A Biomimetx deu os primeiros passos no universo académico, mas rapidamente esta start-up da área da biotecnologia azul, que desenvolveu uma solução anti-incrustante para tintas marinhas, conquistou o seu espaço. Já fez duas rondas de investimento, onde levantou 1,8 milhões de euros, e prepara uma terceira para entrar no mercado internacional. Em entrevista ao Link Ti Leaders, Gonçalo Costa e Patrick Freire, dois dos fundadores da Biomimetx, falam das metas para o projeto.

A Biomimetx é uma start-up de biotecnologia baseada no desenvolvimento de soluções anti-incrustantes derivadas da natureza. Descobriu bactérias coletadas do meio ambiente que produzem altos níveis de moléculas, e que podem ser utilizadas como antimicrobianos naturais, larvaicidas ou algicidas. Como primeiro produto, a Biomimetx está a desenvolver o BMX-11, um aditivo anti-incrustante verde para ser incorporado em tintas marítimas, para aplicação em cascos, redes ou outros materiais utilizados no mar.

O projeto nasceu em 2013 e a solução desenvolvida está em fase de piloto, estimando-se que a primeira entrada no mercado aconteça ainda este ano. Entretanto, a start-up está a levantar uma nova ronda de financiamento que lhe permita entrar em mercados internacionais.

De onde surgiu a ideia de fazer uma start-up de biotecnologia que produz biocidas de origem biológica?
Gonçalo Costa (G.C.): A ideia surgiu ainda em meio académico quando estávamos a fazer investigação na área. Depois de vários anos de projetos conjuntos, os fundadores, na altura investigadores, decidiram fazer um programa de aceleração (o CoHitec apoiado pela COTEC) que levou à criação da empresa.

Quem são os fundadores Patrick Freire e Gonçalo Costa? O que faziam antes de abraçar este projeto?
Patrick Freire (P.F.): Apesar de apenas dois dos fundadores continuarem ligados à empresa (eu e o Gonçalo Costa), a Biomimetx foi criada por três pessoas, sendo os três investigadores com carreiras académicas firmadas. A terceira fundadora, a professora Romana Santos, continuou ligada à academia, sendo agora professora auxiliar na Faculdade de Ciências.

Qual a proposta diferenciadora da vossa solução?
G.C.:
Os produtos desenvolvidos pela Biomimetx são, contrariamente aos atualmente utilizados, completamente amigos do ambiente, garantindo a mesma eficácia. Isto permite aos utilizadores finais da nossa tecnologia protegerem as suas estruturas ou produtos de invasores ou de ataques biológicos indesejados (como estruturas de aquacultura debaixo de água ou cremes para a cosmética) sem utilizarem produtos tóxicos ou que se acumulem no ambiente.

“Este desenvolvimento científico (…) é muito facilitado com boas relações com instituições de ensino superior, que têm tecnologias e recursos humanos qualificadas em áreas muito específicas”.

O vosso projeto nasceu no seio Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Teclabs. Foi um bom começo?
G.C.:
O conceito nasceu da colaboração de projetos de investigação entre instituições da Universidade de Lisboa (FCUL e FMD) e o INIAV. O Teclabs surge mais tarde quando existe a necessidade de alojar fisicamente a empresa e começar a operar.

Não seria possível conceber uma solução deste género sem haver uma forte componente científica por trás, quer na sua génese, quer depois no seu desenvolvimento já dentro da empresa. Este desenvolvimento científico, mesmo para empresas que conseguem levantar capital (através de investimento e projetos) como nós conseguimos, é muito facilitado com boas relações com instituições de ensino superior, que têm tecnologias e recursos humanos qualificadas em áreas muito específicas.

Além de Portugal, em que geografias podemos ver a vossa solução?
P.F.: A solução ainda não está no mercado. Está em fase de piloto com vários clientes que estão a validar a tecnologia nos seus sistemas de produção. A primeira entrada no mercado será feita, esperemos, ainda este ano na área da aquacultura, nomeadamente em mercados dominantes na aquacultura de salmão.

“Se olharmos para a indústria cosmética ou de proteção de produtos agrícolas o potencial ainda é maior”.

Qual o potencial de crescimento da Biomimetx?
P.F.: O potencial de crescimento da Biomimetx está intimamente ligado com esta nova forma de ver o mundo, mais sustentável, em que as tecnologias que utilizamos, nomeadamente em produção em massa, devem ter o menor impacto possível no ambiente, aliado ao facto de o consumidor final ser cada vez mais exigente com o que consome e com a sua toxicidade.

Assim sendo, e dependendo dos mercados que estamos a falar, o potencial é enorme. Quando falamos por exemplo do controlo de crescimento em estruturas debaixo de água (que é o nosso primeiro mercado), como estruturas de aquacultura ou cargueiros de transporte marítimo, o mercado global de proteção destas estruturas é de cerca de 2,5 mil milhões de euros, sendo o componente mais caro deste processo, os elementos ativos de controle de crescimento de biológicos, que é exatamente onde se insere a tecnologia da Biomimetx. Se olharmos para a indústria cosmética ou de proteção de produtos agrícolas o potencial ainda é maior.

