Entrevista/ “Construir cultura de IA é diferente de implementar uma ferramenta e leva o seu tempo”
“O que falta não é acesso à tecnologia, que está disponível e acessível, mas sim alguém interno que seja dono do tema e tenha mandato para mudar processos. Sem esse perfil, a IA fica nos projetos-piloto”, explica Mário Alves, CEO da LayerX, sobre a forma como as empresas portuguesas estão a relacionar-se com a IA.
No início de abril, a tecnológica portuense LayerX assumiu um novo posicionamento estratégico focado em ajudar as empresas a integrarem Inteligência Artificial de forma prática e com impacto real nos seus processos de negócio. Para este ano, o seu foco é claro, assegura o CEO Mário Alves : “tornarmo-nos a referência como AI Lab em Portugal” . E, sublinha que “há muito território por explorar antes de sequer considerar uma expansão internacional”. Mais, diz Mário Alves: queremos que quando uma empresa portuguesa pensa em implementar IA a sério, a LayerX seja a primeira chamada que fazem”. Leia a entrevista.
De que forma é que a LayerX se propõe acelerar a adoção de Inteligência Artificial nas empresas com este novo posicionamento?
A LayerX opera na interseção entre o estado da arte da investigação em IA e a realidade das empresas. Concretamente, fazemos três coisas: construímos produtos próprios que validam a tecnologia em contexto real, prestamos consultoria a empresas que querem implementar soluções de IA de forma séria e estruturada, e desenvolvemos ferramentas de inovação aberta, como a TAIKAI, que ligam organizações a talento externo. O nosso posicionamento é de studio AI-nativo: não vendemos slides sobre IA, entregamos sistemas que funcionam.
Quais são atualmente as principais áreas de atuação da LayerX?
Colaboramos com empresas através de três abordagens. Consultoria de IA: sentamo-nos com as equipas, percebemos como o negócio realmente funciona e identificamos onde a IA faz diferença concreta, não onde parece impressionante. Depois desenhamos, construímos e ajudamos a colocar em produção. Produtos próprios com IA na fundação: não são ferramentas com um chatbot colado em cima, são construídos de raiz para resolver problemas reais do dia a dia das empresas. E workshops e programas de IA através da TAIKAI, a nossa plataforma de hackathons, onde as equipas trabalham com problemas reais do seu negócio e saem com protótipos testados e novas ferramentas internas, não apenas com slides sobre o que é a IA e como a utilizar.
Que produtos “made in house” podemos esperar no curto prazo?
O Ardaven, que está em lançamento para o mercado português, consiste numa plataforma de agentes de IA que as empresas implementam sem escrever código. O modelo é simples: a empresa faz upload das suas políticas, manuais e FAQs, e o agente responde com base nesse contexto real do negócio. Os casos de uso mais imediatos são suporte ao cliente, assistência de vendas e operações internas. O que diferencia o Ardaven é a capacidade de o conectar com as ferramentas e ERPs que as empresas já usam no dia a dia: WhatsApp, Moloni, Google, entre outros. E tudo construído em conformidade com o RGPD e o EU AI Act desde o início.
“O que mudou com a IA generativa é que o impacto na produtividade é imediato e mensurável”.
Desde o início da vossa atividade, em 2018, até agora como analisa a evolução do mercado nacional empresarial em termos de transformação tecnológica?
Em 2018 o tema era blockchain. Passámos por várias ondas tecnológicas, cada uma com o seu entusiasmo e as suas lições. O que mudou com a IA generativa é que o impacto na produtividade é imediato e mensurável. As empresas que antes diziam “precisamos de digitalizar” agora dizem “precisamos de automatizar”. Nós próprios fizemos esse percurso e foi natural: a nossa experiência a construir produtos técnicos complexos, a gerir comunidades de developers e a trabalhar com empresas em desafios de inovação deu-nos uma perspetiva singular para entender o que a IA pode fazer de verdade. O nível de abertura para experimentar aumentou muito. Mas a capacidade de transformar esse experimentalismo em resultados concretos ainda é o verdadeiro desafio, sobretudo nas PMEs.
Apesar do crescimento das soluções de Inteligência Artificial (IA), quais são os desafios que as organizações ainda enfrentam na sua aplicação em contexto empresarial?
Existem três desafios estruturais. Primeiro, a falta de literacia interna: as equipas não sabem o que podem ou não delegar a sistemas de IA. Segundo, a escolha errada de ferramentas: as empresas compram software caro quando às vezes precisam de uma automação simples. Por último, a ausência de casos de uso concretos ligados a resultados de negócio. É muito fácil fazer uma demo impressionante com IA. O difícil é construir um sistema que funcione de forma fiável em produção, todos os dias.
A LayerX define-se como uma empresa que trabalha “na interseção entre tecnologia e negócio”. O que pode o mercado esperar desta abordagem?
Que as soluções que entregamos sejam desenhadas para criar valor real, não para impressionar em reuniões. O nosso perfil é híbrido por natureza: temos uma equipa técnica de topo e uma abordagem comercial pragmática. Isso significa que conseguimos ter a conversa técnica com as equipas de engenharia e, simultaneamente, justificar o investimento ao CEO. Essa ponte é rara e é onde geramos mais valor.
Numa altura em que contratação de talentos atravessa dificuldades, o que é que a vossa plataforma TAIKAI trouxe de inovação neste domínio?
