Entrevista/ “As PME subestimam frequentemente a verdadeira complexidade da internacionalização”
“As duas economias são amplamente complementares: a Irlanda é forte em exportações de elevado valor acrescentado e serviços; Portugal com competências reconhecidas na indústria transformadora, agroalimentar e em programas de apoio ao crescimento de start-ups e captação de investimento, o que cria oportunidades naturais de colaboração”, avalia Arnold Delville, General Manager da Ireland Portugal Business Network.
Juntar empresas e empresários portugueses e irlandeses, com o objetivo de apoiar a evolução das relações comerciais e económicas entre os dois países (que têm um comércio bilateral, avaliado em mais de 4 mil milhões de euros anuais) é a missão que a Ireland-Portugal Business Network (IPBN) assume desde que foi criada em 2016.
A Associação assume-se como uma comunidade de empreendedores, formalmente reconhecida pelos governos e organizações estatais tanto de Portugal como da Irlanda, que atualmente já soma mais de 210 membros, o que representa uma comunidade superior a 25 mil pessoas, e três delegações em Portugal – Lisboa, Porto e Algarve.
Em entrevista ao Link to Leaders, Arnold Delville, General Manager da Ireland Portugal Business Network, lembra que “esta parceria tende a manter-se importante, mas secundária caso não sejam desenvolvidos esforços mais direcionados para reforçar o envolvimento empresarial e o investimento”.
Qual o contributo da Associação para a dinamização do intercâmbio empresarial e empreendedor entre Irlanda e Portugal?
A Associação desempenha um papel ativo no reforço das relações empresariais e do intercâmbio empreendedor entre a Irlanda e Portugal, criando oportunidades relevantes de ligação, colaboração e crescimento. Desenvolvemos um conjunto diversificado de plataformas de networking (incluindo eventos, podcasts, masterclasses e conferências) que reúnem profissionais, fundadores e líderes de diferentes setores de ambos os países. Estas iniciativas são concebidas não apenas para aproximar pessoas, mas também para gerar oportunidades de negócio concretas e parcerias de longo prazo.
Adicionalmente, proporcionamos apresentações personalizadas, one-to-one, para apoiar a entrada em novos mercados e a expansão internacional. Isto inclui a ligação dos membros a stakeholders estratégicos, como empresas, centros de investigação universitários, investidores e oportunidades de financiamento. Facilitamos também o contacto com consultores jurídicos e financeiros de confiança, bem como apoiamos as empresas na identificação e recrutamento de talento local.
Através desta combinação entre criação de comunidade e apoio prático, a Associação atua como uma ponte, permitindo aos membros navegar em novos mercados com confiança e construir relações transfronteiriças sustentáveis. Temos vários exemplos de sucesso empresarial dentro da Rede.
“(…) posicionámos a Associação como uma porta de entrada fiável para a entrada no mercado, o desenvolvimento de parcerias e o acesso a conhecimento local”.
Em 10 anos de atividade, quais as principais “conquistas” da Associação?
Ao longo de mais de uma década de atividade, a Associação afirmou-se como uma plataforma de confiança e de referência na promoção das relações empresariais entre a Irlanda e Portugal, contando atualmente com uma rede em crescimento de mais de 200 membros.
Uma das nossas principais conquistas foi tornar-nos o primeiro ponto de contacto para empresas e empreendedores irlandeses que pretendem fazer negócios em Portugal ou com Portugal. Através de um envolvimento consistente e de uma reputação sólida, posicionámos a Associação como uma porta de entrada fiável para a entrada no mercado, o desenvolvimento de parcerias e o acesso a conhecimento local.
Construímos também um calendário dinâmico de eventos, que inclui três conferências anuais de referência dedicadas à Sustentabilidade, Inovação e Turismo. Estes encontros — frequentemente realizados com a presença e apoio do Embaixador — criam oportunidades de elevado valor para a troca significativa entre stakeholders irlandeses e portugueses, ajudando a transformar contatos em resultados de negócio concretos.
Que outras iniciativas desenvolvem?
Um pilar particularmente forte do nosso trabalho tem sido o desenvolvimento de parcerias académicas e institucionais. Celebrámos um número crescente de protocolos com organizações de referência em ambos os países, incluindo a Porto Business School, University of Algarve Tec Campus, Universidade Católica Portuguesa (Porto), Universidade Europeia, UC Business School e Católica Porto Business School. No total, promovemos colaborações sólidas com mais de 30 instituições em Portugal e na Irlanda, criando um ecossistema robusto para a partilha de conhecimento, colaboração em investigação e desenvolvimento de talento. Somos também parceiros de destaque da UCD Business e do Trinity College, na Irlanda.
O nosso impacto é ainda reforçado através de parcerias com organizações empresariais e pelo apoio dos nossos Executive Partners, que ajudam a orientar a rede e a garantir a máxima criação de valor para os nossos membros. Adicionalmente, mantemos a nossa comunidade informada e envolvida através de notícias e conteúdos regulares, promovendo simultaneamente uma cultura de partilha de experiência — permitindo aos membros trocar perspetivas, aprendizagens e boas práticas de ambos os mercados.
Neste momento, quantas empresas associadas (Irlanda e PT) tem a IPBN? São maioritariamente de que setores de atividade?
A rede conta atualmente com pouco mais de 210 membros e empresas associadas, o que, quando contabilizado individualmente, representa uma comunidade superior a 25.000 pessoas. A rede é composta por empresas associadas de uma vasta diversidade de setores, desde Saúde e Hotelaria até Tecnologia e Turismo. Contamos com membros nas áreas da agricultura, iniciativas sustentáveis, bem-estar, imobiliário, arquitetura, BPO, relações-públicas e marketing, câmbio e banca, apoio jurídico, consultoria, entre muitas outras. A diversidade dos setores representados é precisamente o que torna a IPBN tão dinâmica.
O que podem essas empresas esperar da IPBN?
Orgulhamo-nos de criar ligações e de promover a cooperação transfronteiriça através da expansão de negócios, parcerias estratégicas e desenvolvimento de bases de clientes. Oferecemos visibilidade aos membros através dos nossos diversos canais, acesso para liderar ou participar em masterclasses, integrar painéis de discussão, destacar-se em entrevistas de spotlight ou podcasts e, mais importante ainda, beneficiar de apresentações one-to-one a outros membros da rede interessados em estabelecer alianças para impulsionar negócios e cooperação.
Quais os erros mais frequentes das PME num processo de internacionalização?
As pequenas e médias empresas (PME) subestimam frequentemente a verdadeira complexidade da internacionalização. Os erros tendem a repetir-se em diferentes setores, não por falta de ambição, mas porque alguns fundamentos essenciais são ignorados.
Um deles é assumir que o que resulta no mercado doméstico resultará em qualquer lugar. Isto é, muitas PME tratam novos mercados como extensões do seu mercado de origem. Saltam a fase de pesquisa aprofundada, assumindo comportamentos de consumo semelhantes. Isto ignora nuances culturais, sensibilidade ao preço e até expectativas distintas em torno da confiança e do serviço. O que funciona em Portugal pode falhar na Alemanha ou no Japão por razões que nem sempre são óbvias à primeira vista.
A fraca seleção de mercado é outro. Algumas empresas escolhem mercados com base em intuição, familiaridade linguística ou oportunidades ocasionais, em vez de uma análise estruturada. Não avaliam devidamente a procura, a concorrência ou as barreiras regulatórias. Expandir para o país aparentemente “mais fácil” pode sair caro se não existir product-market fit.
Subestimar a complexidade legal e regulatória é uma área em que muitas PME enfrentam maiores dificuldades. Sistemas fiscais, regras de importação/exportação, certificações e legislação laboral variam significativamente. Ignorar estes fatores pode traduzir-se em multas, atrasos ou até impedimentos de entrada no mercado.
Muitas PME também falham na adaptação da marca, mensagem, experiência digital ou até características do produto. Desajustes culturais podem fazer a empresa parecer distante, ou pior, pouco credível. Há ainda o planeamento financeiro inadequado. A expansão internacional é dispendiosa e normalmente mais lenta do que o previsto. Muitas PME subestimam custos (logística, recrutamento, jurídico, marketing) e sobrestimam receitas iniciais. Problemas de tesouraria acabam, muitas vezes, por comprometer o projeto antes de ganhar escala.
Escolher o modelo de entrada errado é outro erro, porque a decisão de optar por exportação, parcerias, distribuidores ou criação de entidade local, faz diferença. Algumas PME avançam rapidamente para parcerias sem due diligence ou assumem compromissos demasiado pesados demasiado cedo.
Há ainda a falta de conhecimento local: Tentar gerir tudo a partir da sede é um erro clássico. Sem conhecimento local, através de talento recrutado no mercado ou parceiros estratégicos, as empresas interpretam mal o contexto e reagem demasiado tarde.
Assim como a pressão operacional e falta de escalabilidade. Internacionalizar aumenta a complexidade: cadeias logísticas, apoio ao cliente em diferentes fusos horários, gestão cambial. Muitas PME esticam excessivamente as operações existentes em vez de criarem sistemas escaláveis desde o início.
Outro erro é ignorar diferenças no posicionamento da marca: uma marca “premium” num país pode ser percecionada como intermédia noutro, ou vice-versa. Nem sempre as PME repensam o posicionamento em cada mercado.
Expandir demasiado depressa é outra falha porque entrar em vários mercados ao mesmo tempo dispersa recursos. Regra geral, é mais inteligente consolidar sucesso em um ou dois mercados antes de avançar para outros.
Apoiamos empresas irlandesas que pretendem expandir-se para Portugal, operar a partir de Portugal ou recrutar talento português. Temos experiência comprovada em apoiar empresas irlandesas neste processo e contamos com uma rede sólida de especialistas capazes de ajudar a tomar as decisões certas em cada etapa do percurso.
“(…) esta relação continua aquém do seu verdadeiro potencial. (…) os fluxos de comércio e investimento ainda não estão suficientemente diversificados, e muitas empresas de ambos os lados não encaram ainda o outro mercado como prioritário”.
Globalmente, como avalia as relações comerciais e económicas entre Portugal e a Irlanda em 2026?
As relações comerciais e económicas entre Portugal e a Irlanda em 2026 são sólidas, estáveis e sustentadas pela pertença comum ao mercado único europeu, o que garante baixas barreiras comerciais e um forte alinhamento político. O comércio bilateral, avaliado em mais de 4 mil milhões de euros anuais, é relevante, embora ainda de dimensão moderada, apresentando alguma volatilidade devido à concentração em setores-chave como a indústria farmacêutica, tecnologia e bens industriais.
As duas economias são amplamente complementares: a Irlanda é forte em exportações de elevado valor acrescentado e serviços; Portugal com competências reconhecidas na indústria transformadora, agroalimentar e em programas de apoio ao crescimento de start-ups e captação de investimento, o que cria oportunidades naturais de colaboração, particularmente para PME.
Contudo, esta relação continua aquém do seu verdadeiro potencial. Embora o Brexit tenha incentivado uma maior aproximação e novas ligações logísticas, os fluxos de comércio e investimento ainda não estão suficientemente diversificados, e muitas empresas de ambos os lados não encaram ainda o outro mercado como prioritário. A escala limitada, a distância geográfica e uma visibilidade relativamente reduzida continuam a condicionar o crescimento.
Assim, apesar do momento positivo, esta parceria tende a manter-se importante, mas secundária, caso não sejam desenvolvidos esforços mais direcionados para reforçar o envolvimento empresarial e o investimento. É precisamente por isso que temos planeadas mais visitas à Irlanda, com o objetivo de demonstrar o valor de trabalhar e fazer negócios com Portugal, dinâmica já reforçada pela realização anual da Web Summit, em Lisboa, no mês de novembro.
É fácil juntar empresas e empresários portugueses e irlandeses? O que os une e afasta?
Os nossos membros reconhecem o valor de se manterem ligados através da participação em masterclasses online e da presença em uma das nossas três conferências de referência: a Conferência de Inovação, em Dublin, a Conferência de Sustentabilidade, em Lisboa, e a Conferência de Turismo, que roda entre as nossas principais bases em Portugal: Porto, Lisboa e Algarve.
Promovemos ainda a ligação entre membros através de eventos dedicados Member Meet Member em Portugal e na Irlanda, com planos de continuar a expansão regional para Cork, Belfast, Galway e Kilkenny, entre outras localidades.
Estes encontros permitem que a rede se conecte e prospere, assegurando apresentações entre membros de setores semelhantes ou complementares. Temos tido o orgulho de assistir, em tempo real, aos resultados deste trabalho: cartões trocados, negócios concretizados e novas reuniões agendadas. O nosso trabalho pode ser desafiante, uma vez que agendas naturalmente preenchidas nem sempre permitem uma participação total, mas esforçamo-nos por diversificar formatos e oportunidades tanto quanto possível. E, no final, vale sempre a pena.
