Opinião

Aprender com a China

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School

Se a ocupação indiana através da East India Company foi gradual e com todo o território subjugado e completamente explorado, deixando a sua população na mais abjecta pobreza, na China as coisas foram diferentes.

Veja-se primeiro o que dizem William Dalrymple e Angus Maddison sobre a colonização britânica:


E o economista Jeffrey Sachs[1] tira esta conclusão muito lógica:

Na altura da Independência da Índia a taxa de literacia da Índia era de 17% e a expectativa de vida da população indiana era de 32,5 anos. E afirma: “A máxima ilustração da irresponsabilidade imperial britânica foi a sua resposta às repetidas fomes e epidemias durante a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX”.

A colonização britânica da Índia terá sido a maior desgraça que caiu sobre ela.

Maddison[2] acrescenta ainda que a Índia era o país mais rico até ao século 17. Mais afirma: a Índia produzia 27% da riqueza mundial, em 1700 (a comparar com os 23 % de toda a Europa), e apenas de 3 % em 1950. Esse seria o motivo para a Europa estar com os olhos postos na Índia, acelerando todo o processo de descoberta do Caminho Marítimo, em busca da sua riqueza.

No século XVI o Ocidente tentou colonizar a China, mas não conseguiu fazê-lo como na Índia. Mas ao perder as duas guerras de Opio, 1839-42 e 1856-1860, a China cedeu o controlo de certas áreas durante o século XIX a vários países europeus, aos Estados Unidos e ao Japão.1

Este processo levou ao estabelecimento de mais de 80 “Concessões” e tratados ao longo da China. As Concessões tinham o seu enquadramento legal, permitindo nelas investir para negócios para facilitar o comércio da potência colonial com outros países.

O Japão juntou-se também, mas a certa altura ocupou a parte nordeste da China, em 1931, transformando-se de facilitador de comércio para expandir-se territorialmente pela China. Essa tentativa foi seguida da invasão japonesa da China em 1937.

A maioria das Concessões foram dissolvidas no decurso da 2.ª Guerra Sino-Japonesa (1937– 45) ou logo a seguir. As únicas exceções foram Hong-Kong (sob o domínio inglês, devolvida em 1997, e Macau, de domínio Português, devolvida em 1999).

Após a vitória comunista em 1949, quase todas as Concessões foram integradas na China, do ponto de vista legal, político e económico, como parte da China. Estavam sujeitas a repressão política, planeamento central e controle de preços. E as suas ligações com o resto do mundo ficaram restringidas. Essa restrição mudou após a reforma e abertura da economia chinesa com Deng Xiaoping, a seguir a Terceira Sessão Plenária do 11o.º Comité Central, em 1978. Foi quando os laços económicos da China com o resto do mundo começaram a ser possíveis novamente.

Se a ocupação indiana através da East India Company foi gradual e com todo o território subjugado e completamente explorado, na China as coisas foram diferentes, com a venda do ópio produzido na Índia à China, destruindo milhões de vidas, o que levou às duas guerras do ópio com o estabelecimento das “concessões” aos Ocidentais invasores.

[1] in The end of Poverty, Jefrey Sachs, Penguim books, 2005, pg. 174
[2] Angus Maddison, inglês, em The World Economy: A Millennial Perspective. (2006; pg. 638).

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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