Opinião

IA sem filtros: Revoluções tecnológicas

António Lucena de Faria, fundador da Fábrica de Startups

Durante os últimos quarenta anos de atividade profissional passei por quatro grandes revoluções tecnológicas com impacto direto nos negócios.

A primeira aconteceu quando estudava nos Estados Unidos e foi a revolução do computador pessoal. De repente, as empresas passaram a dispor de uma capacidade de processamento a que antes poucos tinham acesso. Foi o nascimento da indústria de software, que criou emprego para muitas pessoas e transformou profundamente a forma de funcionamento das empresas. Foi também um importante elevador social, ao permitir a muitas pessoas com menos recursos adquirir competências, nas universidades ou fora delas, e aceder a empregos melhores e mais bem pagos.

Quinze anos mais tarde surgiu a revolução da Internet, que transformou redes locais de computadores em redes globais e permitiu a um computador no país X comunicar, de forma quase instantânea, com outro no país Y, mesmo que estivesse do outro lado do mundo. Cerca de dez anos depois assistimos à revolução dos smartphones, que nos permite comunicar e aceder à Internet, a qualquer hora e em qualquer lugar, com custos muito reduzidos.

Mas nenhuma destas revoluções tecnológicas é comparável à revolução da Inteligência Artificial que estamos hoje a viver, atendendo ao impacto já visível nos negócios e nas nossas vidas pessoais, bem como ao seu enorme potencial disruptivo, que se fará sentir de forma crescente e acelerada nos próximos anos.

Curiosamente o meu primeiro emprego foi numa empresa de consultadoria nos Estado Unidos onde fui responsável pela área de Inteligência Artificial, no ano de 1985… Nessa altura IA significava essencialmente a implementação de sistemas periciais (expert systems). Para além das limitações de capacidade de processamento dos computadores e de armazenamento de dados, havia um outro grande obstáculo à implementação deste tipo de sistemas, que consistia na necessidade de extrair o conhecimento dos especialistas, pouco motivados para o fazerem.

Passaram quarenta anos até que, no final de 2022, alguém teve a ideia de permitir a interação com sistemas de Inteligência Artificial através de mensagens de texto. Uma ideia simples, mas que abriu a qualquer pessoa a possibilidade de comunicar com estes sistemas.

Como resultado das quatro revoluções acima descritas hoje podemos ter no nosso bolso não apenas as 2000 músicas de que o Steve Jobs falou quando apresentou o iPod, mas todo o conhecimento da humanidade que já tenha sido convertido para o formato digital.  Hoje a capacidade mais valorizada não é nossa memória ou a nossa capacidade de encontrar soluções. É, acima de tudo, a capacidade de fazer as perguntas certas, de forma a maximizar a qualidade das respostas que os sistemas de Inteligência Artificial nos podem dar.

Hoje, só não sabe quem não quer, porque quem não sabe precisa apenas de perguntar, não de forma genérica, mas com o cuidado de definir um contexto e explicar com clareza aquilo que pretende. E foi assim nasceu mais uma nova profissão, a Engenharia de Prompts.

Com este artigo pretendo dar início a uma série dedicada ao impacto da Inteligência Artificial nas empresas, abordando temas como a criação de valor com IA, a competências que líderes e equipas devem desenvolver, o impacto na produtividade e na organização do trabalho, os riscos e a sua mitigação, os critérios para escolher entre as muitas soluções disponíveis, o retorno do investimento e medição de resultados, a automatização inteligente de processos, o papel dos agentes de IA nas operações e a evolução para modelos de negócio cada vez mais autónomos.

Ao longo desta série abordarei também outros temas que venham, entretanto, a ganhar relevância. Estamos apenas no início de uma transformação profunda, e compreender hoje estas mudanças será decisivo para liderar com confiança o futuro dos negócios.

* Este artigo faz parte da rubrica “IA sem filtros”, composta por uma série de textos da autoria de António Lucena de Faria.

Comentários
António Lucena de Faria

António Lucena de Faria

António Lucena de Faria foi fundador e presidente da Fábrica de Startups, empresa criada em Abril de 2012. É também membro fundador da StartupPortugal, em representação da Fábrica de Startups. Foi o responsável pela organização e realização em 2012 e 2013 do programa Energia de Portugal. Liderou a criação e desenvolvimento de mais de 10 empresas, tendo começado o seu percurso como empreendedor com o lançamento da Methodus Sistemas em 1987. É professor de empreendedorismo na Católica Lisbon School of... Ler Mais..

Artigos Relacionados