A TAIKAI surgiu da necessidade de as empresas acederem a capacidades que de outra forma não conseguiriam. O modelo tradicional de inovação, seja na contratação ou no desenvolvimento de novas soluções, é lento e caro. O que a TAIKAI permite é criar contextos onde empresas e talento externo colaboram em problemas reais, com resultados concretos: protótipos testados, ideias validadas, ferramentas internas construídas em dias. Empresas como a Outsystems, a Microsoft ou a Comissão Europeia usam a TAIKAI precisamente porque conseguem aceder a perspetivas e capacidades que a estrutura interna não consegue produzir sozinha.
Afirma estarem empenhados em reduzir a distância entre o avanço da investigação em IA e a sua aplicação efetiva no tecido empresarial. De que forma?
Construindo produtos internos com as ferramentas mais recentes, o que nos obriga a perceber o que funciona de verdade; publicando o que aprendemos, seja em artigos, repositórios open source ou eventos que co-organizamos como o Agents Day; e na consultoria, sendo diretos sobre o que está pronto para produção e o que ainda é investigação académica. Há muita pressão de mercado para vender promessas, mas a nossa postura é diferente.
“O que falta não é acesso à tecnologia (…), mas sim alguém interno que seja dono do tema e tenha mandato para mudar processos”.
As empresas nacionais estão capacitadas para transformar a inovação em ganhos operacionais concretos? Estão a conseguir utilizar a IA de forma estratégica e extrair valor consistente e escalável desta tecnologia?
A verdade é que construir essa capacidade leva tempo. As grandes empresas têm orçamento, mas estruturas lentas. As start-ups têm agilidade, mas poucos recursos. O middle market, onde está a maior parte do PIB português, está a começar a acordar para isto. O que falta não é acesso à tecnologia, que está disponível e acessível, mas sim alguém interno que seja dono do tema e tenha mandato para mudar processos. Sem esse perfil, a IA fica nos projetos-piloto. É por isso que muito do nosso trabalho começa por aí: ajudar as empresas a construir essa musculatura internamente, não apenas entregar uma solução.
Temos empresas “AI Leaders” em Portugal?
Temos casos de uso muito bons em setores específicos, seguros, banca, retalho, algumas industriais. Mas AI Leaders no sentido de empresa que usa IA como vantagem competitiva estrutural e sustentável existem poucos exemplos. O que temos são empresas que fizeram boas apostas pontuais. Construir cultura de IA é diferente de implementar uma ferramenta e leva o seu tempo.
E como olha para a própria evolução da LayerX? Em 2026 já estão no patamar de desenvolvimento que ambicionavam?
Estamos onde queríamos estar em termos de direção, mas mais cedo do que esperávamos em alguns produtos e mais devagar do que gostaríamos noutros. O pivot de Web3 para IA foi deliberado e foi bem executado. A narrativa que desenvolvemos, de studio AI-nativo com produtos próprios e consultoria, está a ressoar. O maior desafio é a escala: temos os produtos, temos os clientes iniciais, temos a equipa técnica. O desafio agora é crescer de forma sustentável sem perder qualidade.
A vossa estratégia de expansão vai além das fronteiras nacionais? Para que mercados estão a olhar?
O Ardaven foi desenhado para o mercado português e temos consciência de que em Portugal há milhares de empresas que podemos servir. O nosso foco para 2026 é claro: tornarmo-nos a referência como AI Lab em Portugal. Há muito território por explorar antes de sequer considerar uma expansão internacional. A TAIKAI já tem presença europeia, mas enquanto produto e enquanto studio, queremos primeiro consolidar uma posição de liderança no mercado doméstico.
“A meta principal é clara: ser reconhecidos como o AI Lab de referência em Portugal até ao final do ano”.
Em termos de inovação, lançamentos e conquista de mercado quais as metas da empresa para 2026?
A meta principal é clara: ser reconhecidos como o AI Lab de referência em Portugal até ao final do ano. Isso significa lançar o Ardaven com casos de uso validados no mercado português, construir uma cadência de projetos de consultoria com empresas de referência que possam ser casos de estudo publicados, e estar presentes nos momentos que definem a conversa sobre IA em Portugal. Queremos que quando uma empresa portuguesa pensa em implementar IA a sério, a LayerX seja a primeira chamada que fazem.
Alguma ronda de investimento nos vossos planos?
Neste momento o foco está em trazer valor real para os clientes com quem trabalhamos, e isso reflete-se na melhor ronda de investimento que podemos ter: receita. Temos já investidores nacionais e internacionais na nossa cap table e uma situação financeira saudável. A prioridade agora é assegurar que estão satisfeitos com o que estamos a construir antes de sequer colocar outras conversas em cima da mesa.
Globalmente, como perspetiva o impacto da IA nas organizações? Prós e contras e que “cuidados” devem as empresas ter na aplicação destas novas ferramentas?
O impacto vai ser profundo e está a acontecer mais depressa do que a maioria das organizações está preparada para absorver. O lado positivo é real: automação de processos repetitivos, velocidade de decisão e acesso a capacidades que antes exigiam equipas grandes. O lado problemático é também real: dependência de sistemas que não se controlam completamente, risco de perder conhecimento interno ao delegar demasiado cedo, e a ilusão de que comprar uma ferramenta de IA resolve um problema estrutural. O cuidado mais importante é manter humanos responsáveis pelos resultados. A IA deve aumentar a capacidade das pessoas, não substituir o pensamento crítico das equipas.