“(…) a Irlanda é mais madura, melhor financiada e globalmente integrada; Portugal é mais ágil, está em rápida evolução e é cada vez mais colaborativo”.
Inovação, investigação, partilha de conhecimento… Como caraterizaria os dois mercados nestes parâmetros?
No domínio da inovação, investigação e partilha de conhecimento, Irlanda e Portugal são ambos players credíveis no contexto europeu, embora operem em níveis distintos de maturidade e escala. A Irlanda posiciona-se como um polo de inovação altamente intensivo e globalmente integrado, fortemente ancorado por multinacionais em setores como farmacêutica, medtech e TIC. O seu ecossistema de I&D está profundamente ligado à indústria, com entidades como a Science Foundation Ireland e a Enterprise Ireland a impulsionarem investigação aplicada, comercialização e colaboração internacional. A transferência de conhecimento é, em geral, eficiente e existe uma forte cultura de parcerias entre academia e empresas, embora alguns críticos apontem uma dependência significativa de multinacionais estrangeiras para a inovação de ponta.
Portugal, por sua vez, evoluiu rapidamente na última década para um ecossistema de inovação dinâmico e cada vez mais empreendedor, ainda que com menor intensidade global em I&D. Ganhou visibilidade através do crescimento de start-ups e da sua internacionalização, apoiado por entidades como a Agência Nacional de Inovação e a FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Cidades como Lisboa, Porto e Faro, no Algarve, tornaram-se polos ativos de tecnologia e investigação, com ligações universidade-indústria em melhoria e uma crescente abertura à partilha de conhecimento. No entanto, persistem desafios estruturais, incluindo escala limitada, menor investimento privado em I&D e alguma fragmentação do sistema de inovação.
Em termos simples: a Irlanda é mais madura, melhor financiada e globalmente integrada; Portugal é mais ágil, está em rápida evolução e é cada vez mais colaborativo. A complementaridade entre ambos é significativa: Portugal oferece flexibilidade, talento e ecossistemas emergentes, enquanto a Irlanda disponibiliza escala, capital e forte integração industrial. Isto torna particularmente atrativo o potencial para intercâmbio bilateral de conhecimento e inovação conjunta, caso seja ativamente promovido.
Neste momento, quais são os polos de inovação mais relevantes na Irlanda e em Portugal?
Neste momento, tanto Portugal como a Irlanda oferecem um ecossistema rico e em evolução de hubs de inovação, que desempenham um papel fundamental no apoio ao empreendedorismo, ao crescimento das empresas e à promoção da colaboração. No âmbito do nosso trabalho, desenvolvemos relações próximas com vários destes centros, com os quais colaboramos ativamente através de protocolos assinados, garantindo que proporcionam valor real e prático aos nossos membros.
Em Portugal, os principais hubs de inovação incluem a Unicorn Factory Lisboa, o UAl TEC Campus, a UC Business, a Porto Business School, a IDEA Spaces, a Nest Collective, a Invest Braga, o Algarve Biomedical Centre e a Invest Porto. Estes hubs são centrais para o ecossistema de inovação português e, através das parcerias estabelecidas, proporcionam aos nossos membros um acesso valioso a conhecimento local, oportunidades de desenvolvimento de negócio e talento para recrutamento.
Na Irlanda, trabalhamos de perto com centros de inovação de referência, como a NovaUCD, o Guinness Enterprise Centre, a Glandore, o Portal at Trinity College Dublin e a Republic of Work. Tal como em Portugal, tratam-se de organizações com as quais estabelecemos relações sólidas, incluindo contacto direto, apresentações e colaboração contínua, o que tem sido muito benéfico para os nossos membros que exploram ou expandem a sua atividade no mercado irlandês.
Visitámos e desenvolvemos relações com cada um destes hubs, garantindo assim uma compreensão sólida e em primeira mão das oportunidades que oferecem. Além disso, continuamos a alargar a nossa rede, com planos para contactar hubs de inovação emergentes em Galway e Kilkenny nos próximos meses. No geral, estas parcerias constituem uma ponte importante entre os ecossistemas de inovação da Irlanda e de Portugal, permitindo aos nossos membros aceder aos ambientes, redes e recursos certos para aprender, crescer e internacionalizar os seus negócios.
