Ao longo dos últimos anos, o mundo mudou em diversas dimensões. E, como o início do ano se presta a visões otimistas, acredito que uma dessas mudanças conduzirá à crescente adoção de um sistema financeiro e de investimento mais sustentável.

É certo que, durante (muitas!) décadas, a maior parte das empresas orientou a sua estratégia para a maximização do retorno acionista. Mas, agora, são cada vez mais os líderes que já compreenderam que terão de repensar o papel das empresas e dos negócios na sociedade, com a consciência de que, se não redefinirem os modelos de negócio das suas empresas mediante a integração de critérios ESG (Environmental, Social and Governance) na estratégia empresarial e na forma como as empresas operam, estas em breve poderão deixar de ser sustentáveis, ou mesmo de existir.

Como Laurence Fink (CEO da BlackRock, o maior fundo de investimento do mundo) afirmou numa carta que dirigiu a todos os CEOs das empresas nas quais a BlackRock investe, “a sociedade está a exigir que as empresas, tanto públicas como privadas, sirvam um propósito social. Para prosperar ao longo do tempo, cada empresa necessita não apenas de evidenciar performance financeira, mas também de demonstrar que dá um contributo positivo para a sociedade. As empresas têm de beneficiar todos os seus stakeholders, incluindo acionistas, trabalhadores, fornecedores, clientes e as comunidades em que operam.”

E a verdade é que os dados são crescentemente animadores. Segundo informação divulgada recentemente, dos 85 milhões de milhões (vulgo, “triliões”) de ativos sob gestão de fundos de investimento, cerca de 23 incorporam informação não financeira da empresa alvo – incluindo dados sobre os critérios ESG –, no processo de decisão de investimento, e esse número está a crescer a uma taxa de 25% ao ano. Também um estudo recente da Ernst & Young concluiu que só uma percentagem inferior a 15% dos investidores não desistiria de um determinado investimento se soubesse que a operação da empresa em causa incorpora riscos de violação dos direitos humanos ou de má gestão do impacto ambiental.

Em Portugal, foi a CMVM que corajosamente colocou o assunto na agenda, ao dedicar a sua Conferência Anual, no final do ano passado, ao tema Sustainable Finance – The Road Ahead. E, quando o tema é trazido à discussão pela mão do Regulador, a conversa é séria!

Para mim, que participei como oradora num dos painéis em representação do GRACE, ver uma sala com 300 pessoas “do mundo financeiro”, dispostas a refletir de forma construtiva e empenhada sobre questões como “o que é sustentável em finanças”, “investimento social” ou “investidores responsáveis” foi, em si mesmo, um sinal de esperança.

Pretendendo o GRACE ser “a voz das empresas” nesta e noutras matérias de sustentabilidade que afetam o mundo empresarial, é encorajador sentir que, pouco a pouco, se vão criando em Portugal condições para a implementação de modelos de financiamento e de investimento socialmente responsáveis e para o correspondente abandono de velhos paradigmas, que já tantas provas deram de não servirem o presente, quanto mais o futuro.

Contrariamente ao que o Ministro das Finanças afirmou na Conferência da CMVM, julgo que o investimento sustentável está ainda, lamentavelmente, longe de se tornar “o novo normal” no nosso País. Mas, vão surgindo felizmente alguns sinais de que, também em Portugal, serão cada vez mais os investidores a eleger como critérios de investimento fatores que vão muito para lá da mera performance financeira e do retorno acionista.

Que 2019, nos traga uma visão conducente à adoção de um novo paradigma de investimento e que o GRACE esteja na linha da frente da partilha das boas práticas propiciadoras desse paradigma são, enquanto presidente do GRACE, os meus votos para este novo ano!

*Em representação da Vieira de Almeida & Associados – Sociedade de Advogados

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Sobre o autor

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Margarida Couto é licenciada em Direito e pós-graduada em Estudos Europeus, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Lisboa. Integra a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida & Associados (VdA) desde 1988, sendo a sócia que lidera a área... Ler Mais