Opinião
Os salvadores do mundo e das empresas
Estamos numa época em que ainda se vai celebrando a Páscoa em vários países do mundo. Nesta data, para os cristãos, celebra-se a morte e ressurreição de Cristo e para os judeus a libertação do povo judeu do Egipto.
Factos e acontecimentos históricos em que num Moisés e noutro Jesus Cristo assumem o papel um de salvador do povo Judeu e outro o de salvador do mundo. Já ao longo da história da humanidade muitos quiseram ascender a este plano de salvadores (excluindo sempre a parte do sofrimento, pois claro) porque o que é mesmo bom é a glória, o ser-se admirado e a visibilidade de se ser salvador e não propriamente o lado do sofrimento, a morte e o sacrifício que os antecederam. Mal comparando é ter direito a um bolo espetacular, sem ter de o fazer nem comprar.
Os nomes de Luís XIV de França, Nero na antiga Roma, Hitler e Estaline no século passado, e tantos outros neste século, que vivem de exaltar e divinizar as suas excelsas pessoas, são exemplos claros disso. Nenhum deles teve sucesso que perdurasse e os seus devaneios duraram enquanto eles viveram.
Toda esta conversa que se encaixa muito bem no mundo de hoje também é vivida em muitas empresas. A teoria de “sem mim é o caos” gera ineficiências e dificuldades no crescimento das empresas, mas também pode gerar o fim da mesma. Há empresas que conseguem resistir ao impacto dos ditos salvadores, mas outras não. Conheci a dona de uma empresa que era assim, herdou a empresa e deu cabo dela. Bastava ouvi-la falar e percebia-se que o mundo se centrava na sua luz própria. Todos conhecemos o caso da HP com Carly Fiorino, que engendrou a fusão da HP com a Compaq, despediu trinta mil trabalhadores, alimentou guerras com os acionistas e acabou despedida, felizmente antes de acabar com a empresa.
Mas também acontece fora do topo, naqueles trabalhadores que não podem tirar férias senão a empresa acaba. Não conseguem fazer tudo nem deixam fazer e muito menos têm capacidade de dar formação, ensinando outros a sua missão. São um dos maiores perigos nas empresas, porque são sempre o gargalo do funcionamento da mesma. São também eles uns reis-Sol à sua medida.
Um aspeto curioso nestes salvadores do mundo é que todos eles fizeram guerras para aumentar o seu domínio. Não se contentam com o muito querem o tudo mesmo quando isso é uma utopia. Luiz Roberto Bedstein diz “Tem pessoas que se acreditam democráticas, porque concordam que você faça o que ache certo… desde que o seu certo seja igual ao delas!” Este pensamento domina muito as nossas empresas e por isso só aceita trabalhar nestas condições os incompetentes (porque não arranjam mais nada), os despidos de qualquer ética (porque a esses tanto lhes faz) e os bajuladores que querem viver à sombra dos autoproclamado salvadores!
Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.








