Desde que a pandemia iniciou, empreendedores têm visto investidores cessando os investimentos em meio à diligência, term sheets sendo cancelados e métodos tradicionais de captação de recursos sendo revistos.

Apesar de o novo cenário ser difícil tanto para empreendedores quanto empreendedoras, a desigualdade de géneros ainda é realidade dentro do mundo de venture capital. Se adaptar ao novo ambiente de captação de recursos quando as empreendedoras estavam a começar a equiparar-se aos empreendedores pode ser um grande desafio, dado que perceção subjetiva e relações pessoais possuem um papel importante no processo de decisão de investimento.

Para melhor entender o impacto da captação de recursos para empreendedoras, a Mindset Ventures conduziu uma pesquisa com investidoras e fundadoras da nossa rede de contatos para tratar os desafios e benefícios apresentados neste momento atípico.

Este assunto é importante para nós como um fundo de venture capital cofundado por uma mulher, com mulheres a integrar até 50% do nosso comité de investimento e também sendo signatárias do Parity Pledge, confirmando o nosso compromisso em cultivar um pipeline diversificado de talentos para nossa equipa. Já investimos em nove empresas extremamente interessantes fundadas por mulheres e/ou que possuem executivas c-level, e continuaremos a dar valor a empresas com presença de executivas na gestão dentro do nosso pipeline.

Investidores e fundadores de todos os géneros podem beneficiar-se ao entenderem como a Covid-19 impactou as empreendedoras. Abaixo, listamos algumas conclusões.

Mindset insight #1: Investidores estão a preencher seus pipelines com fundadores de diversos géneros e etnias, mas ainda mantêm um certo ceticismo. A pandemia, assim como o Black Live Matters nos EUA, atraiu a atenção para a dificuldade de se aderir à diversidade de empreendedores ao se investir na indústria de tecnologia. A nossa pesquisa mostrou que tanto os fundadores como os empreendedores veem a comunidade de venture capital tomar ações para melhorar a diversidade dentro do pipeline de empresas. Ainda assim, existe alguma preocupação que impede que os aportes sejam feitos com facilidade.

Toyin Odulate, CEO da Olori Cosmetics, sugere que exista “mais ouvidos para as pessoas ouvirem, e não necessariamente por empreendedoras. Os fundos liderados por homens estão atentos.”

Muitas fundadoras continuam céticas, dado que a atenção que lhes têm sido dada ainda não se converteu em maior facilidade de captação. Stephanie Corliss, cofundadora e COO da SnapShyft, ressalta que “tem sido mais do mesmo. Sempre foi falado demais pelos investidores – mais ainda por empresas que defendem teses centradas nas mulheres”, mas investidores não necessariamente já fizeram aportes significativos em empresas geridas por mulheres.

Odulate, da Oloti Cosmetics, concorda ao afirmar que “muito se fala sobre promover empreendedoras, mas ainda não estou convencida de que o público seja totalmente sincero e já esteja de fato a gerar algum impacto real neste sentido.”

Mindset insight #2: Investidores não estão a cumprir com seus relacionamentos, impactando negativamente as empreendedoras. No entanto, ainda há uma oportunidade de se desenvolver novos relacionamentos por meios digitais.

Lisa Carmen Wang, fundadora do Global League of Women (GLOW), também destacou a recém descoberta atenção dos investidores: “estou entusiasmada dado que os investidores têm percebido que precisam de ser mais explícitos quanto ao seu posicionamento favorável a prover acesso às mulheres e minorias. É a primeira vez que vivemos isso, e nasce aqui uma imensa oportunidade de mudarmos o comportamento adotado até então neste campo”.

Jessica Straus, Venture Partner na Dundee Venture Capital e Kaufman Fellow, concordou que os investidores estejam “focando em empreendedores que já conhecem ou empresas que já estejam nos seus portefólios. De forma geral, as mulheres perdem neste cenário. Empresas lideradas por mulheres representam a menor proporção dos portefólios de venture capital e tendem a serem deixadas de fora do pipeline dos VCs”. Mas ela nota que empreendedoras e alguns investidores têm encontrado soluções para isso. “O ponto positivo é a engenhosidade das fundadoras e dos investidores que consistentemente constroem novos relacionamentos com eles”.

