Opinião

Liderar não é proteger decisões

Rita Duarte, CEO da Header
Foto: Rita Duarte, CEO da Header

Estamos constantemente a falar sobre a importância de decidir. Enquanto líderes, queremos decidir rápido, com a melhor informação e, se tivermos uma faísca de sorte, com coragem. Mas, na verdade, a maioria dos desafios de liderança não surge no momento da decisão.

É relativamente fácil tomar uma decisão quando os dados apontam numa direção, quando existe consenso ou quando o contexto exige ação – afinal, uma má decisão é, muitas vezes, melhor do que nenhuma decisão. Mais difícil é reconhecer que a realidade evoluiu de forma diferente daquela que antecipávamos e que a decisão tomada já não está a produzir os resultados esperados.

Ao longo dos anos, tenho observado um padrão curioso em organizações de diferentes dimensões e setores. Quando uma decisão começa a revelar-se menos acertada do que o esperado, deixa de ser analisada apenas pelos seus resultados e passa a ser interpretada como um reflexo de quem a tomou. Gosto de explicar este fenómeno com uma metáfora simples.

Uma decisão pode funcionar como uma janela ou como um espelho.

Uma janela permite observar a realidade com curiosidade e sentido crítico. Obriga-nos a questionar pressupostos, expectativas, critérios e contexto. Ajuda-nos a perceber o que mudou e o que pode ser ajustado.

Um espelho faz o contrário. A atenção deixa de estar na situação e passa a estar naquilo que essa decisão diz sobre nós. Sobre o nosso julgamento, a nossa competência ou a credibilidade que construímos junto da equipa, dos nossos pares ou do conselho de administração. Quando o espelho domina, algo muda na forma como lideramos. Deixamos de procurar compreender a realidade e começamos a proteger a decisão.

Existem tantas organizações que insistem em escolhas que deixaram de fazer sentido, não porque lhes falte informação, mas porque reconhecer a necessidade de corrigir o rumo é frequentemente interpretado como admitir um erro.

O problema é que a realidade não suspende as suas consequências enquanto protegemos a nossa reputação. Equipas continuam a compensar lacunas, as prioridades críticas continuam a ser adiadas e os recursos continuam a ser investidos em opções que já não respondem às necessidades da organização. O custo acumula-se de forma silenciosa enquanto aguardamos por uma evidência adicional que, muitas vezes, já não é necessária para decidir.

Aqui chegados, é frequente a sensação de que o tempo traz clarividência e damos por nós a dizer “Vamos dar mais algum tempo, depois decidimos”. Por vezes, este cuidado faz sentido. Nem todas as dificuldades iniciais justificam uma correção de rumo imediata e nem todas as decisões produzem resultados visíveis no curto prazo.

Por isso, vale a pena fazer uma pergunta sempre que surge essa tentação: que informação nova acredito que vou ter daqui a três meses que não tenho hoje? Se a resposta for clara e objetiva, provavelmente estamos a gerir uma situação que ainda está em evolução. Se a resposta for vaga, talvez estejamos apenas a adiar uma conversa difícil.

Para quebrar este ciclo, precisamos de líderes capazes de questionar as próprias decisões com a mesma exigência com que questionam as dos outros. Líderes que compreendem que rever uma escolha não diminui a sua autoridade nem enfraquece a sua credibilidade, antes pelo contrário. Líderes que mantenham sempre presente que liderar nunca foi proteger as decisões que tomámos nem o ego de quem as tomou. Foi, e continuará a ser, proteger a organização e as suas pessoas.


Rita Duarte trabalha com líderes e organizações em decisões críticas sobre pessoas, liderança e desempenho. Com uma experiência de mais de 15 anos na área da gestão de talento, foi Chief People Officer da Wellow Network antes de, em 2024, assumir a liderança executiva da consultora estratégica do grupo.

Licenciada e Mestre em Psicologia Social e das Organizações pelo ISCTE, tem ainda uma Pós Graduação em Prospetiva, Estratégia e Inovação pelo ISEG.

É voz ativa na promoção da liderança ao serviço de causas impactantes, da diversidade de pensamento e da construção de culturas organizacionais mais conscientes e sustentáveis, mantendo sempre a abordagem feliz de quem ama o que faz.

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