Formação de investidores, negociação do enquadramento fiscal, barómetro nacional e eventos de promoção da partilha e coinvestimento entre os associados são algumas das prioridades em cima da mesa da Investors Portugal, revelou Pedro Bandeira, copresidente da nova associação de investidores de early stage, em entrevista ao Link To Leaders.

A Investors Portugal, lançada na semana passada em resultado da fusão das duas entidades portuguesas de business angels (a Federação Nacional de Business Angels e a Associação Portuguesa de Business Angels), quer investir 150 milhões euros nos próximos três anos para melhorar a atividade dos investidores nas novas empresas de base tecnológica. Atualmente, a nova associação apoia cerca de 425 business angels e conta com mais de 300 start-ups investidas.

No âmbito da Semana do Investidor, que termina amanhã, o Link To Leaders falou com João Trigo da Roza e Pedro Bandeira, copresidentes da Investors Portugal, sobre os objetivos da instituição, os desafios atuais que enfrentam os business angels, o ecossistema de empreendedorismo, a importância do apoio do governo ao setor e os planos para o futuro.

O que levou a criar a Investors Portugal?
João Trigo da Roza (J.T.R.)
: O investimento em early stage é crítico para enfrentarmos os desafios das próximas décadas: o clima, a energia, o desenvolvimento e inclusão. Por isso, os atores deste ecossistema decidiram unir-se em torno da Investors Portugal para, assim, terem um papel e uma voz mais ativos.

Quais os objetivos da instituição e como irá atuar?
Pedro Bandeira (P.B.):
A Investors Portugal nasce para representar e profissionalizar. Representamos todos os investidores de early stage a atuar em Portugal. Essa representação permite ter uma só voz do setor e torna muito mais eficiente a cocriação de medidas de suporte com os nossos parceiros públicos e privados. Profissionalizar significa que todos juntos queremos crescer e queremos ser melhores. Isto significa partilha de boas práticas entre os associados e com os homólogos internacionais, formação dos investidores, estudos credíveis, certificação séria, negociação de benefícios para os associados, etc. Na verdade, tudo se resume a que juntos somos mais fortes.

Quais as áreas de aposta da Investors Portugal?
P.B.: Formação e certificação são apostas prioritárias para a profissionalização e credibilização do setor. Para além disso, ajudar os nossos associados com o deal-flow [fluxo de negociação], o fundraising [atividade de captação de recursos]e os exits [saídas] pode ter efeitos de escala para todos. No entanto, a Investors Portugal não vem substituir os seus associados nestas responsabilidades. A associação existe para ajudar e partilhar, esse é o espírito fundacional – uma associação em que todos somos chamados a contribuir e a beneficiar. E este espírito de cooperação que agora se vê é um sinal muito claro de que estão todos comprometidos com o bem comum.

Ainda outra área importante é a dos incentivos. Como vamos incentivar mais investidores a investirem em start-ups, como vamos tornar este setor mais sustentável e sólido? É fundamental fomentar o surgimento de mais atores, mas também ajudar os atores atuais a ficarem cada vez mais sólidos. Coinvestimento público é importante para dar o volume que ainda não temos, mas que as start-ups precisam e um enquadramento fiscal motivador estável permite criar planos de longo prazo, manter os atores mais tempo na atividade e acumular conhecimento que torna o setor mais sólido, para além de atrair investimento estrangeiro.

Que tipo de perfil encontramos, para já, na Investors Portugal? Há mais mulheres?
J.T.R.:
A Investors Portugal é composta por associados individuais que são os business angels, mas também por entidades coletivas como clubes de investidores, veículos de investimento, fundos de capital de risco, aceleradoras que investem e grandes empresas com uma atuação de corporate venture capital. Alguns dos elementos mais ativos são mulheres, mas estas encontram-se ainda em minoria. Por isso, uma das linhas de atuação é precisamente fomentar a participação feminina no investimento, que tradicionalmente tem sido uma área com preponderância masculina.

“É importante referir que um dos modelos mais profissionais de investimento de business angels a expandir-se pelo mundo nasceu em Portugal”.

