Fora do Escritório: as escolhas do CEO da DHL Express Portugal para este verão
Entre o Douro, o Algarve, as caminhadas junto ao mar e a paixão por viagens de mota, José António Reis partilha como desliga, recarrega energias e olha para os desafios que marcarão a segunda metade do ano.
Quando está “fora do escritório”, o que mais gosta de fazer para desligar?
Fora do escritório, durante a semana, nem sempre é fácil desligar. Divido o meu tempo entre Lisboa e o Porto e, quando estou em Lisboa, como fico num hotel, existe sempre a tentação de continuar ligado ao trabalho. Ainda assim, faço um esforço consciente para encontrar momentos de desconexão, sobretudo quando o tempo convida a isso.
Gosto de caminhar ou correr, especialmente junto ao rio ou ao mar. Há algo nessas paisagens que me ajuda a abrandar, refletir e ganhar perspetiva.
Quando estou no Norte, em Leça da Palmeira, uma das atividades que mais me ajuda a desligar é estar com a família, e depois andar de mota. Nesses momentos, a atenção está totalmente focada na estrada, na paisagem e na experiência de desfrutar o percurso. É uma sensação de liberdade que aprecio muito. Aliás, se pudesse, percorreria a Europa de mota. É uma paixão que combina descoberta, contacto com diferentes culturas e o prazer simples da viagem.
” O Douro dá-me exatamente aquilo de que preciso: tranquilidade, autenticidade e uma forte ligação às minhas raízes”.
Qual é o destino, em Portugal ou fora, onde consegue realmente descansar?
Se tiver de escolher um lugar onde consigo realmente descansar, esse lugar é o Douro. Vou lá com muita frequência e sinto-me em casa. Foi ali que cresci e, sempre que regresso, desligo naturalmente do ritmo e das exigências do dia a dia. O Douro dá-me exatamente aquilo de que preciso: tranquilidade, autenticidade e uma forte ligação às minhas raízes.
Sou também um apaixonado por vinhos. Gosto das conversas à volta do vinho, das histórias por detrás de cada vinho e da partilha com amigos ligados a este mundo, alguns deles grandes conhecedores. São momentos de amizade, aprendizagem e inspiração que valorizo muito.
Para mim, o Douro é muito mais do que um destino. É o lugar onde recarrego energias e volto ao essencial.
Há algum livro, podcast, filme ou série que recomende para este verão?
Há excelentes livros, podcasts e filmes que poderia recomendar, mas para este verão vou sugerir uma série: Machos Alfa. É uma comédia espanhola absolutamente hilariante, muito inteligente e extremamente bem escrita. O que mais gosto nela é a forma como retrata, com humor e alguma irreverência, as mudanças que a sociedade está a viver e os desafios que isso traz às relações pessoais.
Tem a capacidade de pôr a rir até os mais sisudos, porque todos acabamos por reconhecer ali comportamentos, situações ou conversas que já vivemos. É leve, divertida e perfeita para desligar depois de um dia intenso.
Agora, em relação a livros, não resisto a deixar uma recomendação. Para quem tem responsabilidades de liderança ou gestão, aconselho vivamente The Hard Thing About Hard Things, de Ben Horowitz. É um livro extraordinariamente honesto sobre os desafios reais de liderar organizações, tomar decisões difíceis e gerir equipas em contextos de incerteza. Sem fórmulas mágicas nem teorias excessivamente académicas, transmite aprendizagens muito práticas e relevantes para qualquer líder.
Por isso, a minha sugestão para este verão seria uma combinação simples: um bom livro para refletir e uma boa série para rir. Parece-me uma excelente receita para recarregar energias.
“Posso viajar para muitos sítios ao longo do ano, mas, se não passar pelo Algarve no verão, sinto que as férias ficaram incompletas”.
Que hábito mantém durante as férias que o ajuda a regressar com mais energia?
O principal hábito que mantenho durante as férias é algo muito simples: descansar. Dormir, literalmente, mais e melhor do que consigo fazer no ritmo normal do resto do ano. É a forma mais eficaz de recuperar energia.
