Stephan Morais deu uma entrevista onde abordou o Ecossistema do Empreendedorismo Português. Uma análise rápida, e até superficial, leva-nos a crer que o mesmo é “desonesto”. Desonesto por parte dos empreendedores que vendem gato por lebre aos investidores, que dizem fazer exits quando afinal são integrados em outras empresas. Desonesto por parte dos investidores que não vão a fundo na análise das start-ups onde investem, que não respeitam o capital que gerem.

Mas não se deixem enganar! A entrevista está cheia de pérolas de conhecimento de alguém que compreende o ecossistema como ninguém, e que defende também que, o ecossistema está mais maduro e profissionalizado. A maturidade vem com o passar do tempo pelo que é natural que assim seja. O profissionalismo, esse já depende dos seus intervenientes, os empreendedores, as aceleradoras e os investidores. Ser desonesto convenhamos, não é ser profissional. Ser um bom profissional é ser transparente, respeitar o dinheiro posto à nossa disposição, e acima de tudo, respeitar os consumidores e demais stakeholders.

Numa altura em que os negócios nascem e são feitos à escala global, ou no mínimo internacional, é necessário ser profissional. Um bom profissional! É necessário trabalhar muito e bem, ser resiliente face à adversidade, saber investir o dinheiro no projeto certo, no mercado certo, no montante certo, ser capaz de entregar acima das expectativas quer dos investidores, quer dos consumidores, antecipar os movimentos dos concorrentes e o uso de tecnologias que permitem menores custos e/ou melhores experiências, e tudo isto respeitando os demais stakeholders, desde o Estado, ao ambiente, aos organismos de regulação. O Stephan chamou-lhe ‘‘Track Record’’.

‘‘Track Record’’ é o elefante na sala que todos veem, mas de que ninguém fala. Os empreendedores autointitulam-se CEOs de start-ups de duas e três pessoas… a sério, CEOs? Os investidores investem dinheiro que não é deles. Os aceleradores aceleram empresas que não são suas (onde na maioria dos casos não têm quota) e financiados por dinheiros públicos. E até os mentores são convidados a partilhar o seu saber sem qualquer contrapartida que não seja alimentar o ego ao dizer que ajudaram uns “miúdos com uma ideia fantástica” e que andavam perdidos antes deste mentor lhes mostrar a luz…

Onde estão os incentivos para sermos bons profissionais com ‘‘Track Record’’?

Não estão. Ou melhor, estão, mas implícitos na necessidade de desenvolver um ‘‘Track Record’’ por aqueles que se quiserem tornar atores de referência no ecossistema nacional. É assim que se distingue o trigo do joio! O ‘‘Track Record’’ é o Factor Crítico de Sucesso de todos os intervenientes do ecossistema, assim como do próprio Ecossistema em si.

Há uns anos desenvolvi um serviço chamado GROWTHaction. Este serviço destinava-se a desenvolver, validar e escalar as ideias assim como as próprias start-ups. Tudo isto através de um processo de análise da ideia de negócio com base na tecnologia, nas necessidades dos consumidores, e no modelo de negócio usado, filtrado pelas restrições do ambiente competitivo onde a start-up iria desenvolver a sua atividade. Obviamente que em estreita parceria com a start-up e investidores, ou seja, não era um mero relatório, mas sim um programa que fomentava a profissionalização de todo o processo de lançamento e o escalar de um novo negócio. Em suma, o GROWTHaction funcionava como um Sistema Operativo do Ecossistema que ajudava start-ups, aceleradoras e investidores a serem mais profissionais.

Nesta nova fase mais madura do ecossistema nacional, onde os seus intervenientes estão a tentar conquistar novos mercados a nível mundial, para o qual necessitam de ‘‘Track Record’’, é fundamental usar um “Sistema Operativo” que promova a profissionalização – transparência, relevância e boa gestão. Uma vez implementado, basta juntar a equipa e o modelo de negócio certos para construir vantagens competitivas que sejam sustentáveis. O investimento virá de seguida assim como a expansão global, pois haverá um ‘‘‘Track Record’’’ que dá confiança a todos os intervenientes no ecossistema nacional e global!

Pode ler aqui a entrevista mencionada neste artigo.

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Luis Madureira é fundador da ÜBERBRANDS, uma boutique de consultoria estratégica que ajuda organizações e os seus líderes a navegar o ambiente competitivo com sucesso. É chairman da SCIP Portugal e foi recentemente distinguido com o Fellowship e convidado a... Ler Mais