O que é preciso ainda fazer para melhorar a profissionalização dos business angels em Portugal? O que tem melhorado e o que ainda é preciso mudar?
P.B.:
Os business angels são conhecidos como o capital de risco informal, amador e pequeno. Já não é assim! Os business angels são muito diversos, mas distinguem-se, no geral, por investirem o seu capital e serem ativos na decisão de investimento e no acompanhamento das start-ups, acrescentando o seu conhecimento e experiência pessoal e a sua rede de contactos. Não são investidores meramente financeiros que delegam noutro a gestão dos seus investimentos. Há business angels que fazem a sua atividade como um hobbie, mas cada vez se veem mais business angels a investirem em grupo e através de estruturas profissionalizadas.

Há veículos de investimento com equipas dedicadas, há fundos de angels com processos de facilitação do envolvimento dos investidores com as start-ups e há cada vez mais experiência no setor, fruto de boas e más histórias. É importante referir que um dos modelos mais profissionais de investimento de business angels a expandir-se pelo mundo nasceu em Portugal.

As start-ups já não precisam de ter investidores que não sabem o que estão a fazer. A minha recomendação para quem é novo no setor é se junte a um grupo já com experiência para acelerar a curva de aprendizagem e evitar os erros comuns. A fazer, é fundamental formação. Andamos todos a aprender, errando. Mas não vivemos o tempo suficiente para cometer os erros todos. Temos que aprender com os erros dos outros. Formação de pares e promoção do coinvestimento entre pares a nível nacional e internacional aceleram a aprendizagem de todos. Para além disso, um enquadramento fiscal competitivo fomenta a estabilização de equipas que vão acumulando conhecimento e atraindo e formando eles próprios os novos business angels. Ainda para finalizar, a certificação dos atores é importante para garantir padrões de qualidade e credibilidade.

“Convencer um business angel a investir numa start-up tem muito mais de namoro do que de negociação. E não dá para namorar por zoom!”.

A pandemia mudou a relação dos business angels com as start-ups?
P.B.:
Nem tanto. Há mais reuniões à distância do que antes da pandemia, com certeza. Mas o conteúdo das relações, o propósito, não mudou como a forma. Agora, no deal-flow isso mudou bastante. Já não acontecem interações espontâneas em eventos e nos corredores das incubadoras e aceleradoras como antes. É tudo mais premeditado, mais preparado. E, por isso, é urgente voltarmos a democratizar o acesso a investidores, potenciar encontros fortuitos. Convencer um business angel a investir numa start-up tem muito mais de namoro do que de negociação. E não dá para namorar por zoom! Mas estamos a voltar a olhar os empreendedores nos olhos e isso é muito importante para criar relações de confiança porque relações com confiança frágil não têm a mesma resiliência nos momentos difíceis!

Quais os desafios que os business angels e os fundos de capital de risco early-stage enfrentam nos dias de hoje?
P.B.:
São vários, mas a globalização dos fundos (alguns deles gigantes) é uma oportunidade e uma ameaça ao mesmo tempo. Os fundos gigantes que investiam em fases mais maduras estão a aparecer cada vez mais no early stage. Os amadores não vão conseguir ter acesso às melhores oportunidades. Temos mesmo que ser profissionais ou ficamos com as start-ups que mais ninguém quer. Além disso, em Portugal temos sempre muita dificuldade em explicar o quadro fiscal em comparação com outros países próximos. Na verdade, é muito mais vantajoso investir no Reino Unido do que aqui. Vejo um sentido de dar de volta à comunidade nos investidores portugueses. Querem contribuir para a inovação no nosso país! Mas isto não vai ser a todo o custo. Ou há sinais claros de que Portugal quer os investidores e as start-ups cá ou só nos vemos no Web Summit para matar saudades e passamos o resto do ano noutro país!

“Parece que só há atividade de investimento em Portugal quando temos coinvestimento público – são os dados a que temos acesso”.

