Opinião
Crescer melhor é mais importante do que crescer mais
Durante muitos anos, o turismo habituou-nos a uma linguagem quase exclusivamente quantitativa. Mais hóspedes, mais dormidas, mais passageiros, mais receitas, mais recordes. E ainda bem que o setor cresceu.
O turismo tornou-se nos últimos anos uma das grandes forças económicas de Portugal – criou emprego, atraiu investimento e abriu novas oportunidades a muitos territórios. Mas talvez esteja na altura de acrescentarmos uma pergunta à habitual celebração dos números: estamos apenas a crescer mais ou estamos também a crescer melhor?
A questão é especialmente pertinente num momento em que o turismo português continua a demonstrar uma assinalável capacidade de resistência, apesar de um contexto internacional marcado pela instabilidade geopolítica, pela incerteza económica e pela alteração dos padrões de consumo. Os indicadores continuam globalmente positivos, mas o crescimento é hoje mais moderado e desigual entre mercados e regiões. Esta evolução deve levar-nos a refletir sobre aquilo que realmente esperamos do turismo nos próximos anos.
Não se trata, naturalmente, de desvalorizar o número de visitantes ou de dormidas. São indicadores fundamentais para conhecermos a evolução da atividade e avaliarmos o desempenho dos destinos. Mas, por si só, não nos dizem tudo. Um território pode receber mais turistas sem que isso se traduza, necessariamente, numa melhoria proporcional das condições de vida das suas populações. Da mesma forma, um destino pode registar menos dormidas e, ainda assim, conseguir gerar mais riqueza, se aumentar o valor acrescentado das experiências que oferece.
É precisamente esta distinção que considero essencial para o futuro do turismo português. O sucesso de um destino deve medir-se também pela capacidade de prolongar a permanência dos visitantes, assim como por conseguir atrair procura ao longo de todo o ano, criar emprego qualificado e distribuir os benefícios económicos por uma área geográfica mais alargada.
No Centro de Portugal, os dados mais recentes ajudam a ilustrar esta realidade. Entre janeiro e agosto de 2026, o número de dormidas ficou 2,2% abaixo do registado no mesmo período de 2025, mas os proveitos do alojamento turístico cresceram 1,9%. Ou seja, apesar da redução das dormidas, a atividade conseguiu gerar mais receita. Se analisarmos apenas o mês de agosto, verificamos que as dormidas aumentaram 1,1%, enquanto os proveitos subiram 3,4%. São indicadores que devem ser analisados com prudência, mas que mostram como a evolução da atividade turística não pode ser avaliada apenas pelo volume de visitantes.
Para uma região como o Centro de Portugal, esta reflexão tem uma importância particular. Falamos de um território extraordinariamente diverso, onde coexistem cidades, vilas e aldeias históricas, serras e praias, património classificado, gastronomia e uma multiplicidade de experiências. Essa diversidade é uma das nossas maiores vantagens competitivas, mas coloca-nos também perante um desafio estimulante: transformar a riqueza dos recursos existentes em oportunidades económicas concretas para quem vive e trabalha no território.
É aqui que devemos concentrar uma parte importante do nosso esforço. Quando um visitante chega a uma região, importa que encontre razões para ficar mais uma noite. Que tenha vontade de conhecer um concelho vizinho, visitar um produtor local, participar numa experiência de turismo de natureza ou descobrir um restaurante que valoriza a gastronomia tradicional. Cada uma destas decisões pode representar rendimento adicional para uma empresa, mais atividade para um profissional e maior dinamismo para uma comunidade.
Por isso, promover um destino não pode limitar-se a atrair visitantes. É igualmente necessário organizar a oferta, qualificar os serviços, melhorar as acessibilidades e criar ligações entre os diferentes agentes turísticos. Os territórios devem trabalhar cada vez mais em rede, construindo propostas que permitam ao visitante descobrir uma região para além dos seus lugares mais conhecidos.
A redução da sazonalidade é outra dimensão decisiva deste desafio. De pouco serve concentrarmos grande parte da atividade turística em algumas semanas do verão, se depois muitas empresas enfrentam dificuldades para manter as portas abertas durante o resto do ano. Precisamos de criar razões para viajar em todas as estações, valorizando produtos como o enoturismo, a gastronomia, o termalismo, o turismo cultural ou os eventos desportivos, que podem contribuir para uma procura mais equilibrada.
Também não podemos ignorar a dimensão territorial do crescimento. Portugal tem destinos de enorme notoriedade internacional, cuja capacidade de atração constitui uma vantagem para todo o país. Mas existem muitos outros territórios com potencial para receber mais visitantes, desde que disponham das condições necessárias. Distribuir melhor os fluxos turísticos não significa retirar turistas aos destinos mais procurados. Significa, pelo contrário, criar novas oportunidades de visita, alargando os benefícios da atividade a regiões que ainda não aproveitam plenamente o seu potencial.
Esta é, aliás, uma das grandes oportunidades do Interior. Em muitos destes territórios, o turismo pode representar uma contribuição decisiva para a manutenção de serviços, a valorização do património e a criação de oportunidades para as gerações mais jovens. Nestes casos, o impacto de uma atividade turística de menor dimensão pode ser proporcionalmente muito mais significativo para a economia e para a vida das comunidades do que os números absolutos poderiam sugerir.
Naturalmente, esta ambição exige investimento, cooperação e uma visão de longo prazo. Estou convicto de que o turismo português tem todas as condições para dar este passo. O crescimento alcançado nas últimas décadas deu-nos notoriedade, experiência e uma base empresarial cada vez mais qualificada. O desafio agora é consolidar esse percurso, garantindo que a atividade continua a gerar riqueza sem perder a autenticidade, a qualidade e a relação próxima com as comunidades que distinguem o nosso país.
No Centro de Portugal, é esse o caminho que queremos aprofundar. Não pretendemos crescer apenas para apresentar números maiores no final de cada ano. Queremos que o turismo seja uma atividade capaz de criar oportunidades, fortalecer as empresas, valorizar o património e contribuir para o desenvolvimento equilibrado da região.
Porque, no final, o verdadeiro sucesso de um destino não se mede apenas por quantas pessoas o visitam, mas também pelo valor que essas visitas deixam no território e, em última análise, pelo futuro que ajudam a construir para quem nele vive.








