Opinião

Redes de investigação no Ensino Superior: entre colaboração e sustentabilidade, o que falha?

Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus

Vivemos num tempo em que a lógica de rede deixou de ser apenas uma metáfora descritiva para se afirmar como um verdadeiro modelo de organização e criação de valor. A crescente interdependência entre atores, setores e geografias trouxe para o centro do debate a importância da colaboração estruturada, sustentada e orientada para resultados.

No contexto da gestão, as redes assumem-se como plataformas dinâmicas de acesso a recursos, conhecimento e capacidades, tangíveis e intangíveis, que dificilmente seriam mobilizadas de forma isolada. Mais do que simples mecanismos de cooperação, constituem-se como ecossistemas, em que se criam sinergias, partilham riscos e onde se amplifica o impacto coletivo.

Esta transformação em “rede” foi amplamente analisada por Manuel Castells na sua obra: A Sociedade em Rede, onde descreve a emergência de uma sociedade profundamente configurada pela integração das tecnologias de informação e pela aceleração dos fluxos de comunicação. Neste novo paradigma, a participação ativa, seja no plano económico, científico ou cívico, depende da capacidade de integração em redes suportadas por infraestruturas tecnológicas avançadas.

Castells sublinha, aliás, que a tecnologia veio reconfigurar os sistemas organizacionais, promovendo modelos em rede que facilitam a difusão de conhecimento e a cooperação entre entidades, contribuindo para a criação de padrões de produção e concorrência simultaneamente globais e adaptáveis aos contextos locais.

Esta lógica é plenamente transponível para o universo do Ensino Superior e da investigação. As Universidades afirmam-se hoje como pilares estratégicos no desenvolvimento económico e social, com um papel determinante na criação de conhecimento, inovação e valor acrescentado. Neste contexto, a investigação científica deixou de ser uma atividade isolada para se tornar num processo colaborativo, cada vez mais complexo e interdependente.

É precisamente neste enquadramento que emergem as redes de investigação como instrumentos essenciais para a sustentabilidade e relevância do conhecimento produzido, bem como forma de validação das Universidades. Estas redes agregam universidades, centros de investigação, empresas, entidades financiadoras e outros stakeholders, nacionais e internacionais, criando condições para uma abordagem integrada e multidisciplinar aos grandes desafios contemporâneos.

A evidência tem vindo a demonstrar que a produção de conhecimento, por si só, é insuficiente, se não for acompanhada por mecanismos eficazes de partilha, validação e aplicação. O verdadeiro valor reside na capacidade de integrar esse conhecimento em redes que o potenciem, acelerem a sua maturação e ampliem o seu impacto nas sociedades.

Neste sentido, a sustentabilidade das redes de investigação depende de uma lógica de interdependência estruturada, onde cada entidade (enquanto nó da rede) desempenha um papel claro e contribui de forma consistente para objetivos comuns a essa mesma rede. Quanto maior a densidade, diversidade e internacionalização dessas redes, maior será o seu potencial em criar valor e gerar impacto na rede.

Exemplos internacionais, nomeadamente no Leste Asiático, demonstram que os modelos organizacionais mais resilientes e competitivos assentam precisamente em estruturas em rede, onde o foco não está nos atores isolados, mas na qualidade das relações, na confiança e na capacidade de articulação entre os diferentes nós (organizações, entidades financeiras, concorrência).

Importa, por isso, assegurar que estas redes dispõem de condições estruturais adequadas para prosperar. O investimento em Investigação e Desenvolvimento deve assumir-se como um eixo estratégico, com políticas públicas que reforcem o financiamento, incentivem a colaboração e garantam a continuidade das infraestruturas de suporte, bem como a sua dinamização. Caso contrário, se não existir suporte sem uma reforma clara dos modelos de financiamento destas redes que promovam a respetiva sustentabilidade, estas não conseguirão perdurar no tempo, muito menos, concretizar os seus pressupostos.

A condição de sustentabilidade das redes e o seu sucesso depende da forma como estão organizadas. No caso dos países do Leste Asiático, o sucesso traduz-se na forma como cada “nó” entende a função que desempenha na rede, uma vez que a estrutura se encontra hierarquizada e os papéis estão previamente definidos. O que não se verifica quando olhamos para algumas redes de investigação, contribuindo para a não execução de muitos projetos, resultante, sobretudo, de falhas estruturais. A coesão dos “nós” e a definição do papel estratégico de cada entidade é fundamental para que a rede cumpra o seu propósito. É preciso entender a rede como algo em permanente mudança e adaptação.

Bibliografia
Castells, M. (2002). A era da informação: Economia, sociedade e cultura. Vol. 1: A sociedade em rede. Fundação Calouste Gulbenkian.

Comentários
Teresa Damásio

Teresa Damásio

Teresa Damásio é Administradora do Grupo Ensinus desde julho de 2016, que faz parte do Grupo Lusófona, o maior grupo de ensino de língua portuguesa no mundo. É também Administradora do Real Colégio de Portugal e do Grupo ISLA. Presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau e Membro do Conselho de Administração do ISUPE Ekuikui II, em Angola. Presentemente, integra a Direcção da AEEP. Foi fundadora da Internacionalização do Grupo Lusófona, passou pela Assembleia da República como... Ler Mais..

Artigos Relacionados