Talvez por saber que dificilmente irei dobrar a minha idade atual (embora haja sempre uma réstia de esperança de entrar para o Guiness Book), tenho pensado muito sobre o papel das pessoas mais velhas na liderança das organizações.

Tive a felicidade de assumir funções de chefia muito cedo. Com apenas 29 anos fui convidado a regressar a Portugal e assumir as funções de diretor do Investimento Estrangeiro no ICEP (atual AICEP). Recordo-me de ter ficado surpreendido quando entrei na sala para a primeira reunião de diretores. Pensei para mim mesmo: algumas destas pessoas podiam ser meus Pais!. A segunda diretora mais nova teria mais 5 ou 6 anos do que eu… depois era tudo a subir. Éramos os “jovens diretores”.

Ao longo da minha carreira fui-me apercebendo de que a idade tem uma importância relativa no exercício de liderança. Cruzei-me com líderes/dirigentes relativamente novos com cabeças completamente envelhecidas e pessoas com muito mais idade do que eu que me transmitiram a energia, a criatividade e a alegria de um jovem. Ou seja, conheci muitos “novos velhos” e alguns “velhos novos”. E a diferença no estilo de liderança é notória.

Os líderes que são novos de idade, mas velhos nas atitudes e comportamentos, tendem a dar demasiada importância a si próprios. Porque chegaram a lugares de chefia relativamente cedo, consideram-se mais iluminados, extraordinários, brilhantes e perdem, muitas vezes, a humildade de dizer “não sei” e a liberdade de pedir ajuda. O sentimento da autossuficiência torna-os mais desatentos aos que os rodeiam, centrando-se sobre si próprios. Podem ser excelentes líderes pelos resultados que apresentam, mas tenho dúvidas que sejam bons líderes de pessoas.

Há uma outra categoria de líderes “novos velhos” que, por sentirem que já atingiram um bom patamar em termos de carreira e estatuto, ganham vícios de excessiva prudência e calculismo. Arriscam pouco, gerem o status quo e esperam tranquilamente pela próxima oportunidade de serem promovidos. Fazem “poucas ondas” e estão atentos aos que lhes podem fazer sombra, assegurando que os mantêm à distância e controlados ou, em situações mais graves, eliminando-os profissionalmente.

Pessoalmente, nunca me senti inspirado ou atraído por este tipo de líderes. Prefiro, procuro e aprendi muito com líderes mais velhos, mas com espírito por vezes até bem mais jovem do que o meu. Esses líderes que já são velhos de idade, mas jovens nas atitudes e comportamentos, conseguem transmitir simultaneamente experiência e arrojo. Pela sua idade, acumularam um manancial de experiências que os tornam pessoas de enorme bom-senso e ponderação. Mas, ao mesmo tempo, conseguem manter um espírito atento e irrequieto. Questionam o status quo, questionam-nos e questionam-se, nunca se sentem acomodados e têm uma capacidade maravilhosa de nos fazer pensar: como gostaria de ser como ele/ela. Esses líderes são uma fonte inesgotável de aprendizagens, de histórias divertidas e dramáticas, de dilemas e paradoxos que nos ensinam imenso.

Há também, claro está, líderes jovens com cabeças (ainda) jovens e líderes velhos com cabeças (já) velhas. Mas esses, uns e outros, ficam para outras reflexões.

Pessoalmente, procurarei ser um líder “velho novo” para que aqueles com quem me cruzo e ainda cruzarei se possam sentir tocados e inspirados como eu me senti há 30 anos.

E você?

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Sobre o autor

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Diogo Alarcão tem feito a sua carreira essencialmente na área da Gestão e Consultoria. Foi Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Foi Diretor da Direção de Investimento Internacional do ICEP, de 1996 a 2003.... Ler Mais