“O mundo está a mudar” – é a frase mais banalizada dos últimos tempos.

É verdade que estamos conscientes desta sina imposta pelo mundo atual, mas estaremos preparados? Será que é o futuro que nos obriga a formatar ou será que formatamos nós o futuro?

A Nike anunciou uma migração, nunca antes vista, do marketing tradicional da marca para o digital: nos últimos quatro anos, a conhecida empresa americana reduziu em cerca de 80% o investimento em publicidade no pequeno ecrã, enquanto aumentou em 200% a sua aposta em canais digitais, segundo números da Nielsen. Poderemos julgá-los? Na verdade, qual é a primeira coisa que fazemos quando vemos televisão e começam os anúncios? Pegamos no smartphone.

O setor dos transportes também não é exceção:  a Volvo anunciou a produção exclusiva de carros elétricos ou híbridos a partir de 2019. As plataformas digitais que oferecem sistemas de boleias, como a UBER ou a CABIFY, e as que permitem o aluguer de bicicletas, motas ou carros durante um período curto de tempo, como a Ecooltra ou a Drive Now, surgem às dezenas e parecem satisfazer a necessidade do consumidor atual. A partir de uma simples aplicação instalada no nosso telemóvel, prometem acabar com o paradigma de posse de um meio de transporte.

De uma geração para a outra, assistimos a um crescimento desmesurado do número de automóveis na cidade. Há bem pouco tempo, cada familia possuía um carro – o carro da família. Em poucos anos, os casais passaram a ter dois carros em casa e a oferta de automóveis aos filhos tornou-se comum. Com isto, as cidades começaram a lidar com o triplo ou quádruplo dos automóveis. Um problema colossal para a dinâmica da cidade, para a qualidade de vida dos seus habitantes e principalmente para o nosso futuro enquanto sociedade, se tivermos em conta a dívida ambiental que deixamos para as próximas gerações.

O meu caríssimo e ilustre amigo Professor Mohan Monasinghe, vencedor do Prémio Nobel da Paz em 2007, a par do Al Gore, tem uma visão muito pragmática relativamente ao nosso futuro – “Vamos passar tempos bem difíceis que serão amenizados quanto mais rápida e eficaz for a mudança global da nossa sociedade”.

O professor sempre realçou que as ditas alterações climáticas são bem mais do que fumo em direção à atmosfera. É um problema social. É necessário lutar contra a disparidade social vigente, seja no nosso país, seja no mundo. E esta mudança começa na liderança. Os líderes devem assumir uma posição forte a favor da sustentabilidade do nosso planeta, recorrendo a ferramentas atuais e apoiando uma rede de empresários, empreendedores, investidores e cidadãos que se comprometem a trabalhar pela melhoria da qualidade de vida contemporânea e futura.

Sim, é crítico que se reduza o consumo, os resíduos poluentes, as emissões de gases destrutivos para a atmosfera. No entanto, tudo isto deve ser trabalhado em uníssono com o nivelamento da nossa sociedade. É preciso dar o exemplo. É preciso ver pessoas a inspirar outras pessoas e grupos a inspirar comunidades, pois só assim conseguiremos mudar o comportamento humano em prol do meio ambiente onde vivemos.

Agora imaginem, a modo de exemplo, o efeito da tecnologia bem aplicada na transformação positiva das cidades: carros elétricos com ruído insignificante, autónomos e com zero emissões, que chegam até nós e nos levam ao destino pretendido, a partir de um simples toque no telemóvel. Conseguem imaginar um centro urbano com este silêncio? O ar das grandes capitais europeias com uma pureza infinitamente superior àquela a que estamos habituados? Parece surreal, sim, mas é uma realidade cada vez mais verosímil com o progresso que temos acompanhado. Está a acontecer. Agora.

É dificil imaginar o que é viver em cidades assim. Mas certamente não me importaria.

E os nossos filhos também não.

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Sérgio Ribeiro é CEO e cofundador da Planetiers. Concluiu o mestrado em Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico de Lisboa. A sua tese de mestrado baseou-se na otimização da gestão de efluentes numa fábrica de biodiesel da Galp. Nos últimos... Ler Mais