Tarde de sábado, cada um no seu quarto a estudar. Bato à porta de um deles e pergunto:  Como vais? Precisas de ajuda? Silêncio…
– Mamã porque tenho de estudar isto?

Nesse instante passou-me pela cabeça começar com o discurso da importância do conhecimento e do saber ser a base de tudo. Mas pela linguagem corporal entendi que ia ser pouco efetivo e até contraproducente pois poderia levar-nos a uma discussão interminável. Assim, optei por uma abordagem mais simples:

– Olha, para poderes escolher o que queres fazer na tua vida.

Para poderes ser tu a escolher o teu futuro e que ninguém o faça por ti. Para teres alternativas, tens que estudar. Estudar tudo o que te ensinem na escola e tudo o que tu queiras saber e que não te falam na escola.

Não estudar é não saber, não saber é limitar as tuas opções. Queres ser tu a escolher o que queres ser ou teres que te sujeitar a um trabalho sem interesse que não te dê gosto nenhum?

Passado este episódio lembrei-me que poderia ter-lhe falado da quantidade de pessoas que conheci que fugiam à matemática quando é tão óbvio que quase tudo na vida é matemática, e ao fazê-lo, fecharam portas a projetos interessantes ou a iniciativas que lhes teriam dado outras perspetivas.

Recordei também o contrário, alunos com uma mente matemática bem oleada, mas incapazes de articular um discurso fluído ou de escrever um texto bem estruturado e sem erros ortográficos.
Ignorar, minimizar ou desrespeitar a importância da matemática e da língua nativa no ensino primário e no secundário tem repercussões para toda a vida. Logo, imediatamente, na escolha do curso a seguir, depois no decorrer desse curso e, posteriormente, no percurso profissional.

É verdade que cada vez mais se defende a importância da atitude e do comportamento no desenvolvimento pessoal e profissional. Não tenho dúvidas sobre isso, eu própria já escrevi muito sobre este tema. Mas estas variáveis fazem a diferença quando comparando níveis de conhecimento base iguais para o exercício da função. Conhecimento base. Evidentemente alguém com a atitude adequada desenvolverá conhecimento adicional e complementar melhor, mas deve existir, sem lugar a dúvidas, um sólido conhecimento base.

Posso não saber o que quero ser, mas quem não quer ter alternativas? Quem não quer poder escolher? A autonomia e a liberdade de escolha são essenciais para o nosso bem-estar. O psicólogo Neozelandês Ronal Fischer diz que, de acordo com os estudos realizados pela sua equipa, poder ter liberdade de escolha é mais importante do que ter muito dinheiro para sermos felizes. As razões são simples: poder escolher dá sentido à nossa vida. A escolha é um caminho em direção a um sonho, a um objetivo, a um fim.

Se a nossa vida é verdadeiramente o reflexo das nossas escolhas, das nossas grandes e pequenas decisões, faz muito sentido ter opções.

Parece-me que seria importante que os alunos, a partir de uma certa idade, ouvissem histórias de vidas reais de adultos que fizeram opções fáceis, para na altura reduzir ao mínimo o esforço de estudar, e que depois perceberam o erro.

O que podemos então fazer para garantir que eles adquirem o conhecimento base?
Tenho a certeza de que muitas escolas e muitas instituições ligadas ao Ensino já se têm debruçado sobre este assunto. O âmbito e o conteúdo do conhecimento base já está bem definido e discutido nos programas académicos. É possível que se possam fazer melhorias, mas a minha preocupação é mais com a forma como estes conteúdos são lecionados de maneira a torná-los interessantes e sedutores para quem os aprende. Muitos amigos me referem que ganharam o gosto por certas matérias pelos professores que as lecionavam. Também tenho visto claramente esta caraterística no ensino superior e na formação pós-graduada. Se quem ensina alia o conhecimento à paixão, dificilmente escapamos a essa sedução. Quando não há paixão e há conhecimento temos que pôr mais interesse do nosso lado, nada que não seja também necessário para que o saber entre dentro de nós.

Parece-me também importante que quando se ensina se explique a utilidade desse conhecimento. Porque estamos a aprender isto? Para que serve? Esta pergunta é talvez muito básica, mas na nossa cabeça entendemos melhor as coisas quando conseguimos perceber, na prática, a relação com o mundo real. Isso não quer dizer que todo o conhecimento tenha que ser diretamente aplicável. Há conhecimento que serve para entender outro conhecimento. É só importante perceber isso.

Fora da escola e da Universidade aprende-se muito e rápido. Em contexto profissional as aprendizagens são práticas, permitem produzir resultados que são utilizados por outros processos ou outras pessoas e que resultam em produtos finais, apoiam a tomada de decisão ou conduzem a perder ou a ganhar dinheiro. As organizações também são um veículo de aprendizagem importantíssimo na vida de todos nós. Por isso é nosso dever e responsabilidade como gestores dedicar tempo a ensinar a quem connosco trabalha, quando é preciso, como fazer as coisas de forma eficiente e com a qualidade desejada. É também o nosso dever como gestores aprender com os nossos colaboradores, que se tivermos feito um bom trabalho de recrutamento, em certas matérias, sabem muito mais do que nós.

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Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais