Na sequência das catástrofes que ocorreram este ano no centro do país, associadas ao flagelo dos incêndios, a questão do desenvolvimento económico dessas regiões passou a estar no topo da agenda dos decisores políticos.

No sentido de contribuir para a discussão, este artigo debruça-se sobre a criação de valor em produtos locais. Leia-se “produtos” no seu sentido mais lato, podendo incluir-se tradições, gastronomia, eventos, destinos turísticos, etc.

Através da criação de valor, as empresas locais poderão beneficiar a diversos níveis designadamente a retenção de capitais na região, o acesso a novos segmentos, a entrada em canais de distribuição até agora não explorados (eventualmente a exportação), uma melhor adequação da oferta aos mercados em crescente exigência, etc.

Quando se pretende desenvolver um processo de criação de valor numa empresa, independentemente das dificuldades decorrentes não só do contexto como também da própria complexidade técnica, existe um fator facilitador: a decisão, o poder e os recursos estão na posse dos decisores da organização. Ou seja, será um gestor ou diretor ou um grupo muito restrito e alinhado estrategicamente que irá decidir, o que torna todo o processo decisório bastante consensual e rápido.

Todavia, a criação de valor de valor em comunidades locais é uma realidade bastante mais complexa. Neste caso, os participantes no processo decisório são inúmeros (ver figura seguinte) e não partilham a mesma visão estratégica daqueles que colaboram numa única empresa. Assim é necessário que o processo seja participativo em torno de uma visão comum, agregadora e orientadora dos objetivos e do caminho a seguir. Trata-se de um passo muito importante que assegura que aqueles que são geralmente relegados para segundo plano nos processos de desenvolvimento económico – os pobres – passem a ter um papel ativo e tenham acesso a oportunidades para chegar ao mercado e partilhar desse desenvolvimento.

Figura 1. Diversos intervenientes num processo de cooperação local

Numa primeira fase, o mais natural será que os diversos intervenientes discordem profundamente sobre vários pontos importantes, num processo de cooperação. Há que desenvolver todo um processo de negociação e enquadramento estratégico que procure integrar os diferentes pontos de vista e soluções para os problemas locais. É aqui precisamente que reside uma chave importante em todo o processo de criação de valor. Do sucesso da cooperação resultará uma rede de parceiros, alinhados em torno de um interesse comum, disponíveis para partilhar conhecimento e experiências que com certeza conduzirão a estratégias melhores e mais eficazes.

Em forma de conclusão e fica aqui o desafio, para potenciar o desenvolvimento dessas regiões flageladas será importante equacionar o estabelecimento de uma visão partilhada, sobretudo aquela que é capaz de integrar o potencial contido no conhecimento coletivo de uma determinada comunidade.

*E coordenador do mestrado em Marketing

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