Existem 3,9 mil milhões de mulheres no mundo, representando 49% da população mundial. Cerca de 85% das decisões de consumo são definidas por mulheres[1]. No entanto, a maioria dos produtos (bens e serviços) não foram desenvolvidos tendo em conta as suas necessidades específicas.

Vários exemplos confirmam esta situação. As formações de suporte básico de vida para reanimação de paragens cardiorrespiratórias são feitas em manequins homens, o que explica a probabilidade de sobrevivência de um homem que é reanimado em público ser 23% superior à de uma mulher[2]. Em situações de emergência que acontecem em público, existe desconforto em fazer reanimações a mulheres por ser um corpo diferente daquele em que são dadas as formações.

Até 2012, os testes de simulações de acidentes em automóveis nos EUA não incluíam mulheres, o que resultava em cintos de segurança desadequados e com maiores probabilidades de consequências graves, em comparação com homens. Na União Europeia acontece o mesmo: apenas um de cinco testes de segurança que existem de acordo com a regulamentação especifica que devem ser utilizadas manequins mulheres nos testes e, apenas no lugar do/a passageiro/a[3].

Na área da saúde, por exemplo, as bases de dados relativas a doenças cardiovasculares e fatores de risco associados são essencialmente compostas por homens, apesar das doenças cardiovasculares serem a principal causa de morte de mulheres a nível global[4]. Estes e muito outros exemplos são detalhados num livro recente “Invisible Women: Exposing Data Bias in a World Designed for Men”.

Enquanto investidor, o meu dever é identificar as melhores oportunidades de investimento. Enquanto investidor de impacto, o meu mandato é encontrar oportunidades de investimento que melhorem a qualidade de vida de pessoas e do planeta. Enquanto homem, sinto a responsabilidade de aprender mais sobre este tema e, nesse sentido, tenho falado com muitas mulheres para aprender mais sobre as oportunidades de melhoria que existem.

Acredito que a indústria de produtos direcionados a mulheres e às suas necessidades específicas beneficia de um conjunto de realidades:

Dimensão de mercado: ‘female tech’ é a indústria que inclui software, diagnósticos e produtos que utilizam tecnologia para melhorar a saúde feminina. Em 2025, estima-se que seja uma indústria avaliada em 50 mil milhões de euros[5]. Esta indústria não inclui por exemplo produtos higiénicos femininos, cuja dimensão é avaliada em cerca de 33 mil milhões de euros a nível global. Em 2012, o investimento de capital de risco em ‘female tech’ era cerca de 57 milhões de euros; em 2020, espera-se que atinja os 1,3 mil milhões de euros, 22 vezes mais que em 2012.

Elevada frequência na utilização de produtos: neste momento existem cerca de 80 milhões de mulheres no mundo no seu período menstrual. 2 mil milhões de mulheres têm o período uma vez por mês durante uma média de 40 anos, o equivalente a cerca de 12 mil produtos menstruais utilizados durante a vida. Para contexto, um homem que faça a barba todos os dias da sua vida durante 60 anos e troque de lâmina todas as semanas, utiliza cerca de 3 mil lâminas durante a vida.

Diversidade de temas dentro da mesma categoria: a indústria de produtos direcionados a mulheres não está apenas relacionada com temas de menstruação e fertilidade, como pode dar a entender pelas empresas que nasceram inicialmente nesta área. Existem inúmeros temas relevantes que passam pela adequação do design de produtos do dia a dia para se adequarem às necessidades das mulheres (por exemplo, smartphones, design de escritórios, equipamento desportivo, entre outros). A oportunidade de inovação em bens e serviços que permitem uma experiência plena a mulheres enquanto consumidoras aplica-se a todos os setores de atividade.

Mudança de narrativa: pode parecer coisa do passado, mas a edição dos Óscares da Academia em 2020 baniu um anúncio da marca Frida Mom por retratar uma mulher, recém-mãe, que se levantava de noite para mudar o penso pós-parto enquanto o seu filho recém-nascido chorava no quarto. Por seu lado, um anúncio no Super Bowl, visto em média por 90 milhões de pessoas, mostrava um homem a tentar adivinhar o sabor dos Doritos através do contacto com os seus genitais. Enquanto os meios de comunicação generalistas reforçam o tabu à volta da saúde feminina, existe uma oportunidade de diferenciação por parte de novas marcas a operar na indústria de produtos femininos. Estas marcas têm a oportunidade de falarem e comunicarem sobre esta temática enquanto criam uma relação forte com as suas consumidoras, refletindo-se em maior lealdade para com as marcas. Muitas marcas têm feito este caminho, como a Ohne, a Flo, Clue, Pexxi, Brarista, Elvie, entre outras.

Na MAZE, em todas as áreas que trabalhamos, estamos ativamente à procura de inovações na área de produtos direcionados a mulheres e motivados para continuar a aprender e a crescer o nosso conhecimento nesta temática nos próximos tempos.

O potencial económico e de impacto em servir as mulheres com melhores produtos é algo que tem estado adormecido durante décadas e estamos num excelente momento para mudar este paradigma. Cabe à comunidade de investidores/as, empreendedores/as, empresas e organizações sociais moldar este caminho – a oportunidade existe e metade da população do nosso planeta merece melhor.

[1] 30 statistics whem marketing to women https://thenextweb.com/socialmedia/2012/01/24/the-top-30-stats-you-need-to-know-when-marketing-to-women/#.tnw_wUzMxTvr
[2] Eight ways the world is not designed for women https://www.bbc.com/news/world-us-canada-47725946
[3] The crash test bias https://www.consumerreports.org/car-safety/crash-test-bias-how-male-focused-testing-puts-female-drivers-at-risk/
[4] Cardiovascular disease and the female disadvantage https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30939754/
[5] Venturebeat https://venturebeat.com/2018/03/08/frost-sullivan-femtech-could-become-a-50-billion-market-by-2025/

Nota: Este artigo é sobre a oportunidade económica que existe no desenvolvimento de produtos direcionados especificamente para mulheres. Não é um artigo sobre as desigualdades de acesso e representatividade de mulheres no mundo profissional ou sobre os temas de diversidade e inclusão em geral – esses temas estão a ser alvo de reflexão interna em todas as áreas da MAZE (aceleradora Maze X, fundo MSM e área de setor público) onde estamos a trabalhar para melhorar e onde comunicaremos resultados, não intenções.

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António Miguel é fundador e CEO da MAZE, uma empresa de investimento de impacto criada pela Fundação Calouste Gulbenkian. É responsável pelas áreas de investimento, através do fundo MSM, e setor público, tendo trabalhado em propostas que mobilizaram mais de... Ler Mais