Atualmente, trabalhamos a partir de casa ou moramos no escritório? Esta é uma questão um pouco anedótica que se coloca nos dias de hoje como consequência da pandemia e das medidas de distanciamento social para a combater, nomeadamente o confinamento e a necessidade de, onde for possível, fazer-se o trabalho profissional a partir de casa.

Desengane-se quem pensa que trabalhar a partir de casa é um mar de rosas (principalmente para as mulheres devido à dupla jornada de trabalho), mas pelo facto de se conseguir trabalhar a partir do mesmo local onde vivemos, ou seja, sem ter a necessidade de se deslocar e de se cumprir rigidamente os horários, trouxe algumas vantagens. Mas existe também o outro lado da moeda: aumentou a carga horária de trabalho graças à tecnologia disponível que permitiu romper barreiras físicas e efetuar tarefas remotamente pela via do acesso remoto e seguro aos servidores das instituições, a realização de reuniões via videochamadas e a partilha remota do ecrã do computador. Efetivamente as reuniões via plataformas digitais já não têm horário nem dia de semana para serem feitas e há situações em que a pessoa está em duas reuniões, simultaneamente, com lugares geográficos diferentes.

Tudo isto é consequência da pandemia. Assim quando falamos em termos de organização do trabalho num contexto pós Covid-19, nada será como dantes: o novo normal aponta para um modelo híbrido de trabalho em que haverá mais trabalhos a partir de casa e os colaboradores se deslocarão apenas alguns dias por semana ao escritório. Assim se evoluirá de um modelo de organização do trabalho baseado no escritório para um modelo híbrido de trabalho entre casa e escritório com inúmeras vantagens para o trabalhador, para a organização (redução dos preços dos espaços) e para o ambiente em termos de redução da mobilidade não sustentável.

Mas para que tal possa acontecer sem prejudicar o desempenho, foram e serão necessárias algumas alterações em termos de paradigmas de organização do trabalho, incluindo a avaliação dos resultados. Ora, para se conseguir um bom resultado (um serviço, por exemplo) serão necessárias alterações na tecnologia, nos processos ou procedimentos e nas pessoas.

  1. Pessoas: em termos de modelo de avaliação, deixaremos de avaliar os inputs (atividades, esforços, horas de trabalho, dias de semana, presença física, assiduidade e pontualidade) para avaliarmos os outputs (o que a pessoa produziu). Em terminologia inglesa seria passar de um input based model para um output based model, isso por uma razão simples; o que interessa são os resultados;

Outra dimensão diz respeito às novas competências que serão eventualmente necessárias para o teletrabalho e estas podem incluir, como referirmos no artigo anterior, o upskiling e o reskiling de colaboradores. Mas também não se deve descurar o bem-estar dos colaboradores que trabalham a partir de casa no sentido de terem as mínimas condições de ergonomia e conforto sob pena de se criar problemas de postura corporal no futuro.

Por fim, não menos importante, o teletrabalho prejudica a cultura organizacional, pelo que os gestores organizacionais devem preparar estratégias de team building.

  1. Tecnologia: toda a alteração conseguida em termos de organização do trabalho tem sido possível graças à tecnologia que permite acesso remoto e seguro aos servidores e aplicativos da instituição, bem como à matéria prima (informação, dados) e procedimentos e à partilha de conteúdos. O acesso ao VPN (rede privada virtual) que antes era privilégio de alguns, ou seja, aceder aos servidores a partir de casa, passa a ser um instrumento básico de trabalho. Assim, para se concretizar esse desiderato, é necessário fornecer aos colaboradores portáteis com acesso à internet pelo que é quase sempre necessário adquirir mais software e hardware. Relacionado com este acesso massificado, temos a questões de cibersegurança. Esta situação vai acelerar a transição digital.
  2. Processos, procedimentos: esta terceira dimensão na organização do trabalho, diz respeito aos procedimentos e processos que antes estavam desenhados para uma presença física no escritório, e que agora devem ser alterados para poderem estar de acordo com a nova realidade do teletrabalho. A própria tecnologia permite cortar etapas com segurança e aumentar a eficiência e ao caminharmos para a transição digital, os processos devem ser readaptados. Por exemplo, tudo o que era presencial pode ser feito agora via plataformas digitais; os procedimentos sobre a avaliação devem ser alterados como mostramos; a assiduidade e pontualidade podem perder relevância numa situação de teletrabalho.

Mesmo quando a pandemia terminar, o processo de teletrabalho nos parece irreversível pelas vantagens que se apresenta. Naturalmente, nem todos poderão estar em teletrabalho, mas para quem for possível, essa será a norma.

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Carlos Rocha é economista, foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e... Ler Mais