Na medida em que os investidores tomam mais tempo para desenvolver relacionamentos virtualmente, as mulheres conseguem beneficiar-se ao criar uma marca online. “Transações podem demorar mais para serem fechadas, pois parece que os investidores sentem falta do contato face-a-face com os fundadores”, ressalta Katie Palencsar, investidora e Venture Studio Lead na Anthemis Group, um fundo baseado em Nova Iorque e Londres. Como resultado, ela nota que “presença online é muito importante para fundadoras, já que os investidores querem aprender tanto quanto possível sobre elas e atualmente não possuem a oportunidade de realizarem reuniões presenciais”.

Straus, da Dundee Venture Capital, também se mostra otimista. “As empreendedoras têm conseguido alavancar em cima das mudanças ocasionadas pela Covid para criarem valor. Muitas responderam rapidamente à crise ao desenvolverem novos produtos e serviços que suprem novas demandas”. Ela confirma o benefício para uma marca online, afirmando que as empreendedoras “têm usado medias sociais e as suas redes de contato para expandirem os seus acessos a clientes e investidores. Estão a aproveitar a chance de fazer algo novo de forma melhor, mesmo sob as restrições impostas pela pandemia.”

Os investidores também estão a aumentar a sua confiança em dados quantitativos para tomar decisões, assim como abrindo novos canais para se conectarem com fundadores que possam não necessariamente estar nas suas redes de contatos. Uma investidora aponta que “aprendemos mais sobre métricas e dados quantitativos que utilizamos em análises para decidir se investiremos ou não”. Também menciona que “estou ouvindo [mais exemplos de]tentativas de contatos alternativos que permitem conexões não tradicionais”.

Outros veem reuniões virtuais não como substitutas das reuniões presenciais, mas como uma forma de começarem a desenvolver relacionamentos até que os contatos face-a-face voltem a ocorrer. “Interações presenciais ainda são importantes para construirmos relacionamentos”, afirma Hila Goldman-Aslan, CEO e cofundadora da DiA Imaging Analysis, empresa do portefólio da Mindset Ventures, “mas a crise ajuda a criarmos mais conversas [iniciais]remotamente para construirmos a fundação dos relacionamentos”.

Mindset insight #3: A mudança para levantar recursos de forma virtual é uma oportunidade para investidores e empreendedores se conectarem de maneiras diferentes

O venture capital investe em pessoas, especialmente em estágios iniciais, e as reuniões presenciais sempre foram parte importante no processo de criação de relacionamentos. Mas a quarentena exigiu uma mudança para a captação de forma virtual para todos os empreendedores – homens e mulheres.

Os encontros presenciais servem para construir confiança, o que num mundo virtual é mais difícil de ser feito. No entanto, os investidores estão a adaptar-se. “Há alternativas para a construção de confiança, como aumentar o número de referências obtidas por meio de investidores, equipa, especialistas de mercado, empregadores e concorrentes”, disse outro investidor.

Um benefício para empreendedores é o fato de não precisarem mais de viajar ou realocar sua equipa no em Silicon Valley ou São Francisco para se encontrarem com potenciais investidores. Isso apresenta uma oportunidade para fundadores tipicamente pouco representados, indica Palencsar da Anthemis Group. “Com os investidores a viajar menos e as conferências tornarem-se mais comuns, estar fisicamente presente em Silicon Valley tornar-se-á cada vez menos importante para as start-ups. Isso pode potencialmente abrir o ecossistema de Silicon Valley para que outros empreendedores menos representados captem mais recursos… Mas para muitos fundos de VC, a mudança para essa nova realidade exigirá ajustes”. A Anthemis tem liderado por exemplo ao adaptar sua estratégia para fundadoras durante este tempo. Palencsar afirma que “intencionalmente criamos uma estratégia virtual com o ‘Female Founder Office Hours’ e vídeos, além de termos realizado contratações para dar suporte a fundos criados por mulheres e outras iniciativas similares”.

Neste aspeto, Camila Potenza, co-fundadora e sócia na Mindset Ventures, enfatizou que “na Mindset, reuniões virtuais sempre foram parte do nosso processo de diligência principalmente por termos sócios em três países distintos. Mas o principal ponto é nunca termos diferenciado a reuniões com empreendedores homens das reuniões com mulheres — talvez porque eu tenha sempre atuado no comitê de investimento e nossos sócios homens sejam grandes aliados, então o viés inconsciente nunca foi um problema. Certamente temos fundadoras brilhantes liderando algumas das nossas empresas investidas, mas sem este ter sido resultado de esforços intencionais. Agora começamos a monitorar métricas de diversidade em nosso pipeline e estamos ativamente utilizando novos canais para diversificar nossos contatos.

Outro benefício de contatos virtuais é o fato de poder equalizar as chances de captação de fundadores que talvez não possam ou não queiram participar em reuniões presenciais tradicionalmente presentes no processo de captação. Desenvolver relacionamentos virtuais pode ser desafiador, mas também cria a oportunidade para as fundadoras na medida em que as barreiras no contato com investidores têm sido enfraquecidas.

Mindset insight #4: O equilíbrio das responsabilidades pessoais e profissionais é mais uma conversa, com um maior apreço pelo trabalho não remunerado suportado pelas mulheres. Com reuniões presenciais conduzidas por conferências, a aparição acidental de crianças e animais de estimação fomentou a discussão das responsabilidades pessoais como parte das conversas de investimento.

As mulheres sempre assumiram com mais frequência as responsabilidades relacionadas com o cuidado da casa e das crianças, o que aumentou durante a pandemia. A Axios indicou que “de acordo com pesquisas recentes, 80% das mães afirmam que estão a ajudar com a maior parte do ensino em casa, com 70% a lidar com a maior parte das tarefas de casa, e 66% a dizerem serem responsáveis pela maior parte do cuidado das crianças”.

No entanto, as fundadoras têm sempre equilibrado essas tarefas diariamente, e agora são os homens que também começaram a fazer isso. “ A Covid impactou a visão de que as mulheres são sempre as que lidam com a criação e educação das crianças, com os afazeres domésticos, e que não podem dedicar tempo aos seus negócios. Isso é aparentemente falso”, disse Stephanie Corliss, da SnapShyft. Ela afirma que “sendo mãe de cinco crianças e trabalhando em tempo integral na nossa start-up… prova o que uma empreendedora pode conquistar de verdade”. Há um grande apreço a este tipo de equilíbrio no mundo pós-Covid.

Captação virtual pode também ser um ativo para as empreendedoras. Sarah Haggard, CEO e fundadora da Tribe, disse numa recente entrevista ao Geekwire que foi capaz de “captar enquanto estava grávida, sem isso se tornar parte das conversas (ou, pior, sendo um fator discriminatório). Ela também indica que realizar as reuniões via conferência lhe poupou tempo e dinheiro que seriam gastos em viagens.

Além da criação dos filhos, a Covid também reforçou os cuidados pessoais. Uma das empreendedoras afirmou que a maior lição aprendida durante a pandemia é que “dedicar tempo a mim mesma é tão importante quanto cada segundo que dedico aos meus negócios”.

Mindset insight #5: Uma maior quantidade de investidoras significa mais capital disponível para fundadoras. Numa indústria em que 65% dos fundos de venture capital americanos não possuem mulheres entre os sócios, de acordo com um estudo realizado pela All Raise, para que as empreendedoras possam ter sucesso, deve haver mudanças neste sentido. Sócias de fundos de venture capital investem duas vezes mais em empreendedoras do que os seus sócios, de acordo com informações publicadas pela Kauffman Fellows.

O viés, implícito e explícito, direcionado a fundadoras tem sido um impedimento difícil de quantificar numa indústria guiada por intuição, mas a maior parte das fundadoras sabe da verdade por trás dos fatos. Há uma “diferença substancial entre os resultados de esforços de investidores meu e do meu sócio,” afirma Corliss da SnapShyft. “Ele é capaz de mais rapidamente se aprofundar no processo do que já experimentei nos últimos 3,5 anos”. Com mais mulheres na equipa de investimento de fundos de venture capital, isso tem mudado aos poucos.

