Hoje trago-vos o tema da linguagem inclusiva que ainda está muito pouco discutido nos “corredores RH” em Portugal, um silêncio que incomoda muitos quando se tenta abordar mais em detalhe e corrigir os “clichés” racistas ou machistas na nossa língua.

Por vezes ao abordar o tema recebo mesmo comentários como: “deves estar a brincar”, ou “isso já é um exagero…” de tal maneira estão enraizados e legitimados na nossa cultura. E é claro que considero que a linguagem inclusiva é um fator de sentimento de pertença nas empresas, no nosso contato social quotidiano, fator de respeito e de valor partilhado para as novas gerações. Quando falamos tanto de retenção de talentos e de desenvolvimento de cultura de empresa, passa também por usar linguagem inclusiva.

Todos podemos e devemos num mundo moderno aprender a usar uma linguagem mais inclusiva. Mostrar respeito mútuo aprendendo a usar essa disciplina na linguagem é uma maneira de viver esse valor todos os dias. Mas, então, como saber se uma linguagem é inclusiva?

Utilizar linguagem não discriminatória
Muitas expressões que são usadas para descrever conceitos ou estruturas no trabalho têm origem na discriminação ou na violência. Deixe de lado essas expressões e procure usar uma linguagem clara e direta.

No lugar de expressões como “mais perdido um cego”, “pareces um aleijado / atrasado”, “em terra de cegos quem tem um olho é Rei” ou “estás surdo/ cego/ mudo?”. Use outras expressões que também possam transmitir o que você deseja.

Usar deficiência, saúde mental ou condições médicas em metáforas ou para tentar causar humor, inferioriza as experiências das pessoas afetadas.

Evitar o emprego desnecessário de cores em termos e expressões
Em vez de usar “lista negra”, use termos como lista de bloqueio.
O termo associa a palavra “preto” como uma situação desconfortável, desagradável ou perigosa.
Em vez de usar termos como: “humor negro” ou “mercado negro”, prefira humor ácido, inveja, mercado clandestino.
Em vez de usar “denegrir”, prefira difamar.
Esse termo é usado para difamar ou acusar injustiça por outra pessoa, sempre usado de forma pejorativa.

Ser consciente do significado cultural
Existem muitos jargões que também incluem frases que menosprezam as tradições culturais. Procure usar outras expressões para transmitir o mesmo significado dessas frases. Retire do seu vocabulário expressões como: “pareces Alentejano”, “ver-se Grego” e “isso é para Inglês ver”. Expressões que demonstram preconceito regional.

Em vez de usar “Produto chinês”, use produto de baixa qualidade. Essa expressão é popularmente usada para demonstrar que algo que vem do continente asiático é de baixa qualidade.

Em vez de usar “isso é Grego para mim”, troque para a expressão: não estás a ser claro.
Está relacionado com a falta de compreensão pelo fato do grego ser uma das línguas ocidentais clássicas mais difíceis de ser compreendida.

Inclusiva de género e comunidade LGBTQIA+
A nossa compreensão de género e orientação sexual evoluiu ao longo da história. Homens, mulheres e pessoas não binárias fazem parte dos colaboradores e clientes, assim como pessoas da comunidade LGBTQIA+. O que acha de aprender uma linguagem inclusiva de género e da comunidade LGBTQIA+? É fácil, sabe como? Praticando, praticando e praticando!

Evite terminantemente as afirmações: “vais poder conciliar isso com os teus filhos? Casa e vida profissional?”, “Uma mulher tem de se dar ao respeito!”, “A gravidez vai atrapalhar o teu percurso profissional…”, “vais bonita / bonito para poderes assinar o contrato, ganhar o cliente”.

O machismo é um preconceito, expresso por opiniões e atitudes, que se opõe à igualdade de direitos entre géneros, favorecendo o género masculino em detrimento do feminino. Ou seja, é uma opressão, nas suas mais diversas formas, das mulheres feita pelos homens.

Em vez de usar frases como “ele é afeminado” ou “tem um estilo de vida alternativo”, “coisas de meninas” (ao se referir à comunidade LGBTQIA+), use frases como “ele/ ela é gay” ou “essa pessoa é da comunidade LGBTQIA+”.

Ser Lésbica, Gay, Bissexual, Transgénero, Queer+ ou em Questionamento+ é parte integrante da identidade de uma pessoa, e não um estilo de vida. Evite usar terminologia que sugira que género ou orientação sexual, seja uma preferência ou opção.

Não faltam opções para usar uma linguagem mais inclusiva, e este artigo foi pensado para ajudar a essa reflexão. Por esse motivo, a minha intenção não foi fazer uma lista exaustiva de termos ou expressões a evitar, mas dar alguns exemplos que nos fazem refletir sobre tantos hábitos que podemos e devemos corrigir. O compromisso que devemos ter é o de garantir que todas as pessoas se sintam respeitadas e incluídas, com apoio e incentivo mútuo.

Todos somos responsáveis e todos devemos participar ativamente nessa evolução.

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Licenciado pelo ISEG em Gestão, em 1994, Carlos Carvalho começou a carreira nos escritórios da KPMG em Lisboa. Após um ano como auditor financeiro na KPMG, coordenou a equipa de desenvolvimento comercial B2B da empresa espanhola FAGOR Eletrodomésticos, onde desenvolveu... Ler Mais