Opinião

Quando já não há narrativa para contar

Sónia Jerónimo, CEO Modern Art Studio | Contemporary Art
Foto: Sónia Jerónimo

Vivemos num tempo em que tudo parece precisar de explicação imediata. Porque mudaste. Porque saíste. Porque recomeçaste. Porque deixaste uma carreira sólida, uma relação, uma cidade, uma identidade profissional ou uma versão antiga de ti mesma.

No início de qualquer transição, quase todos sentimos necessidade de explicar.  Aos outros — e muitas vezes a nós próprios. Explicamos o que estamos a construir. O que nos levou até ali. O que esperamos encontrar do outro lado. Tentamos tornar a mudança lógica, coerente, aceitável.

É humano.

Mas há um momento, mais tarde, em que algo muda silenciosamente: as explicações deixam de fazer sentido.Não porque estejam erradas. Mas porque já não são necessárias. E é precisamente aí que começa a parte mais profunda de qualquer transformação.

A maioria das pessoas imagina que o mais difícil é decidir. Não é. A decisão, apesar de dolorosa, ainda traz energia, movimento e até uma certa adrenalina emocional. O difícil vem depois. Depois da decisão. Depois do entusiasmo inicial. Depois da validação externa diminuir.

Chega então um período estranho e pouco falado: o tempo em que já não existe novidade suficiente para interessar aos outros e ainda não existe resultado suficiente para validar o caminho. É aqui que muitas mudanças se desfazem. Não porque tenham sido erradas, mas porque deixam de receber reflexo externo. Durante anos, construímos identidade através de contextos muito claros: profissão, função, reconhecimento, produtividade, expectativas sociais.

O cargo confirma. A agenda confirma. Os resultados confirmam. Os outros confirmam.

Quando isso desaparece — ou muda profundamente — sobra uma pergunta desconfortável: quem sou eu quando ninguém valida? Esta não é uma pergunta filosófica. É uma pergunta prática. Porque a resposta define se uma pessoa consegue sustentar a própria transformação ou se regressa silenciosamente ao que já não fazia sentido, apenas para recuperar sensação de pertença.

Vejo muitas pessoas — especialmente mulheres competentes, responsáveis, fortes — chegarem a este ponto. Não lhes falta inteligência. Não lhes falta capacidade. Nem sequer lhes falta coragem.

O que lhes falta, muitas vezes, é permissão interna para permanecer num caminho antes de ele produzir provas visíveis. Vivemos numa cultura obcecada por reinvenção constante. Mudar tornou-se quase uma performance. Reposicionar-se permanentemente parece sinal de evolução. Mas existe uma diferença importante entre adaptação e instabilidade. Há uma altura em que maturidade já não é mudar constantemente. É permanecer tempo suficiente para que algo novo tenha hipótese de ganhar estrutura. Permanecer sem aplauso. Sem retorno imediato. Sem precisar de uma narrativa nova todos os meses para justificar o caminho.

E isso é extremamente difícil.

Porque permanecer obriga-nos a conviver com o silêncio, com a lentidão e com a ausência de confirmação externa. Obriga-nos a continuar mesmo quando a excitação da mudança já passou. É aqui que descubro, cada vez mais, o que significa liderança verdadeira. Não a liderança visível, performativa, cheia de discurso e palco. Mas a liderança silenciosa: aquela que acontece quando ninguém está a olhar.

Quando acordamos e continuamos. Quando duvidamos e continuamos. Quando ainda não temos garantias, mas já temos verdade suficiente para não voltar atrás.

Talvez seja precisamente isto que muitas pessoas precisam de ouvir neste momento: nem toda mudança vem acompanhada de clareza imediata, validação rápida ou sensação constante de confiança. Às vezes, a única coisa que existe é uma convicção silenciosa de que já não conseguimos viver da mesma forma. E isso basta para começar. Com o tempo, algo assenta. A necessidade de convencer diminui. A urgência de explicar desaparece. A identidade deixa de oscilar ao ritmo da aprovação externa. E percebemos algo importante: a vida não precisa de se transformar constantemente numa narrativa para os outros compreenderem.

Algumas decisões precisam apenas de tempo.
Alguns caminhos precisam apenas de continuidade.
E algumas transformações tornam-se reais precisamente quando já não sentimos necessidade de as explicar.

Primeiro, decide-se. Depois, sustenta-se. Por fim, permanece-se.
E talvez a maturidade seja exatamente isso: chegar a um ponto em que já não precisamos de convencer ninguém para continuar o caminho que sabemos ser nosso.

* Este artigo é um excerto de um livro em elaboração de minha autoria, denominado Este livro não é para te convencer

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Sónia Jerónimo

Sónia Jerónimo

Sónia Jerónimo é atualmente CEO Modern Art Studio | Contemporary Art. . Anteriormente foi Startup Builder EmpowHER®, cofundadora da GO IT Concept & Ambassador na Fábric@ Empreendedorismo do Município de Seia, foi Entrepreneur & Board Advisor e passou pela Winning, como COO e Board Advisory. Tem mais de 20 de experiência na área da gestão e liderança de empresas ligadas às tecnologias de informação. Após a licenciatura em Economia, iniciou a sua carreira no mundo académico como professora nas áreas... Ler Mais..

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