Após meses de espera, finalmente começam a chegar a Portugal os fundos relativos ao Plano de Recuperação e Resiliência, a célebre bazuca europeia que promete reencher de milhões e milhões os cofres do nosso depauperado Estado à beira-mar plantado, e que tanto sofreu nos últimos anos com a crise económica e social resultante da pandemia mundial.

Cheios de boas intenções, os nossos governantes prometem apoio generalizado a uma miríade de setores afetados, visando a utilização dos fundos igualmente para a construção de uma realidade económica mais social e distributiva, assente nas novas energias e na capacitação profissional dos portugueses (já estou a ver pós-doutorados em “barda” dentro de poucos anos já que desde o processo de Bolonha quase todos os nossos jovens são no mínimo mestres ou doutores, reconhecimento que seria impensável há umas poucas décadas atrás, exceto após anos de trabalho e dedicação, claro está).

Apregoa-se que esta bazuca irá resolver os problemas, erradicando os espectros da crise e catapultando Portugal para uma nova fase de crescimento económico que permita colocar-nos novamente a par dos nossos parceiros europeus. Digo a par, embora estejamos no topo do que diz respeito a esses indicadores, sendo certo, porém, que quem cai tão fundo como nos aconteceu, crescer acima do ritmo dos demais países europeus, partindo de tão fraca base, não é propriamente um indicador de sucesso, mas sim um sinal do desastre que antecedeu a pequena bonança que já vivemos.

Na prática a bazuca já tinha chegado, mas não era aquela que tanto queríamos. Grande parte do tecido empresarial decaiu significativamente. Outra encerrou definitivamente. Quem soube pedir subsídios atrás de subsídios – e em muitos casos conhecia os meandros do sistema – foi-se aguentando à tona, com um ou outro pirulito ocasional. Muitos não sabiam sequer por onde começar e afogaram-se definitivamente.

E com a crise nas empresas veio a crise nos empregos. Já nem os números de desemprego conseguem ser reais dado que cessando os subsídios respetivos, as pessoas em questão, mesmo que continuem desempregadas, deixam de figurar nas listagens de “desempregados ativos” (a ironia do termo é por demais evidente).

E com a crise laboral vem a crise social, as famílias destroçadas, a pobreza crescente, a falta de opções para o futuro. E a isto respondemos pedindo a quem tem menos qualificações que vá estudar (que me lembre não dá dinheiro para quem dele precisa no imediato) ou que se especialize em novas tecnologias (porque profissões artesanais facilitam isso, sem dúvida…).

Não quero que o tom seja negativista, longe disso, até porque sou otimista por natureza e o copo está sempre meio cheio mas… a realidade é que por muitas bazucas que nos possam dar para combater os exércitos da pobreza e crise económica/social, há um elemento que nunca poderemos controlar: a mente de quem dispara essas bazucas. Confessamente não vejo um cenário tão otimista como queria. São muitos anos a viver acima do que podemos (se dúvidas há veja-se o endividamento público a nível nacional, regional ou municipal), sempre a arrastar os problemas para gerações futuras.

Espero sinceramente que este vaticínio esteja equivocado, e que os alertas à navegação sejam devidamente ouvidos por quem de direito em tempo útil. Se assim não for, se mais uma vez cairmos na prodigalidade que tanto nos caracteriza e no despesismo inútil e de conveniência política e económica, arriscamo-nos a olhar para a nossa população daqui a umas décadas e podermos ter a honra de ter o maior número de doutorados desempregados por metro quadrado na Europa. E muitos sem saberem trocar uma lâmpada ou arranjar uma torneira. Fica a dica.

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Nuno Madeira Rodrigues é Chairman da BDJ S.A. Anteriormente foi Chairman da Lusitano SAD, Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É Vice-Presidente... Ler Mais