Opinião

2026: a galope, com a certeza da incerteza, num novo paradigma mundial

Tomás Loureiro, Director of Global Intel & Strategic Projects na EDP

Num mundo em aceleração, marcado por fragmentação geopolítica, tecnologia e pressão climática, 2026 não permite hesitações. A incerteza é um desafio, mas liderar será saber quando segurar as rédeas e quando avançar a galope num novo paradigma mundial.

A passagem de ano funciona como um momento simbólico de balanço e reinício. Pouco muda de um dia para o outro, mas é neste ponto que reavaliamos prioridades. Em 2025, ficou claro que a incerteza e a complexidade não eram transitórias. Para 2026, essa constatação aprofunda-se: vivemos um novo paradigma estrutural, onde esperar deixou de ser opção. As empresas terão de se adaptar, ser ágeis, eficientes e resilientes — e desenvolver verdadeira capacidade de foresight.

2025 foi um ano intenso e acelerado. Confirmou tendências já visíveis, como a massificação da inteligência artificial e o avanço das energias limpas, mas também desafiou convicções estabelecidas. A geopolítica voltou a abalar a ordem internacional, enquanto os mercados surpreenderam pela sua resiliência.

A eleição de Trump aprofundou a fragmentação do multilateralismo. A IA tornou-se infraestrutura, impulsionando produtividade, mas também consumo energético e dilemas éticos. A guerra na Ucrânia manteve-se, o Médio Oriente voltou à tensão e a rivalidade sino-americana intensificou-se. No clima, os investimentos cresceram, mas as emissões continuaram elevadas.

Mais do que respostas claras, 2025 deixou perguntas difíceis: como equilibrar tecnologia e trabalho, segurança e transição, ambição e estabilidade?

Entramos em 2026 – o ano do cavalo no calendário chinês – com um contexto geopolítico frágil e fragmentado. Algumas incógnitas moldarão o ano:

  1. Conflitos armados: paz à vista ou prolongamento da tensão? – A guerra na Ucrânia e os conflitos no Médio Oriente continuam sem solução. Será 2026 um ponto de viragem diplomática ou mais um ano de impasse e escalada?
  2. Economia global: resiliência adiada ou recessão anunciada? – Depois da surpresa positiva de 2025, 2026 começa com desequilíbrios acumulados: dívida elevada, tensões comerciais, e juros ainda altos. Será o ano da travagem ou do reequilíbrio?
  3. Clima e energia: como equilibrar os pratos da balança? – Como vai o mundo equilibrar os objetivos climáticos com a segurança energética e as tensões geopolíticas?
  4. Europa: salto competitivo ou estagnação estratégica? – A UE enfrenta o teste da unidade e da produtividade. Consegue agir em bloco e reinventar-se, ou continuará a perder influência global?
  5. IA: maturação, disrupção ou descontrolo – A adoção da IA acelera, mas os seus impactos sociais e éticos são incertos. Irá 2026 trazer regulação robusta ou agravar tensões geopolíticas e laborais?
  6. China: mais a trote ou novo modelo de crescimento? – Com alguns sinais de abrandamento económico e tensão externa, o mundo questiona-se: está a China a ajustar o rumo ou a perder algum fulgor?
  7. Portugal: a galope depois de ter sido eleita a economia do ano? – O reconhecimento internacional trouxe orgulho — mas também expectativas. A dúvida é se 2026 será o ano em que Portugal transforma reputação em ambição, escala e consistência.

Apesar das incógnitas, há tendências que parecem cada vez mais claras. Algumas convicções para 2026:

  1. A fragmentação geopolítica e a pressão sobre as cadeias de abastecimento vieram para ficar – Mesmo que não haja novos conflitos, o mundo continuará multipolar e competitivo. EUA e China manterão o braço de ferro estratégico, e o “cada um por si” continuará a marcar decisões em comércio, clima e segurança. Resiliência e diversificação serão determinantes para garantir estabilidade operacional
  2. A inteligência artificial vai acelerar, e integrar-se – 2026 será mais um ano de integração em larga escala: agentes autónomos, modelos multimodais e ferramentas de produtividade com IA farão parte do dia-a-dia de equipas e organizações. A vantagem competitiva residirá menos no acesso à tecnologia e mais na capacidade de a incorporar com intenção.
  3. O clima será tema obrigatório – por necessidade, não por narrativa – Eventos extremos continuarão a gerar impactos humanos e económicos relevantes.
  4. Transição energética com tração, mesmo sem consenso global – As renováveis, as baterias e os sistemas inteligentes vão continuar a crescer e a bater recordes. A pressão da realidade física — emissões, calor, eventos extremos — continuará a mover políticas e mercados.
  5. A procura de eletricidade vai continuar a aumentar – IA, cloud, mobilidade elétrica e eletrificação dos consumos pressionarão redes e operadores. Multiplicar gigawatts será tão importante quanto multiplicar inteligência.
  6. A segurança digital será uma prioridade transversal – Com ataques mais sofisticados, confiança e proteção de infraestruturas críticas tornar-se-ão ativos estratégicos.
  7. As lideranças serão mais julgadas pela sua humanidade do que pelo seu controlo – Empatia, clareza e capacidade de mobilizar talento distinguirão quem lidera em contextos ambíguos.

É com este panorama que entramos em 2026. Recuperando o que disse o ano passado, e que reitero este ano, como dizia Charles Darwin, “não são as espécies mais inteligentes ou mais fortes que sobrevivem, mas sim as com maior capacidade de adaptação”. Algumas ações que me parecem fundamentais nas empresas para o ano que se inicia:

  • Investir no talento e nas pessoas (apostando nos skills certos – tema de um próximo texto)
  • Adotar IA de forma estratégica e responsável
  • Diversificar risco e fortalecer cadeias de abastecimento
  • Apostar na inovação como motor de crescimento e preparação para o incerto
  • Promover culturas ágeis, resilientes e adaptáveis
  • Desenvolver e reforçar capacidades de foresight para interpretar sinais e antecipar futuros

2025 mostrou-nos que o mundo não vai abrandar. Liderar será cada vez mais um exercício de navegação consciente na incerteza.  Para 2026, não basta reconhecer que a incerteza veio para ficar — é preciso pegar nas rédeas e agir. Preparar as organizações, reforçar skills e avançar a galope, com capacidade de adaptação, resiliência, eficiência e foresight.

Preparados?

Comentários
Tomás Loureiro

Tomás Loureiro

Tomás Loureiro é Director of Global Intel & Strategic Projects na EDP. Anteriormente, ocupou o cargo de Head of Innovation Intel, sendo responsável por apoiar o CEO da EDP Inovação na definição da estratégia global de inovação e das apostas futuras do Grupo EDP. Também foi Chief of Staff to CEO / Advisor do Board no Grupo Media Capital, responsável por acelerar a implementação da visão estratégica e transformação do grupo, acompanhando também os temas ligados à inovação e customer... Ler Mais..

Artigos Relacionados