que isso não o faz esmorecer.

 

Comentários