“Como empreendedora que criou duas empresas com equipas de fundadoras femininas, senti claramente a diferença quando não havia mulheres na equipa de investimento de fundos de venture capital que estávamos a prospectar,” disse Jules Miller, sócia da Mindset Ventures. “Quando nenhuma das reuniões com equipas de investidores masculinos não deram resultado, percebi que realmente nunca tivemos a chance de receber qualquer investimento, então paramos de procurar fundos que não tinham pelo menos uma mulher na equipa de investimento”. A maioria das fundadoras aprende isso da forma mais difícil já que inicialmente não consideram a composição da equipa de investimento quando estão a selecionar os fundos para prospectar, mas eventualmente percebem que este é um fator importante.

Para Miller, “esta também é a razão pela qual decidi ir para o lado de investimento, já que é onde posso ter o maior impacto. Faço um grande esforço para assegurar que temos um pipeline cheio de mulheres, pessoas de etnias diferentes e outras minorias. Isso não é feito com o intuito de causarmos um impacto social e fico frustrada quando as pessoas acham que é esta a razão – fundadores pertencentes a grupos minoritários representam enormes oportunidades de investimento e é um ponto no qual temos vantagem na Mindset Ventures, com mulheres representando metade dos sócios da empresa”.

Ainda há uma tendência positiva na diversidade e inclusão dentro do mundo de venture capital. Informações publicadas pela Axios mostram um aumento no número de mulheres pertencentes aos comités de investimento em fundos de venture capital americanos.

Outro resultado positivo foi o recente anúncio de dez empresas de venture capital, incluindo o Greycott Partners, o First Round Capital, o SVB Capital e outros, ao incluírem métricas de diversidade nos term sheets que encorajam a adição de investidores pertencentes a categorias minoritárias nas cap tables das empresas.

Apesar de serem passos na direção certa, ainda temos muito caminho pela frente. Estamos curiosos para ver como essas iniciativas entrarão em prática e planeamos liderar, por exemplo, em nossos próprios esforços na Mindset Ventures.

Mindset insight #6: Na dificuldade está a oportunidade.
Enquanto a Covid gera enormes desafios às fundadoras, especialmente no aspeto de captação de recursos, como Albert Einstein mesmo colocou, “em meio à dificuldade está a oportunidade.”

Com as mulheres a serem mais impactadas pelas demissões, de acordo com dados publicados pelo Bureau of Labor Statistics, mais estão deixando os seus empregos para criar os próprios negócios ou acelerá-los. “O clima económico tem incentivado mais mulheres a apostarem na criação das suas próprias empresas e a levantar capital mais cedo que o esperado, ou mais capital para que possam ter mais tempo de caixa”, afirma Palencsar da Anthemis.

Além disso, fundadoras que já criaram as suas empresas estão a aprender lições valiosas. Odulate, da Olori Cosmetics, afirma que o fator mais importante aprendido durante a crise foi “continuar o trabalho, não importa o que acontecer. Ajustar a estratégia, manter a agilidade e estar pronta para se adaptar”. Da mesma forma, Corliss da SnapShyft reitera “criar mais diversidade nos meios de geração de receita.”

Há também esperança em meio ao ambiente económico desafiador. Outra fundadora, por exemplo, viu a oportunidade de “contratar pessoas incríveis demitidas das suas funções anteriores sem necessariamente precisar levantar recursos adicionais para contratar pessoas cuja contratação, noutra circunstância, seria inviável.”

No final das contas, estamos vivendo em tempos em que mudanças são necessárias para que possamos prosperar, e a indústria de venture capital não foge a esta regra. Como Straus da Dundee Venture Capital afirmou, “temos que continuar a seguir em frente e a pressionar o limite do que achamos que seria possível. Somos capazes de interagir com pessoas, fazer investimentos, contratar pessoas e criar empresas inteiras, mesmo sob as restrições impostas pela pandemia”. A Covid acelerou muitos processos, impactou muitas indústrias e abriu as nossas mentes e os nossos olhos para vermos um mundo mais diverso e inclusivo.

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Daniel Ibri é Managing Partner e cofundador da Mindset Ventures, fundo de Venture Capital internacional focado em start-ups dos Estados Unidos e Israel, e foi considerado um dos mais influentes investidores de 2018 pela publicação Venture360. Além disso, também é... Ler Mais