A plataforma Portugal Agora criou um Conselho Disruptivo com o intuito de apresentar propostas concretas que visem melhorar o nosso país, em setores como educação, formação e trabalho, mobilidade, lazer, habitação, ambiente e energia, política e cidadania ou saúde e envelhecimento ativo. Depois de ter apresentado as medidas para as áreas da educação, formação e trabalho, hoje é a vez de falar de energia e ambiente.     

Quando se fala da transição energética, frequentemente se recorre à mnemónica dos 4Ds, para resumir as grandes tendências necessárias para que ela aconteça.

Descarbonização, descentralização, digitalização e desregulação.
A descarbonização é o grande objetivo, a desregulação define o contexto necessário para que a inovação possa avançar com o mínimo de barreiras, a descentralização significa que o paradigma de mega centrais produtoras (e poluentes) ligadas (num fluxo de sentido único) a diversas cargas (consumidores), está a mudar com o surgimento dos recursos distribuídos de energia (limpa), locais, e que sendo essenciais para a transição, acrescentam enorme complexidade e necessidade de flexibilidade ao sistema. Tudo isto nos leva ao D que falta – a digitalização.

A digitalização de todos os ativos e infraestruturas é a única forma de gerir a complexidade crescente de um sistema descentralizado, desregulado e descarbonizado e está na base do movimento, pois se os ativos e infraestruturas não estiverem prontos para a complexidade que aí vem, iremos assistir a crescentes problemas com níveis de serviço, crescentes falhas do sistema e custos acrescidos.

Um ponto quente são as redes de distribuição de baixa tensão, que embora nos tragam a “luz”, permanecem “às escuras” – ou seja, os seus ativos são na sua esmagadora maioria dispositivos sobre os quais quem gere a rede não tem informação em tempo real. Ora o que esperamos que vá acontecer à medida que crescem as instalações fotovoltaicas que injetam energia nas redes de forma mais ou menos ad-hoc? O que vai acontecer com a multiplicação dos veículos elétricos a exigir enormes cargas das redes em pontos da mesma que não estavam pensados para isso? O que vai acontecer com o emergente paradigma das baterias estacionárias? E tudo isto num contexto de crescente eletrificação da economia, o que significará maior sobrecarga do sistema.

As redes estão a deixar de ser como organizadas auto-estradas europeias, para se começar a assemelhar mais com aqueles famosos mega cruzamentos em cidades asiáticas, onde enormes autocarros circulam no meio de tuk-tuks, trotinetes, bicicletas, scooters e automóveis ligeiros, todos a flutuar ao redor uns dos outros, cada um com a sua direção, sentido e velocidade.

Urge investir na digitalização, como forma de conhecer e gerir/otimizar o que se passa neste sistema. Se queremos acelerar a penetração do solar, dos veículos elétricos, das baterias, etc. então temos de conhecer muito bem o que se passa nas redes de distribuição primeiro!

Uma boa noticia é que na esmagadora maioria dos casos a digitalização é possível sem ter de alterar os equipamentos de base, o que significa que os investimentos não só são comportáveis, como evitam investimentos maiores.

No entanto, para acelerar este processo, importa, por um lado:
a) rever o modelo de remuneração dos operadores de rede, de forma a incentivar de forma clara e inequívoca este tipo de investimentos de digitalização;
b) construir modelos de remuneração e valorização dos ativos que não levem a um congelamento dos investimentos nas redes nos últimos anos de um contrato de concessão, pela incerteza associada à sua renovação.

Um caminho complementar ou alternativo pode ser uma iniciativa similar à que existe no Reino Unido, onde o regulador tem instrumentos específicos para financiar a implementação de novas soluções inovadoras nas redes. Com cerca de 70M£ disponibilizados para este fim todos os anos, estes instrumentos assentam num processo anual, ao qual os operadores de redes de eletricidade se candidatam para competir por financiamento para o desenvolvimento e demonstração de novas tecnologias. O financiamento é disponibilizado para os projetos que melhor ajudem os operadores a baixar custos, manter a segurança e resiliência das redes, melhorar a qualidade de serviço e ao mesmo tempo transitar para uma economia de baixo carbono.

Outra boa noticia, é que depois de termos os ativos digitalizados, podemos criar todo um ecossistema de produtos/soluções digitais para vários problemas – “à la” app store.

Portugal, pelo nosso cluster existente, reconhecido internacionalmente, envolvendo empresas como a Eneida, operadores (EDP Distribuição), instituições de investigação (INESC TEC, IST) e organizações europeias (InnoEnergy) pode apostar forte na digitalização e nas apps, acelerando assim uma força de conhecimento local que pode depois globalizar-se, gerando assim valor a dobrar para o nosso país: primeiro por permitir uma gestão das nossas redes que será compatível com uma rápida transição energética e, segundo, por criar condições para o desenvolvimento de um ecossistema de produtos e soluções digitais que podem depois partir à conquista do resto do mundo.

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