Como pessoas e líderes, somos diariamente confrontados com a emergência do Digital e com a forma como este se parece sobrepor ao real. Esta nova realidade, apesar de trazer enormes vantagens em diferentes dimensões da nossa vida, impacta de forma determinante como nos sentimos e relacionamos.

Existem várias estudos que evidenciam a cada vez maior dependência relativamente ao Digital sendo que os portugueses passam por dia, em média, 6 horas e 40 minutos na internet e 2 horas e 10 minutos nas redes sociais. Simultaneamente, a Organização Mundial de Saúde classificou a dependência do online gaming como uma doença.

Como líderes, temos novos desafios na forma como nos relacionamos com os outros, sendo que as competências apelidadas de soft, ganham cada vez maior relevância. Tal como referi num artigo anterior, é determinante que os líderes estejam cada vez mais atentos, que escutem verdadeiramente as pessoas que trabalham com eles, privilegiando as conversas pessoais, em que a tecnologia fica fora da sala.

Paralelamente, para que seja possível reequilibrar-se é fundamental que o líder aprenda a desconectar-se, ao mesmo tempo que encontra fontes alternativas de inspiração. Uma das formas que recentemente ganhou relevância e visibilidade (e que eu própria subscrevo) é o Mindfullness. Contudo, e independentemente dos seus inegáveis benefícios, existem outras técnicas para lá do Mindfulness, sendo que neste artigo gostaria de me debruçar sobre a leitura de livros de ficção.

De entre os benefícios associados à leitura de um bom livro de ficção, que podem contribuir para um melhor exercício da liderança, podemos referir:

– Redução de stress: segundo um estudo realizado pela universidade de Sussex a leitura de livros de ficção tem um efeito superior na redução do stress, quando comparado com  atividades como andar ou ouvir música. 6 minutos de leitura reduzem o stress em 60%, registando-se também a diminuição do ritmo cardíaco e da tensão muscular. Leitores regulares dormem melhor, têm menor nível de stress, auto-estima mais elevada e menores taxas de depressão.

– Empatia: segundo um estudo realizado por Raymond Mar as relações neurais que ativamos para perceber uma história, são as mesmas que utilizamos para desenvolver relações. Tentar perceber uma história, bem como as intenções e sentimentos dos personagens, permite-nos construir um mapa mental relativamente às suas intenções, e consequentemente exercitar e desenvolver a empatia.

– Criatividade: as histórias de ficção são normalmente ambíguas. Os leitores regulares de ficção têm uma menor necessidade de resultados concretos, o que estimula a criatividade.

– Promoção da diversidade e inclusão: a leitura de histórias permite que se gere empatia relativamente a personagens que muitas vezes representam minorias. Esta mesma ideia ficou provada num estudo, publicado no Journal of Applied Psychology, em que se testou se alunos que lessem trechos dos livros do Harry Potter em que se falava de discriminação alteravam as suas atitudes. Para os líderes, esta é uma oportunidade para estarem mais atentos à existência de pessoas que podem representar minorias ou pensar de forma diferente, ao mesmo tempo que garantem que as suas ideias são tomadas em consideração no seio das equipas.

Finalmente, gostaria de referir que para lá de todos estes benefícios está provado que ler ficção diminui a perda de memória e tem um impacto positivo na felicidade.

Sendo tudo isto verdade, também é verdade que num mundo cada vez mais agitado,  somos constantemente bombardeados por informação. Paralelamente, a necessidade de atualização é constante, pelo que ter tempo para tudo se torna num verdadeiro desafio. Neste contexto, a realidade acaba por se impor à ficção e acabamos por ter de renunciar ao prazer de uma boa leitura, em prol do último artigo económico ou científico.

Contudo, e apesar deste cenário, é importante que tenhamos presente os benefícios que uma boa leitura proporciona, e que tentemos encontrar oportunidades de desfrutar dela. No meu caso, uma leitora assídua de ficção que nos últimos anos deixou de o ser, decidi que estas férias abandonaria o que é técnico e mergulharia num bom livro. Paralelamente limitei a internet ao mínimo, defini horas para ver emails e abdiquei de social media,

No final das férias senti-me mais descansada e energizada, mas acima de tudo mais feliz!

E não deixa de ser curioso que no final da  história não tive dúvidas de que a leitura nos pode ajudar a ser melhores líderes. E que, de futuro, garantirei que na bagagem de férias estarão os livros de ficção!

“There is more treasure in books than in all the pirate’s loot on Treasure Island.” – Walt Disney

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Sobre o autor

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Anabela Possidónio é Integral Coach, certificada pela ICF. Entre 2013 e 2018 foi diretora executiva do The Lisbon MBA Catolica|Nova, tendo contribuído para o processo de internacionalização do melhor MBA de Portugal, considerado pelo Financial Times o melhor em International... Ler Mais