Quais as caraterísticas que distinguem o mercado empresarial irlandês e português? Cultura, mentalidade, questões legais, tributárias, etc..
Os ambientes empresariais da Irlanda e de Portugal são ambos atrativos dentro da União Europeia, mas diferem de forma bastante visível na cultura, na mentalidade e nas condições estruturais.
A Irlanda é geralmente vista como altamente internacional, dinâmica e orientada para os negócios. A sua cultura empresarial é informal, mas muito focada em resultados: as decisões tendem a ser tomadas rapidamente, a hierarquia é relativamente plana e existe uma forte valorização do networking e da construção de relações, com uma abordagem pragmática. A presença de multinacionais moldou uma mentalidade aberta ao exterior, confortável com o risco e alinhada com as melhores práticas globais.
Do ponto de vista legal e fiscal, a Irlanda é um dos ambientes mais favoráveis ao negócio na Europa, com uma taxa de IRC bem conhecida e competitiva, um sistema regulatório transparente e fortes garantias legais assentes no common law. Os processos são, em geral, eficientes e o Estado apoia ativamente o investimento estrangeiro.
Portugal, por outro lado, combina uma ambição internacional crescente com dinâmicas mais tradicionais e baseadas em relações pessoais. A cultura empresarial tende a dar maior ênfase à confiança, às ligações pessoais e à tomada de decisão gradual, com hierarquias muitas vezes mais visíveis do que na Irlanda. Embora isto possa tornar o arranque mais lento, muitas vezes conduz a parcerias de longo prazo mais estáveis.
A mentalidade está a tornar-se cada vez mais empreendedora, sobretudo nas áreas da tecnologia e das start-ups, mas ainda pode ser algo avessa ao risco em setores mais tradicionais. Em termos legais, Portugal segue um sistema de civil law, que pode parecer mais formal e procedimental, e a burocracia continua a ser frequentemente apontada como um constrangimento, apesar das reformas em curso. As taxas de imposto sobre as sociedades são mais elevadas e complexas do que na Irlanda, embora existam incentivos ao investimento e à inovação.
Em suma, a Irlanda é mais rápida, mais integrada globalmente e estruturalmente mais ágil; Portugal é mais relacional, em evolução e, por vezes, mais pesado do ponto de vista administrativo, mas também cada vez mais dinâmico. Para as empresas que operam entre os dois países, o sucesso depende muitas vezes de se adaptarem a estas diferenças, em vez de esperarem que um único modelo funcione nos dois contextos.
Qual o papel que redes como a IPBN podem ter na dinamização do tecido empresarial dos países envolvidos e na internacionalização bem-sucedida das empresas?
Redes como a Ireland Portugal Business Network podem desempenhar um papel desproporcionadamente importante, sobretudo porque a principal diferença entre a Irlanda e Portugal não está na política ou no acesso ao mercado, mas na ligação, visibilidade e execução.
A um nível básico, a IPBN reduz as “incertezas” que muitas vezes travam a internacionalização. Para as PME, em particular, entrar num novo mercado tem menos a ver com estratégia no papel e mais com quem se conhece e quão rapidamente se consegue aceder a informação fiável. As redes facilitam apresentações de confiança a parceiros, clientes, consultores jurídicos e investidores, encurtando o processo lento e incerto de construir relações de raiz. Também ajudam as empresas a interpretar a cultura empresarial local, que é muitas vezes o ponto em que entradas de mercado aparentemente sólidas acabam por falhar.
Para além do matchmaking, o seu verdadeiro valor está na transferência de conhecimento e na construção de ecossistemas. Ao reunir empresas, decisores políticos e académicos, redes como a nossa promovem a troca de informações práticas sobre o que realmente funciona na entrada em mercado, contratação, regulação ou escala operacional. Este tipo de aprendizagem entre pares é muitas vezes mais útil do que relatórios formais. Com o tempo, cria-se uma compreensão partilhada entre ecossistemas, tornando a colaboração mais natural e menos arriscada.
Também funcionam como amplificadores de visibilidade. Tanto a Irlanda como Portugal têm relativamente pouca visibilidade nos respetivos meios empresariais. Uma rede estruturada pode divulgar casos de sucesso, destacar oportunidades setoriais e posicionar ambos os países como parceiros credíveis em áreas como tecnologia, inovação e serviços. Essa visibilidade é crucial para atrair investimento e incentivar empresas a considerar a expansão bilateral.