Como evoluiu o investimento em start-ups no último ano e quais as perspetivas para este ano?
P.B.:
Vamos falar de sensações! Precisamos de fazer um observatório sério periódico da atividade em Portugal. Não temos números suficientemente credíveis para fundamentar leituras sérias. Parece que só há atividade de investimento em Portugal quando temos coinvestimento público – são os dados a que temos acesso. Mas pelas informações que recebemos dos nossos associados, e lendo também as tendências mundiais, percebemos que a Covid-19 não teve um impacto significativo no total anual de investimento.

Talvez tenha havido uma redução no número de investimentos, mas parece ter havido um aumento no volume total de 2019 para 2020, e 2021 deverá terminar acima de 2020 ainda que aparentemente estejamos a crescer menos do que a média mundial e europeia. Este aumento parece ter-se devido a transações maiores, mas um menor número de investimentos pequenos nas fases muito iniciais. Reforço – não há estratégia sem dados e a Investors Portugal está comprometida com a criação de um relatório periódico agregado em conjunto com os atores privados e as instituições públicas do setor.

Quais têm sido as áreas de maior investimento em Portugal?
J.T.R.:
As áreas de maior investimento têm sido a saúde e o ecommerce, o que é normal dado a situação pandémica que vivemos.Mas existem muitas outra áreas com peso como é o caso do cleantech, cyber security e inteligência artificial.

O Orçamento de Estado continua a pecar pela ausência de medidas de promoção do investimento privado? Quais as sugestões/propostas da Investors neste sentido?
J.T.R.
: Uma das áreas que tem que ser repensada é a dos benefícios fiscais. Devíamos tomar como referência algumas das melhores práticas internacionais como é o caso do EIS – Enterprise Investment Scheme, do Reino Unido. Se queremos captar capitais para esta atividade de risco, mas de alto valor multiplicador na economia, temos que atuar e rápido, pois estamos a competir com outros países que levam uma vantagem grande nesta matéria. Claro que temas como o englobamento obrigatório só podem penalizar fortemente quem quer ser empreendedor que assim veria uma taxa combinada de IRC e IRS proibitiva…

Por que continuam a existir hoje em Portugal falta de fundos para apoiar a internacionalização das start-ups?
J.T.R.:
Precisamente porque esse é um problema crónico do país – a escassez de capital. Mais uma razão para atrairmos e focarmos o capital nas prioridades que nos podem dar mais crescimento sustentado. Se não o fizermos, corremos o risco de as empresas nascerem em Portugal e depois na fase de scale-up emigrarem, o que já está hoje a acontecer com os nossos unicórnios. Dos cinco unicórnios portugueses só um é que mantém sede em Portugal.

“O orçamento do Estado agora em discussão e o próximo ano serão a oportunidade ideal para saber se contamos ou não com o Governo de Portugal e com a Assembleia da República”.

Que iniciativas tem a Investors Portugal previstas para este e o próximo ano?
P.B.:
O ano de 2021 foi o ano da união e estabelecimento das bases necessárias para a Investors Portugal poder prosseguir os seus objetivos nos próximos anos. Como associação democrática que é, a atividade da Investors Portugal dependerá sempre dos planos da sua direção em funções aprovados em assembleia. As prioridades em cima da mesa neste momento, que acredito mais garantidas, vão da formação de investidores, à negociação do enquadramento fiscal, passando pelo barómetro nacional, interação internacional e eventos de promoção da partilha e coinvestimento entre os associados.

Não vamos fazer tudo em 12 meses, mas podem contar com uma associação dinâmica e realizadora. Com certeza que a velocidade de execução numa associação nova, que vive do voluntariado dos seus membros e de uma muito pequena equipa operacional, será fortemente impactada pela existência de apoio público e político. Vamos ver se a inovação com real impacto económico e criação de emprego qualificado sustentável é uma prioridade estratégica nacional como parece no discurso. O orçamento do Estado agora em discussão e o próximo ano serão a oportunidade ideal para saber se contamos ou não com o Governo de Portugal e com a Assembleia da República.

Não somos contra nem a favor pela cor das medidas ou dos argumentos, mas seremos sempre sérios no elogio e na crítica. A Investors Portugal vai militar por um país mais justo, mais competitivo, com mais oportunidades para todos e promover o elevador social através da democratização do capital de risco que não avalia a origem do talento, apenas a competência e audácia.

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