Opinião
Espécies invasoras: o risco económico que Portugal ainda não colocou no radar
Há perigos que ninguém vê, mas que custam fortunas. As espécies exóticas invasoras custam ao mundo 423 mil milhões de dólares por ano, o equivalente a 1,3 vezes o PIB português. E ainda assim continuam fora do radar de alguns decisores empresariais e políticos.
É a favor da tomada de consciência e do reforço eficaz da visibilidade nacional sobre o tema crítico das espécies invasoras, que enquanto fundadora e CEO da BIOTA – Estudos e Divulgação em Ambiente, Lda., decidi agir de forma concreta: criando um evento com formato diferenciador nesta área dedicado exclusivamente a este tema. O meu propósito é, enquanto membro de uma sociedade mais informada desta ameaça, dar um contributo para mobilizar em prol de um bem coletivo.
Nos dias 27 e 28 de maio de 2026, o Taguspark, em Oeiras, acolhe o BIOTA Invasoras Summit, um evento que reúne 31 oradores, 21 expositores, mais de 200 participantes esperados, entre representantes de entidades dos setores económicos mais afetados, administração pública, academia, e reguladores em torno de um objetivo principal: transformar conhecimento em ação.
O risco que o tecido empresarial, o governo e a sociedade em geral ainda não viu bem
Para quem dirige uma empresa em Portugal, o problema pode parecer distante. Não é. O jacinto-de-água forma mantos verdes que entopem canais de rega, e prejudica atividades como a agricultura e o turismo. O peixe-gato-europeu devasta populações de peixes nativos, constituindo não só uma ameaça à biodiversidade como também a algumas modalidades de pesca. E à espreita, já presente em Espanha há mais de 20 anos, o mexilhão-zebra avança. Esta é uma espécie capaz de tornar inoperacionais turbinas, condutas e hélices que, quando chegar às hidroelétricas portuguesas, vai repercutir os seus custos nas tarifas de eletricidade de todos. Outros danos económicos incluem os custos avultados de limpeza e manutenção de infraestruturas, as perdas na pesca e na aquicultura, e o impacto no turismo fluvial e náutico.
Só para gerir parte dos impactos do jacinto-de-água, Portugal investiu mais de 883 mil euros entre 2023 e 2025. Estima-se que ocorram 14 novas introduções bem-sucedidas de espécies aquáticas invasoras por década no país.
A maioria das empresas ainda não integrou de forma consistente o impacto financeiro das espécies invasoras nas suas decisões estratégicas. Alguns setores mais expostos, como por exemplo o abastecimento de água e a produção de energia hídrica, já estão alerta. Mas no geral, o tema continua a ser classificado como ambiental e não como económico. Essa dicotomia é, ela própria, o problema.
Um Summit diferente das conferências habituais
O BIOTA Invasoras Summit não nasceu para juntar especialistas a falar entre si. Nasceu para encurtar a distância entre quem sabe, quem decide e quem implementa no terreno. A programação está ancorada em três casos de estudo reais, o mexilhão-zebra, o peixe-gato-europeu e o jacinto-de-água, usados como fio condutor para transformar diagnósticos em medidas aplicáveis, com prioridades e compromissos claros.
O primeiro dia aposta no debate estratégico entre setores; o segundo mergulha em workshops técnicos orientados para soluções práticas. Uma área expositiva com 21 entidades acompanha os dois dias, criando espaço para as parcerias que muitas vezes nascem fora do palco. A complementar a programação, teremos momentos que combinam foco, criatividade e leveza, como por exemplo, uma intervenção sobre Neurociência da Decisão, um momento de stand-up comedy com guião original inspirado nestas espécies, e o registo visual do evento por artistas em live sketching.
No final, o objetivo é que o Summit deixe algo concreto: uma base estruturada para decisão, financiamento e implementação, formalizada através da assinatura de um Memorando de Entendimento pelas entidades signatárias. Estas assinaturas assinalam o início de um processo mais alargado de recolha de entidades aderentes ao Memorando de Entendimento para a prevenção da entrada e expansão do Mexilhão-zebra em Portugal, reforçando a coerência da iniciativa e deixando uma mensagem clara: é tempo de transformar conhecimento em compromisso e compromisso em ação.
Liderança sem máscara
Por trás de tudo isto está uma liderança construída ao longo de quase duas décadas. A BIOTA foi fundada em 2008 e participou até hoje em mais de 550 projetos distribuídos por 10 países. É uma empresa que trabalha na interface entre ciência e realidade operacional — e que, em Portugal, se distingue especialmente pela profundidade do trabalho em ecossistemas aquáticos. Trazer a BIOTA até aqui é algo de que me orgulho muito — mas tenho consciência de que, quando largar o medo do julgamento, vou conseguir revelar ainda mais do potencial que eu e a BIOTA temos para dar.
Vejo no BIOTA Invasoras Summit não apenas um evento profissional, como também um ato pessoal: sair da zona de conforto, ocupar um lugar mais visível e transformar propósito em ação concreta. Gravado na parede do escritório da BIOTA está um provérbio africano: “Se queres ir rápido vai sozinho; se queres ir longe vai acompanhado.” O Summit é, talvez, a melhor tradução prática dessas palavras.
Uma agenda que Portugal precisa de ter
Existem hoje Planos de Ação para espécies invasoras já elaborados em Portugal — prontos, com base científica, aguardando aprovação em Resolução do Conselho de Ministros. O BIOTA Invasoras Summit quer criar pressão positiva para que esse conhecimento não continue nas gavetas. E quer fazê-lo da única forma que funciona: reunindo na mesma sala as pessoas com capacidade real de mover as peças.
Espero que o BIOTA Invasoras Summit coloque as espécies exóticas invasoras no radar de decisores e entidades que ainda não estão sensibilizados para a dimensão do risco. Este não é só um problema ecológico — é também económico e operacional.
É uma mensagem que o mundo empresarial e político português precisava de ouvir. E, desta vez, há alguém disposto a dizê-la em voz alta — não para apontar culpados, mas para ajudar a desbloquear decisões, alinhar vontades e transformar conhecimento em ação.
*Patrícia Rodrigues, criadora do BIOTA Invasoras Summit.








