As recentes medidas de combate à segunda vaga da pandemia não deixarão de constituir um travão adicional à atividade, por um período que ainda não é possível determinar, sobretudo nos setores mais expostos aos seus efeitos: comércio, restauração e alojamento e cultura. Acresce que, com muitos países europeus a regressar a situações de confinamento, as exportações de mercadorias, que estavam a recuperar razoavelmente, contribuindo para a retoma, irão certamente ressentir-se.

O Governo já tomou consciência da necessidade de um acréscimo da ajuda do Estado ao tecido produtivo. Sem essa ajuda, corremos o risco de um colapso da oferta, face ao qual não haverá estímulos à procura que evitem o aumento do desemprego e o consequente agravamento da crise social.

O conjunto de medidas agora anunciado vem no bom sentido, nomeadamente pela sua componente a fundo perdido, há muito reclamada, mas revelam-se ainda insuficientes e, sobretudo, vêm tarde. Como já tive oportunidade de afirmar, o Governo poderia ter lançado este tipo de medidas no terreno mais cedo. Seguramente, teríamos evitado alguma degradação empresarial e teríamos salvo mais alguns empregos.

Para além destas medidas de emergência, é preciso delinear uma estratégia mais sólida para o futuro: o futuro da recuperação de uma crise cujas causas, ao contrário de todas as outras crises de que temos memória, são exógenas e temporárias.

Para acelerar e reforçar essa recuperação, não me canso de insistir que as empresas devem ser colocadas no centro da estratégia económica, como motor do crescimento e da criação de riqueza.

Para isso, é necessário que os recursos de que vamos dispor a partir do próximo ano – mais abundantes, mas sempre escassos – sejam alocados para robustecer as empresas, através de instrumentos dirigidos à sua capitalização, do estímulo a fusões e concentrações, de uma forte aposta na formação para qualificar e requalificar os nossos recursos humanos.

Tenho recebido, diretamente e através dos inquéritos promovidos pela CIP, a evidência do esforço considerável por parte das empresas, reagindo à adversidade e dando provas de resiliência. De realçar também, apesar das perspetivas sombrias para os próximos meses, a atitude positiva que persistentemente vão mantendo face ao futuro, traduzida na intenção de muitas delas indicarem a intenção de manter (ou mesmo aumentar) o investimento, já a partir do próximo ano.

Esta postura contrasta com a visão de quem justifica uma menor atenção ao estímulo ao investimento privado por, supostamente, não se poder pedir às empresas que invistam mais, numa conjuntura negativa.

A este argumento, é preciso responder que qualquer estratégia de recuperação económica só terá sucesso com base no investimento empresarial, devendo, por isso, acionar os instrumentos de política que criem condições propícias a esse investimento.

Mais de uma vez, as empresas deram provas da sua resiliência em situações adversas. Ao invés de a menosprezar, potenciemos essa resiliência através de uma política económica adequada.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais