Opinião

Empresas no centro do sistema de inovação

Alexandre Meireles, presidente da ANJE*

As empresas são hoje o centro nevrálgico do sistema de inovação português, como acontece nos países mais desenvolvidos. Para se ter uma ideia, em 2020, o setor privado foi responsável por 57% da despesa bruta nacional com I&D, que atingiu, nesse ano, o seu recorde histórico: mais de 3.200 milhões de euros (1,62% do PIB). Ora, em 2015, apenas cerca de 44% desta despesa era produzida pelo setor privado.

A evolução crescente das despesas em I&D (cinco anos sempre a subir, de 2015 a 2020) deve-se, pois, ao esforço do tecido empresarial na criação de valor económico a partir do conhecimento tecnocientífico. Aliás, em 2020, houve mais 541 empresas a desenvolver atividades de I&D do que no ano anterior (4.300 empresas no total). Portanto, se Portugal é hoje um país “fortemente inovador”, como foi classificado pela Comissão Europeia em 2020, e a sua economia é cada vez mais baseada no conhecimento, isso resulta, em grande medida, do investimento das empresas em I&D.

As instituições de ensino superior e seus centros de investigação têm um papel imprescindível na produção científica, mas cabe sobretudo às empresas o desenvolvimento de novos processos, produtos, tecnologias e serviços a partir do conhecimento. Obviamente que, para isso, é necessário estabelecer pontes entre a Academia e o setor privado, compatibilizando os princípios empresariais (recuperação do investimento, resultados no curto prazo, confidencialidade projetual, criação de mais-valias, etc.) com a cultura académica (procura do conhecimento pelo conhecimento, projetos longos e complexos, partilha de resultados, financiamento sem retorno de capital, etc.).

Tudo isto para dizer que, face ao crescente investimento das empresas em I&D, o sistema de inovação nacional deve ser repensado, de forma a enquadrar e reforçar a centralidade do setor privado. O desenvolvimento do sistema de inovação precisa de uma melhor articulação com as políticas de apoio às empresas, potenciando assim a maior vocação do setor privado, em particular da indústria, para a valorização do conhecimento.

Para haver esta confluência estratégica é conveniente que a inovação passe a ser gerida pelos mesmos órgãos e entidades responsáveis pelas políticas de crescimento económico, designadamente o próprio Ministério da Economia. Mas isto não deve significar, bem entendido, um desinvestimento na ciência básica. Pelo contrário: sem um investimento robusto na investigação fundamental (produção científica sem objetivos específicos de aplicação prática) não há inovação, pois as empresas necessitam de resultados científicos a partir dos quais possam criar produtos e serviços para o mercado.

Estando Portugal a executar um novo quadro comunitário de apoio, bem como as verbas do Plano de Recuperação e Resiliência, parece-me pertinente que, considerando os bons resultados, mas não esquecendo as nossas persistentes debilidades, fosse gizada uma estratégia nacional para a inovação. Estratégia, essa, onde seriam definidas as guidelines para uma relação mais coordenada e sinérgica entre os diferentes atores do sistema de inovação. Interessa saber quem faz o quê e identificar o que, em conjunto, pode dar melhores resultados tanto para a comunidade científica como para o tecido empresarial.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles

Alexandre Meireles

Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso Geral de Gestão da Porto Business School. A sua carreira profissional esta ligada a diferentes setores de atividade, entre os quais restauração e saúde. No período de 2009 a 2011 foi energy division coordinator no grupo Mota-Engil, e depois dessa... Ler Mais..

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