A formação profissional deve estar entre as prioridades da agenda político-económica portuguesa. É que, para além da necessidade de aumentar a produtividade e acelerar a transformação digital das empresas, importa reconverter, com urgência, profissionais de vários setores, em particular do turismo, que caíram no desemprego devido à pandemia de covid-19.

Para ser efetiva, a retoma económica e social exige um aturado trabalho de capacitação do potencial humano do país. Desde logo, a recuperação das empresas vai depender muito do desempenho profissional (individual e coletivo), dado que a produtividade permite aumentar a eficiência interna, criar mais valor, reduzir despesas, melhorar a qualidade de bens e serviços, aumentar as margens de lucro…. Importa não esquecer que Portugal tem um défice estrutural de produtividade, o que penaliza, não só a competitividade das empresas, mas também os próprios rendimentos dos trabalhadores.

Acresce que as empresas portuguesas competem hoje na economia do conhecimento. Ou seja, estão inseridas num sistema económico global em que o conhecimento científico, tecnológico e criativo é o principal fator de competitividade. Neste sentido, interessa às empresas não só captar mas também desenvolver talento, de forma a gerar internamente massa crítica com competências em áreas estratégicas como as TIC, a gestão, o marketing, a internacionalização, a liderança ou a criatividade, por exemplo.

Ora, isto faz-se intensificando a formação profissional, instrumento eficaz de especialização do capital humano em função das necessidades das empresas. Para desenvolver talento internamente, as empresas necessitam de programas de qualificação orientados para os novos fatores de competitividade – inovação, tecnologia, design, qualidade, etc. Sendo que, pela sua complexidade, este tipo de formação requer metodologias inovadoras, ambiente colaborativo e formadores especializados.

Por outro lado, é fundamental investir na reconversão profissional de adultos em situação de inatividade. A Comissão Europeia estima que o desemprego em Portugal suba para quase 10% em 2020, valor acima da média dos 27 Estados-membros. Importa, pois, investir na formação profissional, de modo a aumentar as competências dos desempregados e, consequentemente, as suas possibilidades de reintegração no mercado de trabalho.

Às consequências da pandemia sobre o mercado de trabalho, devemos acrescentar o impacto da revolução digital na cadeia de valor das empresas. As profissões mais rotineiras, menos especializadas e que não exigem conhecimento ou criatividade tendem a desaparecer ou ser substituídas por inteligência artificial. Há, por outro lado, profissões novas e em franco crescimento ligadas ao software, às tecnologias digitais, ao e-commerce, às redes sociais, ao big data e às energias alternativas. Mas isso não evita o chamado “efeito sanduíche”, ou seja, a tendência para o mercado de trabalho privilegiar, em simultâneo, a mão de obra com baixas qualificações e os profissionais altamente qualificados. Em resultado, verifica-se uma redução das oportunidades para os profissionais com qualificações intermédias.

Estamos, portanto, a assistir a uma profunda reconfiguração do mercado de trabalho em Portugal, circunstância que obriga o país a reagir com uma estratégia para a qualificação assente nos três vetores referidos: desenvolver talento nas empresas, ajustar o capital humano à transformação digital e reconverter profissionais dos setores em crise.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais