Opinião

Ensaio sobre a cegueira do mercado

Pedro Celeste, diretor-geral da PC&A

O insucesso comercial raramente resulta de um único erro. Na maioria dos casos, é consequência de um conjunto de decisões desalinhadas, tomadas seja ao nível estratégico, operacional ou humano.

Quando as vendas falham, o problema quase nunca está apenas na equipa comercial. Está, muitas vezes, na forma como a organização pensa — ou deixa de pensar — o mercado.

Um dos erros mais frequentes reside na definição de metas sem verdadeira ancoragem ao mercado. Ocorre quando a administração fixa objetivos ambiciosos com base em projeções internas ou desejos dos acionistas, enquanto a área comercial, que conhece o terreno, percebe que os números são dificilmente alcançáveis. E quando não existe sintonia entre estratégia e realidade, instala-se a desmotivação. Não é difícil perceber que um vendedor que parte para o terreno convicto de que a meta é impossível não falha por incompetência — falha porque o sistema o colocou numa posição de descrença. A médio prazo, a consequência é previsível: quebra de compromisso, desgaste e rotatividade.

Outro erro estrutural é a ausência de verdadeira interligação entre marketing e área comercial. Em vez de funcionarem como duas dimensões complementares da mesma proposta de valor, operam frequentemente em silos, com imputação mútua de responsabilidades. Se o marketing acusa as vendas de não saberem fechar negócios, as vendas acusam o marketing de gerar oportunidades pouco qualificadas. Esta tensão revela algo mais profundo: falta de visão integrada do cliente. O mercado não distingue departamentos — distingue experiências. Quando a promessa comunicada não coincide com a entrega, a confiança é afetada e as vendas ressentem-se.

Ainda assim, a dimensão humana é a mais crítica. Não se trata apenas de ausência de visão estratégica, mas da recusa em ver o mercado como ele é. Muitas decisões de produto assentam em crenças internas, perceções subjetivas ou modas momentâneas, ignorando dados concretos. A incompreensão dos ciclos de vida dos produtos conduz a erros graves. Produtos em maturidade são tratados como se estivessem em declínio; apostas desproporcionadas são feitas em soluções com potencial incerto; recursos são desviados para novidades que exigem forte investimento em notoriedade sem garantia de retorno. O resultado é um aumento estrutural de custos, pressão permanente sobre o marketing e dispersão estratégica.

Por outro lado, insistir em ajustar a proposta apenas em função do que “o mercado está a fazer” é outro equívoco. Se todas as empresas reagirem da mesma forma às tendências, os produtos tornam-se indiferenciados. Quando o preço se transforma no único fator competitivo, a organização entra numa lógica destrutiva. Reduzir custos de forma indiscriminada com o intuito de sustentar o negócio compromete a experiência e corrói valor.

Imagine-se um restaurante que, para poupar alguns custos, substitui copos de vidro por plástico, reduz a qualidade dos talheres e desliga o ar condicionado. Pode baixar preços no curto prazo, mas compromete a perceção de qualidade e a marca destrói valor. Não é diferente em qualquer outro setor de atividade. Por uma simples razão: o cliente percebe.

Existe, porém, um erro ainda mais silencioso e estrutural: a falta de uma cultura genuinamente orientada para o cliente. Muitas decisões são tomadas a partir do gabinete, com base em pressupostos e presunções sobre o que o mercado valoriza. Não se visitam clientes, não se observa o contexto real de utilização, não se escuta ativamente quem decide e quem influencia a compra. Constrói-se uma narrativa interna confortável, mas desligada da realidade. Criam-se apresentações impecáveis, relatórios sofisticados e dashboards detalhados — mas falta o contacto direto com o terreno. E quando isso acontece, a empresa passa a acreditar nas suas próprias convicções como se fossem factos. É aqui que surge a metáfora inevitável: ninguém questiona, ninguém confronta, ninguém valida. E, no entanto, o mercado já percebeu que o rei vai nu.

Uma empresa verdadeiramente orientada para o cliente não decide apenas com base em dados internos; valida hipóteses, testa propostas, escuta objeções e ajusta continuamente. Não confunde opinião com evidência.

As vendas falham quando a organização falha na leitura integrada do mercado. Não é apenas uma questão de técnica comercial; é uma questão de alinhamento estratégico, coerência de posicionamento, disciplina na gestão do portefólio e, sobretudo, humildade para sair do gabinete e enfrentar a realidade.

Vender é o resultado visível de uma cadeia de decisões invisíveis. Quando essas decisões são tomadas de costas voltadas para o cliente, o mercado limita-se a devolver a consequência. É caso para dizer que mais cegos do que aqueles que não veem, são aqueles que não querem ver.

Marcas fortes demoram anos a construir e muito pouco tempo a definhar.

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Pedro Celeste

Pedro Celeste

Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business School. Na Católica Lisbon School of Business & Economics é Diretor Académico dos Executive Master in Management e coordenador do Programa Avançado de Marketing para Executivos, do Programa de Gestão Comercial e Vendas, do Programa de Gestão em Marketing Digital... Ler Mais..

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