Depois, há tudo o que me faz sentir verdadeiramente de férias: estar com a família e com os amigos, aproveitar longos momentos de conversa e desfrutar da praia. Sou particularmente fã do Algarve e da água. Posso viajar para muitos sítios ao longo do ano, mas, se não passar pelo Algarve no verão, sinto que as férias ficaram incompletas.
Nesse aspeto da água do Algarve, identifico-me muito com o Miguel Esteves Cardoso, cujas crónicas leio regularmente. Curiosamente, também a minha mulher se chama Maria João, o que torna algumas dessas leituras ainda mais divertidas. Gosto muito da forma como ele observa as coisas simples da vida e as transforma em histórias cheias de humor e humanidade.
No fundo, o que me ajuda a regressar com mais energia é precisamente isso: desacelerar, estar com as pessoas de quem gosto, ler, aproveitar o mar e permitir-me viver alguns dias sem a pressão constante da agenda.
O que aprendeu de mais importante no primeiro semestre de 2026?
A grande aprendizagem do primeiro semestre de 2026 foi a confirmação de que o comércio internacional tem uma capacidade extraordinária de adaptação. Apesar das tensões geopolíticas, dos conflitos, das barreiras comerciais e da incerteza que continua a marcar várias regiões do mundo, a economia e o comércio continuam a funcionar.
O comércio internacional é como a água: quando encontra um obstáculo, não para; encontra outro caminho. E foi exatamente isso que vimos acontecer ao longo dos últimos meses. Não estamos perante um mundo menos global. Estamos, sim, perante um mundo mais complexo. As cadeias de abastecimento ajustam-se, os fluxos comerciais reorganizam-se e as empresas adaptam-se com uma rapidez notável às novas circunstâncias.
Para quem trabalha numa organização global como a DHL, esta realidade é particularmente visível. O negócio continua a fluir a um ritmo muito acelerado, mas exige cada vez mais capacidade de antecipação, flexibilidade e conhecimento para navegar num contexto cada vez mais volátil.
O primeiro semestre de 2026 reforçou a convicção de que a globalização não desapareceu. Continua bem viva, mas tornou-se mais sofisticada, mais dinâmica e mais desafiante. Num mundo mais complexo, a capacidade de adaptação passou a ser uma das maiores vantagens competitivas.
“O maior desafio de liderança que enfrentei nos últimos meses é, curiosamente, o mesmo que enfrento há alguns anos: continuar a encontrar novas formas de crescer e de motivar a organização a crescer”.
Qual foi o maior desafio de liderança que enfrentou nos últimos meses?
O maior desafio de liderança que enfrentei nos últimos meses é, curiosamente, o mesmo que enfrento há alguns anos: continuar a encontrar novas formas de crescer e de motivar a organização a crescer.
Desde que assumi a liderança da DHL Express Portugal, em 2018, juntamente com a minha equipa, praticamente triplicámos a faturação da empresa. Este percurso foi possível graças ao talento das nossas pessoas, à força da marca DHL e à confiança dos nossos clientes.
Mas a verdade é que, quanto mais sucesso alcançamos, mais difícil se torna manter o mesmo ritmo de crescimento. Operamos numa economia com uma dimensão limitada e numa empresa cuja presença e penetração no mercado português já são muito significativas.
Por isso, o maior desafio não é apenas encontrar novas oportunidades de negócio. É conseguir manter viva a ambição, a energia e a inconformidade que nos trouxeram até aqui. É ser capaz de me automotivar e, ao mesmo tempo, continuar a inspirar a equipa para que encare cada novo objetivo não como um limite, mas como uma oportunidade para ir mais longe.
A liderança, nesta fase, passa menos por gerir o sucesso alcançado e mais por garantir que não ficamos confortáveis com ele.
Que tendência, oportunidade ou preocupação vai estar no seu radar na segunda metade do ano?
