Opinião
No futuro seremos todos chefes?
Numa altura em que o envelhecimento da população se apresenta como uma das tendências mais preocupantes das sociedades europeias (com particular expressão em Portugal), suscitando sérias apreensões em relação ao nosso futuro coletivo, o desenvolvimento tecnológico acelerado e, por vezes, desordenado, vai-se encarregando ele próprio de gerar fenómenos com um igual, ou maior, potencial de preocupação em relação a esse futuro, particularmente no tocante às evoluções dos mercados de trabalho.
Concretamente, a questão aqui é a de saber em que medida os desenvolvimentos tecnológicos, com particular relevo para a IA e a robotização, vão afetar os equilíbrios entre a oferta e a procura de trabalho e, mais concretamente, se no futuro, que agora se tornou num conceito de (muito) curto prazo, vai ou não vai haver trabalho para toda a gente e, mais crítico ainda, se vai haver gente para o trabalho que passa a existir.
Relativamente a este tema, um estudo publicado em janeiro de 2026, pela Bain & Company, (1) assinala que os robôs não só vão crescer a um ritmo cada vez mais acelerado, nos próximos anos, como vão progressivamente substituir grande parte do trabalho humano, particularmente nas tarefas repetitivas e de rotina, e servir como complemento cada vez mais indispensável num leque muito diversificado de outros setores, como os serviços, a educação, a saúde, etc.
Muitos dirão que não há nada de novo nestas conclusões do estudo, uma vez que a tendência para a substituição do trabalho humano por máquinas sofisticadas já vem sendo anunciada, ou vaticinada, desde há muito tempo.
Mas, para além do facto de ser sempre importante vermos vaticínios e tendências, há muito anunciadas, terem uma expressão mais concreta e objetiva em estudos a partir das realidades concretas do mundo atual, há uma leitura curiosa a fazer relativamente àquilo que, no estudo, são consideradas as funções ou domínios de atividade que vão ficar mais diretamente reservadas para os seres humanos, designadamente as atividades de planeamento, tomada de decisões e “workflow orchestration” que, em tradução livre, consiste em tarefas de coordenação e gestão de tarefas.
Ou seja, neste sentido, as máquinas passam a realizar o trabalho mais duro, mais arriscado, suscetíveis de gerar maior desgaste e desmotivação, libertando os seres humanos para atividades mais “nobres”, que exigem competências de maior complexidade cognitiva e de maior potencial diferenciador; em suma, tarefas e atividades habitualmente associadas a funções de supervisão e de chefia.
Os mais circunspectos e de maior acutilância crítica, continuarão a dizer que não há nada de novo nestas conclusões e que esta tendência para uma maior “eruditização” do trabalho humano no futuro, também já vem sendo anunciada há muito tempo.
No entanto, não deixa de ser curiosa esta associação, feita pelo estudo, entre as atividades que passam a ser dominantes nos humanos e as funções que tradicionalmente, eram, ou ainda são, associadas aos cargos de supervisão e de chefia, o que nos pode levar à questão relevante de saber se temos, ou vamos ter, a curto prazo, pessoas preparadas para as desempenhar, com a qualidade e eficácia que são exigidas em contextos profissionais altamente complexos e imprevisíveis.
Em termos simples, e tal como as coisas se apresentam, aquilo que o futuro nos reserva é a verdadeira e última derrocada dos modelos de trabalho herdados seja das revoluções industriais dos dois séculos anteriores, seja de outras revoluções tecnológicas mais recentes que, todavia, nunca conseguiram chegar ao ponto de revolucionar totalmente os paradigmas vigentes nas relações de trabalho, ainda muito baseados nas diferenças entre quem decide e quem executa.
Futuramente, e se as tendências apresentadas no estudo se vierem de facto a concretizar de forma abrangente, várias questões se vão colocar e se vão confrontar com os valores e as hierarquias sociais ainda instaladas na nossa sociedade, em concreto:
– Será que, numa altura em que a capacidade, e o poder, de decisão “descem” ao nível mais básico da estrutura, continuará a fazer sentido mantermos empresas e organizações com o velho sistema da estratificação piramidal das classes e categorias profissionais?
– Será que continuará a fazer sentido que os tradicionais leques salariais apresentem desníveis tão acentuados entre os diferentes níveis?
E, mais especificamente nos domínios respeitantes às pessoas.
– Será que os modelos de liderança e as próprias competências dos líderes poderão continuar a respeitar as velhas ortodoxias entre ações centradas sobre as “pessoas” e as atividades orientadas para as “tarefas”?
– Será que as sociedades irão ser capazes de absorver uma força de trabalho que, liberta das rotinas operacionais que passam a ser executadas pelas máquinas, precisam de mobilizar um esforço de adaptação e de “upgrading” das suas capacidades, e mentalidades, para se adaptarem aos novos rumos de modelos industriais cada vez mais sofisticados e de maiores exigências cognitivas?
– E, finalmente, será que a totalidade da “população trabalhadora”, ou grande parte dela, poderá transformar-se numa espécie de “chefe…sem chefiados”?
À velocidade em que as coisas vão acontecendo na nossa sociedade, não esperaremos seguramente muito tempo até ver algumas respostas a estas questões acontecerem.
Mas, mais importante do que isso, o que é melhor é não esperarmos mesmo, porque, num universo que poderá tender, cada vez mais, para que nos tornemos protagonistas, em vez de espectadores, é perfeitamente legítimo, e concreto, afirmarmos, proactivamente, que “o futuro …a nós pertence”.
REFERÊNCIAS
- Estudo “Humanoid Robots: How Early Commercial Exploration Can Lead to Large-Scale Use. By Xin Cheng, Anne Hoecker, Peter Hanbury & Arjun Dutt. Bain & Company, Janeiro de 2026.