Assumem como visão “fazer uso das ferramentas disponíveis na natureza para fase do mundo um lugar mais seguro para viver”. Como conjugam esta abordagem com o lado empresarial?
G.C.:
Olhar para a natureza e perceber que vantagens algumas espécies desenvolveram ao longo de milhares de anos de evolução, não é novo. Basta olharmos para o velcro, por exemplo. No nosso caso, nós olhámos especificamente para bactérias que conseguem controlar o crescimento de outros organismos à sua volta e industrializamos esse processo. Neste momentos conseguimos produzir milhares de litros destes compostos utilizando estas bactérias (em condições muito específicas) como fábricas microscópicas de compostos, dentro de reatores de fermentação.

A partir do momento em que a fermentação acaba, nós removemos as bactérias, que re-circulamos para outros usos, re-circulamos a água, e temos um produto final, para os nossos clientes introduzirem nos seus produtos.

Quais os vossos principais investidores?
P.F.:
Temos três investidores que estão connosco praticamente desde o início e que apostaram no crescimento da empresa: a Caixa capital, a InterCapital e a TEAK capital.

Qual o montante de financiamento angariado até agora?
G.C.:
Nas duas rondas de financiamento levantámos um total de 1,8 milhões de euros.

“Estamos neste momento a levantar uma ronda de financiamento e a falar com vários investidores quer a nível nacional quer a nível internacional (…)”.

Fazer uma ronda de financiamento está nos vossos planos?
P.F.:
Estamos neste momento a levantar uma ronda de financiamento e a falar com vários investidores quer a nível nacional quer a nível internacional, que permita à empresa entrar nos mercados internacionais que tem como alvo e estar em posição de negociar inclusivamente contratos de licenciamento da tecnologia.

“O investimento foi o nosso maior desafio na fase inicial”.

Quais os principais desafios de montar uma start-up de biotecnologia? Investimento? Recursos humanos…?
G.C.:
O investimento foi o nosso maior desafio na fase inicial. Até porque vindo de uma carreira académica não estávamos completamente preparados para lidar com uma abordagem direta ao mundo do investimento empresarial.

Desde 2013, ano da vossa fundação, até agora como analisam, globalmente a evolução do ecossistema nacional de start-ups?
P.F.:
A Biomimetx situa-se na biotecnologia azul, e aqui temos visto um claro desenvolvimento, com a proteção dos oceanos a serem o motor deste desenvolvimento. Existe cada vez maior consciência que temos de adaptar as nossas indústrias e aqui tem havido um esforço de várias entidades para promoveram essa adaptação. Existem cada vez mais start-ups nesta área a saírem de programas de aceleração, inclusivamente de programas de aceleração específicos como o Blue Bio Value, e cada vez mais start-ups internacionais a instalarem-se em Portugal e a olharem para Portugal na área do mar como uma oportunidade.

Mais do que isso temos assistido a grandes empresas a olharem para estas start-ups com interesse em promoverem pilotos conjuntos, o que é mais uma valia enorme, e à criação de fundos de investimentos específicos para investirem em tecnologias azuis.

De facto quando falamos do mar e de Portugal, existe já estabelecida uma relação óbvia, não temos de explicar a ninguém no mundo porque é que em Portugal uma empresa de biotecnologia olha para o mar como oportunidade. Entendo que o futuro é promissor a nível nacional, não se perca o foco.

“Há claramente bons investidores (…) que estão a lançar fundos específicos nesta área, porque veem uma oportunidade nos projetos e nas empresas”.

E o setor da biotecnologia em Portugal têm-se revelado positivamente? Há bons investigadores e empreendedores nesta área?
G.C.:
Há claramente bons empreendedores, apesar de o ecossistema ser ainda relativamente jovem. É difícil por exemplo, encontrar um empreendedor que já tenha conseguido uma saída para a sua empresa e para os seus investidores e que esteja neste momento em posição de ele próprio investir ou coinvestir. O que já acontece, por exemplo, com frequência nas TI, e onde temos excelente exemplos em Portugal.

Temos empresas de biotecnologia que levantaram investimentos interessantes, na área da farmacêutica (como a Exogenus Therapeutics ou a Sea4us), ou que estão no mercado já há muitos anos como a Biotrend.

Há claramente bons investidores (a começar pelos nossos que arriscaram numa empresa que estava a sair da Universidade e que têm sido um grande apoio), que estão a lançar fundos específicos nesta área, porque veem uma oportunidade nos projetos e nas empresas.

Oito anos depois da fundação o que é hoje a Biomimetx e o que esperam dela num futuro próximo?
P.F.:
Num futuro próximo a Biomimetx espera implantar-se como líder internacional de produtos sustentáveis para controlo de biológicos. Claro que com uma abordagem segmento a segmento e com parceiros que sejam líderes de mercado em cada segmento.

*Gonçalo Costa, fundador e CSO, e Patrick Freire, fundador, diretor executivo e COO

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