A Inteligência Artificial estará, sem dúvida, no topo da agenda durante a segunda metade do ano. Hoje, qualquer organização que pense estrategicamente no seu futuro tem de refletir sobre o impacto que a IA pode ter na forma como trabalha, serve os clientes e cria valor.
Na DHL, este tema está presente em muitas das nossas reflexões e iniciativas estratégicas. Temos algumas ideias e projetos com potencial para serem verdadeiramente diferenciadores no mercado onde operamos, pelo que uma parte importante do nosso foco estará em perceber como podemos aplicar a Inteligência Artificial de forma prática e relevante.
Mais do que adotar tecnologia pela tecnologia, o objetivo é utilizá-la para melhorar a experiência dos nossos clientes, simplificar processos e ajudar as nossas pessoas a serem ainda mais eficazes nas suas funções.
Acredito que as organizações que mais beneficiarão da IA não serão necessariamente as que investirem mais, mas sim aquelas que conseguirem combinar tecnologia, talento e propósito de forma inteligente. É precisamente isso que estará no meu radar nos próximos meses: como transformar o potencial da IA em benefícios concretos para os nossos colaboradores, para os nossos clientes e para o negócio.
“Quem lidera uma equipa ou uma organização tem uma enorme responsabilidade para com as pessoas, os seus clientes e os resultados do negócio”.
Como equilibra descanso e responsabilidade quando lidera uma equipa ou uma empresa?
Ao longo dos anos, fui aprendendo a fazer esse equilíbrio de forma quase automática. Ainda assim, tenho plena consciência de que não acontece por acaso. Exige disciplina e, acima de tudo, a capacidade de reservar tempo de qualidade para recuperar energia.
Quem lidera uma equipa ou uma organização tem uma enorme responsabilidade para com as pessoas, os seus clientes e os resultados do negócio. Mas também percebe que não consegue estar no seu melhor se não cuidar da sua própria energia física e mental.
Para mim, o equilíbrio passa precisamente por isso: criar espaço para descansar, estar com a família e dedicar tempo às atividades de que gosto, sem perder de vista as responsabilidades da função.
Aprendi que descansar não é um luxo nem um sinal de menor compromisso. É uma condição necessária para tomar melhores decisões, manter a clareza de pensamento e liderar com consistência. No final, a qualidade da liderança está muitas vezes diretamente relacionada com a qualidade da energia que conseguimos trazer para o trabalho todos os dias.
Que conselho daria a outros líderes para aproveitarem melhor este período de pausa?
Aprendam verdadeiramente a desligar. No início da minha carreira em funções de liderança, tinha a ideia de que me era exigido estar sempre contactável, sempre disponível. Havia quase uma sensação de importância em atender uma chamada de trabalho na praia ou responder a um e-mail urgente durante as férias.
Hoje vejo as coisas de forma diferente. Tenho plena consciência de que isso raramente faz a diferença. O que faz realmente a diferença é construir uma equipa capaz, autónoma e preparada para responder quando não estamos presentes.
Esse é um dos verdadeiros papéis de um líder: desenvolver pessoas e criar uma organização que funcione bem sem depender constantemente de uma única pessoa.
Por maior que seja o desafio ou a disrupção, e as férias certamente não entram nessa categoria, há sempre alguém na equipa capaz de encontrar uma solução e dar continuidade ao trabalho.
Por isso, o meu conselho é simples: aproveitem o período de pausa sem sentimento de culpa. Desligar não é opcional, é mandatório. Não apenas para recuperar energia, mas também para regressar com mais clareza, melhores ideias e uma perspetiva renovada sobre o negócio.
Este verão quero… que o tempo passe devagar.
O essencial de verão…
Livro: “O louco de Deus no Fim do Mundo”, Javier Cercas
Destino: Algarve e Costa Brava
Objeto indispensável: e-book
Uma palavra para definir este verão: Equilíbrio
Uma ideia para levar para setembro: Levar para setembro a certeza de que, por mais complexo que seja o caminho, há sempre uma forma de seguir em frente.