Por fim, estas redes podem influenciar discretamente a política e o alinhamento estratégico. Ao agregarem as preocupações e experiências dos seus membros, criam canais de feedback para governos e agências, ajudando a melhorar as condições práticas para o negócio transfronteiriço, seja na mobilidade de talento, na clareza fiscal ou na redução de fricções regulatórias.
Em suma, organizações como a IPBN não substituem os fundamentos do mercado, mas aceleram a confiança, reduzem a fricção e tornam a internacionalização mais executável, o que muitas vezes faz a diferença entre planos que ficam pelo caminho e expansões que realmente têm sucesso.
O que ainda é preciso fazer para que o intercâmbio empresarial entre Irlanda e Portugal continue a ter condições para continuar a evoluir positivamente nos próximos anos?
O desafio não é criar novas estruturas, é tornar a relação existente mais visível, mais estratégica e mais eficaz do ponto de vista operacional. Uma das maiores lacunas continua a ser a sensibilização e a priorização. As empresas de ambos os países tendem frequentemente a dar prioridade a mercados maiores ou mais familiares, pelo que a relação Irlanda–Portugal continua a ser considerada uma opção de segunda linha. Isso precisa de mudar através de uma promoção mais forte das oportunidades por setor, de casos de sucesso mais claros e de um papel mais proativo de organizações como a Ireland Portugal Business Network. Sem essa visibilidade, a relação continuará a crescer, mas apenas de forma lenta e oportunista.
Há também trabalho a fazer no aprofundamento das ligações entre ecossistemas, e não apenas na criação de contatos. Organizar eventos é relativamente fácil; muito mais difícil é construir colaboração sustentada entre empresas, universidades e investidores. Programas mais estruturados (como aceleradoras conjuntas) parcerias de I&D e iniciativas de coinvestimento (ajudariam a passar do networking para uma integração económica real). Isto é particularmente relevante na inovação, onde o alinhamento entre as forças de ambos os países pode gerar resultados muito expressivos.
A nível prático, continua a ser essencial reduzir a fricção na execução. Mesmo dentro da UE, as empresas enfrentam obstáculos relacionados com a complexidade fiscal, a interpretação regulatória, a contratação transfronteiriça e o acesso a conhecimento local. Uma melhor coordenação entre organismos públicos, orientações mais claras para as PME e serviços de apoio mais amplos em ambos os lados tornariam a entrada em mercado menos intimidante e menos exigente em recursos.
Outra prioridade é o fluxo de investimento e a expansão empresarial. O comércio é importante, mas o impacto de longo prazo vem de empresas que estabelecem presença no mercado do outro país. Incentivar mais investimento direto bilateral, através de incentivos, parcerias e apoio à instalação inicial, ajudaria a ancorar a relação de forma mais profunda e a torná-la menos sensível a flutuações de curto prazo no comércio.
Por fim, é necessária uma mudança cultural e estratégica: foco em vez de fragmentação. Em vez de dispersar esforços por demasiados setores e iniciativas, ambos os países beneficiariam ao apostar em poucas áreas com elevado potencial e de lhes dar massa crítica. Sem esse foco, a relação corre o risco de continuar ampla, mas pouco profunda.
Basicamente, os alicerces já existem, mas, para sustentar um crescimento real, a Irlanda e Portugal precisam de aumentar a visibilidade, aprofundar a colaboração, reduzir barreiras à execução e ser mais intencionais na forma como investem os seus esforços conjuntos.
Em conclusão…
Estamos extremamente orgulhosos da rede que construímos, impulsionada acima de tudo pelos nossos membros, cuja experiência e envolvimento definem quem somos e o valor que criamos. Numa perspetiva pessoal, é especialmente gratificante ver como, desde 2018, a rede cresceu de forma consistente e orgânica até se tornar numa comunidade empresarial dinâmica. O feedback e os testemunhos que recebemos dos membros reforçam constantemente que oferecemos uma plataforma valiosa para a ligação, a colaboração e o comércio entre a Irlanda e Portugal.
Dito isto, vemos isto apenas como o início. Ainda há um potencial significativo por desbloquear, e muito mais por fazer à medida que continuamos a crescer e a reforçar este ecossistema transfronteiriço único.







