Em Portugal, os unicórnios deixaram de ser apenas aqueles animais míticos que povoam o imaginário das crianças e passaram a representar a evolução do país para uma economia mais digital, com um ecossistema empreendedor atrativo para investidores.

Depois da Farfetch, da Outsystems e da Talkdesk, a Feedzai é o mais recente unicórnio de origem portuguesa. Em plena crise pandémica, a fintech sediada em Coimbra captou 200 milhões de dólares numa ronda de investimento, valorizando-se assim acima dos mil milhões de dólares (critério para se tornar unicórnio).

Existe, de resto, a expectativa de termos em breve mais unicórnios de origem portuguesa. Uma notícia recente dava conta de que cerca de 30% das operações de fusão e aquisição realizadas pela Deloitte em 2020 envolveram start-ups tecnológicas, o que, para a consultora, significa que há cada vez mais investidores internacionais interessados no ecossistema empreendedor português. Empresas inovadoras em áreas de ponta, como a internet das coisas, o big data, a realidade virtual ou aumentada, o blockchain ou a cibersegurança, por exemplo, são ativos muito procurados por investidores internacionais. E também em áreas menos high-tech, como a biomedicina, os materiais, o mar ou as energias, encontramos em Portugal empresas com potencial de valorização.

Os investidores internacionais procuram start-ups com grande capacidade de escalar o negócio, mesmo que os seus resultados económico-financeiros sejam ainda pouco expressivos. Por isso, assistimos à vertiginosa valorização de empresas cujo volume de negócios é reduzido ou que ainda não deram sequer lucros. Não se trata de um paradoxo, nem se explica pela especulação de mercado. Na verdade, quem investe nestas start-ups está a aplicar o seu dinheiro em conhecimento especializado, inovação disruptiva, tecnologias diferenciadoras, propriedade intelectual, talento tecnológico…. Ora tudo isto tem um valor, embora muitas vezes intangível e difícil de rentabilizar no imediato.

Se há hoje quatro unicórnios de origem portuguesa, muito se deve ao extraordinário desenvolvimento do nosso ecossistema empreendedor. O país possui atualmente uma moderna rede de incubadoras, bons programas de aceleração, talento com mentalidade empreendedora, universidades com predisposição para a inovação e centros de I&D capazes de desenvolver novos produtos e tecnologias. Deixou de ser invulgar os jovens, após concluírem os seus estudos (ou mesmo durante os cursos), fundarem empresas a partir do conhecimento adquirido no ensino superior, em vez de procurarem emprego por conta de outrem. De resto, as universidades de Aveiro, Porto, Minho, Coimbra e Nova de Lisboa, por exemplo, dispõem de polos de empreendedorismo e inovação muito dinâmicos.

Creio, no entanto, que ainda falta às start-ups portuguesas alguma cultura empresarial e conhecimento do negócio. É frequente os fundadores (cientistas, engenheiros, programadores, criativos, etc.) terem boas ideias de negócio, mas revelarem inaptidão ou desconhecimento na abordagem ao mercado. A inovação não substitui a boa gestão. Por isso, há todo um trabalho a fazer de mentoria junto dos empreendedores, de modo a dotar as start-ups de massa crítica e competências em áreas de gestão fundamentais para o crescimento do negócio.

Dito isto, não tenho dúvidas de que o número de unicórnios de origem portuguesa vai aumentar em breve, pois há várias start-ups tecnológicas com grande potencial de crescimento e que já estão no radar dos investidores internacionais. A economia portuguesa está em transformação.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais