Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou (Eclesiastes 3:1,2).

Na parte I deste artigo tentamos fazer uma analogia entre as doenças do corpo humano e as doenças organizacionais, levando em consideração o facto das organizações serem também corpos (não físicos) com órgãos, processos, tecnologia, inputs e outputs.

Se no corpo humano a doença pode levar à morte, também nas organizações as suas disfunções internas ou as disfunções externas relacionadas com a envolvente onde opera, podem levar ao seu desaparecimento (aquisição, fusão) ou morte (falência).

A morte é um dos assuntos que o ser humano, em condições normais, menos gosta de falar, não obstante ser uma das certezas que temos, sendo a outra, o pagar impostos. Perder um ente querido, de maneira nenhuma é uma coisa agradável, da mesma forma que, salvas as devidas proporções, perder o emprego ou a empresa não é agradável, embora estas últimas possam ser recuperadas. Mas ambas acontecem.

Naturalmente não é bom para o currículo do líder constar o encerramento de uma organização, quer seja por má gestão quer seja por incapacidade de se adaptar ao ambiente externo. É claro que cada caso é um caso específico e que merece ser analisado, pois nem tudo é má gestão, mas, às vezes, é porque a liderança não conseguiu reunir os recursos necessários para tomar a decisão que poderia salvar a sua organização, e essa decisão poderia ser, por exemplo, a aquisição de uma nova tecnologia necessária à sobrevivência da sua organização.

Como referimos na parte I do artigo, segundo o estudo da consultora INNOSIGHT, poucas empresas estão imunes ao processo de destruição criativa e que a longevidade das empresas do índice S&P 500 tem vindo a reduzir-se, passando de 33 anos, em 1964, para 12, em 2017. Ou seja, as empresas estão com uma longevidade cada vez menor, contrariamente à espécie humana que cada vez mais aumenta a esperança de vida. Julgo que, paradoxalmente, esses dois fenómenos – aumento da longevidade humana e redução da longevidade organizacional – têm um elemento em comum: a tecnologia.

Hoje os avanços da tecnologia aplicadas à medicina ajudam na prevenção, no diagnóstico, na recuperação e na cura de patologias que antes eram fatais para o corpo humano. Hoje os avanços da tecnologia fizeram desaparecer gigantes como Blockbuster ou Kodak, fizeram adoecer gigantes nas finanças com o surgimento das fintch e insurtech (banca e seguros), na indústria automobilística, na indústria da produção musical, na distribuição alimentar e no retalho em geral, na comercialização da atividade turística e no alojamento, etc. O que dizer quando a tecnologia móvel 5G, a Inteligência artificial, a Internet das Coisas, a robótica e a tecnologia blockchain, todas juntas estiverem em velocidade cruzeiro? Muitas empresas e serviços morrerão, mas muitas novas surgirão, e a um ritmo maior do que conhecemos hoje.

A tecnologia é disruptiva na medida em que cria novos modelos de negócios que tornam os modelos incumbentes totalmente desatualizados, permite criar novos produtos e serviços e cria novas necessidades nos consumidores. Ela é disruptiva também porque altera os canais como são distribuídos os produtos ou serviços, ou seja, a tecnologia está em toda a cadeia de valor dos processos, desde a conceção, a produção, distribuição e pós venda. Para se ter uma ideia concreta basta lembrar hoje como se pode fazer uma viagem de turismo utilizando a tecnologia para comprar e pagar a viagem (terrestre, aérea), o alojamento e a alimentação apenas com um smartphone e algumas aplicações e mínima interação humana.

No fim de tudo isto, a questão será sempre como a liderança (das empresas, dos governos e organismos nacionais e internacionais) deverá gerir as oportunidades que a tecnologia oferece para ser usada para o bem das pessoas e do ecossistema da humanidade, não obstante o processo de destruição criativa de empresas, serviços e produtos.

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Sobre o autor

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Carlos Rocha é administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi Administrador Executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária... Ler Mais