Já se passaram mais de seis meses desde que o mundo conheceu uma nova ameaça que foi o novo coronavírus e a doença que ele provoca. Apesar de já se conhecer muito a respeito do vírus e da doença, muito ainda falta por conhecer para se poder descobrir a cura ou a vacina.

As medidas de distanciamento social, incluindo a quarentena, alteraram, estruturalmente, a forma de relacionar na sociedade, nas suas várias subcomponentes; na família (ter atenção à terceira idade), no trabalho (pode haver grupos de risco), nos locais de culto, nas atividades do dia a dia, no desporto, no lazer, etc.

Uma dessas atividades que foi duramente atingida foi a ida aos cabeleireiros, barbearias, saunas, salões de estética e todos os serviços relacionados. Pessoalmente, deixei de frequentar a barbearia, até porque estiveram encerrados e tive de me adaptar, criando alternativas.

Mas a barbearia foi o local onde observei alguns aspetos e práticas que nos ajudam a refletir sobre a liderança. Sim, o líder deve observar a sociedade em que está inserido e extrair ensinamentos que podem ser replicados num devido contexto, pois, apesar de existir quarentena e confinamento, nunca devemos confinar o nosso sentido de aprendizagem.

Ademais, os lideres são os que devem conduzir as suas organizações ou países durante essa travessia, uma situação que, como costumo dizer, não está escrito nos text book (manuais escolares). É um caminho, como referi no último artigo, a construir e para tal a liderança deve estar preparada para um contexto de distanciamento social.

E o que observamos na barbearia que nos pode ajudar a refletir? Três aspetos:

1.Centrado no cliente, personalizado: no meu caso, quando me deslocava à barbearia, os profissionais já me conheciam e não precisava de dizer o tipo de corte. Mas se se desse o caso de ser um novo profissional a atender-me, ele sempre perguntava o estilo, o corte, as preferências, etc. Da mesma forma a liderança deve observar também as características dos liderados, por forma a ver individualmente as suas caraterísticas, as necessidades que devem ser melhoradas, as potencialidades que devem ser materializadas.

Nestes aspetos um ponto importante é o feedback que deve ser dado. As fases de definição de objetivos e da avaliação devem servir para “personalizar” essa relação numa perspetiva de melhorar o desempenho do colaborador.

2. Autoformação: Quem faz a barba ao barbeiro? Quem capacita o líder? Esta pergunta leva-nos à segunda observação que é a seguinte: durante o tempo em que não há clientes, o barbeiro aproveita para aparar a sua própria barba e cabelo, de forma a que ele se apresente todos os dias sempre com um aspeto “impecável”. Da mesma forma, o líder nunca deve descurar a sua formação a ponto de estar desatualizado, quer em termos de soft skills, quer em termos da evolução técnica do seu negócio.

O líder que não se atualiza, não conhece as valências da sua equipa, ou então tem uma equipa, também cauterizada. Com as medidas de distanciamento social e o uso das plataformas digitais e a consequente ultrapassagem das barreiras físicas, surgiram milhões de oportunidades de formação que devem ser aproveitadas, sem sair do seu computador, sem deixar a instituição.

3. Capacidade de adaptação para a sobrevivência: em artigos anteriores, deixei claro que haverá negócios que deixarão de ser economicamente viáveis neste contexto atual de pandemia e com medidas de distanciamento social. Os seus modelos de negócios terão de ser redesenhados e adaptados, se quiserem sobreviver. Já observámos, nesta fase de desconfinamento, vários negócios a se adaptarem como forma de voltar a conquistar a confiança dos clientes, mas temos de continuar a ser claros, o “antigo normal” parece difícil de se conseguir.

Assim a liderança deve ter a capacidade de se adaptar a um contexto imposto pela pandemia e pelas medidas de distanciamento social. Por exemplo, a liderança deve descobrir novas formas de liderar num contexto de teletrabalho, em que os colaboradores podem passar meses sem terem de se deslocar à empresa, mas fazendo tudo a partir de casa, na hora que lhes convier, com os métodos mais adequados ao contexto e situação, sem terem de observar a assiduidade por exemplo, desde que apresentem resultados. São desafios novos, as videoconferências são agora o normal.

Naturalmente, a tecnologia ajuda muito e esta ausência do convívio e de trabalho numa organização também espacial, mas pode minar a cultura da empresa enquanto espaço de divulgação e observação de normas e procedimentos da organização. O líder terá um grande desafio de manter a cultura organizacional num contexto de teletrabalho, vídeo chamadas e distancia física no escritório, nós que já estávamos habituados ao open space.

 

Voltando ao assunto da barbearia, espero ver a adaptação do espaço e dos procedimentos para poder voltar e me sentir seguro. Da mesma forma, você, líder, espero que tenha aproveitado a quarentena para se autoformar, para se poder adaptar a um contexto (teletrabalho, reunião via remota e distância física) em que 90% da sua equipa pode estar a trabalhar de casa e que no “escritório” pode contar com o máximo de 30% da sua equipa presencial.

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Carlos Rocha é economista e atualmente é presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI -... Ler Mais