A história já nos demonstrou vezes sem conta que as recessões económicas e pandemias alteram a trajetória de governos, transformam os sistemas económicos e reformam os universos empresariais.

No século XIV, a Peste Negra quebrou o sistema feudal e substitui-o pelo contrato de trabalho mais moderno.Três séculos mais tarde, uma profunda recessão económica deu início a um enorme impulso de inovação na produtividade agrícola. Avançando para tempos mais recentes, a crise financeira de 2008 também produziu os seus efeitos colaterais em Portugal.

Há pouco mais de 10 anos, era impossível estar em frente a uma televisão, a ouvir rádio ou a ler um jornal, sem que o tema predominante de cada notícia não passasse por falar de recessão económica, falência bancária e desemprego, principalmente jovem.

Nessa altura, alguns conseguiram manter os seus postos de trabalho, muitos deles precários, agarrando-se a eles como se de um oásis no meio do deserto se tratasse. Outros, nem por isso. Mas na realidade, todos passaram a ter um futuro incerto, no qual todos os amanhãs pareciam escuros, desfocados, e onde a insegurança passou a ser palavra de ordem.

Mas no meio deste misto de caos e receio, um pensamento começou a florescer na cabeça dos portugueses: “E se tentasse trabalhar para mim? Por mim!”

E assim, por força da necessidade, nasce o engenho, e em plena recessão empreendedores começaram a surgir, por vezes de onde nunca imaginámos ser possível.

Exploraram-se nichos de mercado e apostou-se na tecnologia e na inovação, mas também na qualidade e na renovação de conceitos mais antigos, que em conjunto, provaram ser o pilar da retoma de que este nosso País tanto precisava.

Esta vaga de empreendedorismo, fundada na necessidade e na obrigação de reinvenção própria por razões de sobrevivência, ajudou a reconstruir Portugal. Foram estes empreendedores (Nós!) que recuperaram o controlo do barco e o levaram novamente à descoberta.

Tanto navegámos, tanto lutámos e, quando o futuro parecia mais sorridente e promissor do que nunca, somos hoje novamente postos à prova. Vivemos novamente tempos de instabilidade e incerteza, teremos novamente que percorrer este caminho difícil, mas com a capacidade de ver o “copo meio cheio”, agora que já sabemos do que somos capazes.

A famosa frase “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas aquele que melhor se adapta às mudanças” apresenta um princípio que se aplica ao mundo empresarial desde sempre. Deixo aqui três pontos que considero fundamentais para a sobrevivência de qualquer organização durante este período tão atípico.

Primeiro ponto: O capital 

É fundamental continuar a apostar para ganhar e não apenas para sobreviver. O ideal é manter a empresa ativa e começar já a preparar o momento pós-crise.

Para tal, um dos primeiros passos é aceitar que o plano de negócios existente, hoje tornou-se obsoleto e irrelevante, e que é necessário preparar já um novo plano ajustado ao pior cenário possível.

Devemo-nos perguntar: em que ponto estava a minha empresa no início de 2020? Estava em boa forma ou não, e porquê? Onde e como nos vemos no final de 2020? Qual o capital que temos disponível hoje? E quanto precisaremos para nos mantermos em atividade nos próximos 18 meses? Comecem a preparar a saída da crise com um plano para 2021.

Todos sabemos que o dinheiro move a economia. Chegou a hora de rever todas as despesas; aquelas que não são essenciais devem ser cortadas. É necessário transformar os custos fixos em custos variáveis, ​​apostando numa gestão mais ágil.

Deve-se ainda identificar e proteger as fontes de receita, baixando tempos e condições de pagamento, dando sempre prioridade às nossas contas.

É também essencial avaliar e calcular os potenciais riscos. É importante garantir que o financiamento avaliado para permanecer ativo durante os próximos meses é o estritamente necessário, não correndo riscos de incumprimentos desnecessários.

Segundo ponto: Know how 

Para se tornar uma referência no seu mercado de atuação, uma organização deve deter alto conhecimento do mercado em que atua, dos procedimentos e atividades que desempenha, das técnicas e ações necessárias para a realização dos seus processos, assim como das informações sobre o seu produto ou serviço.

A experiência é fundamental para adaptação a esta nova realidade incerta. Devemos encarar esta situação como uma oportunidade de reforçar as nossas bases de conhecimento, tornando-as mais robustas e consequentemente mais competitivas.

Mais do que nunca, é necessário acompanhar as tendências, apostar na formação dos colaboradores mais jovens, aperfeiçoar técnicas, fornecer soluções assertivas e entregar resultados de qualidade para manter o nosso produto ou serviço na mente dos nossos clientes.

É hora de inovar com colaborações inusitadas, fomentar sinergias nunca antes imaginadas, conversar com profissionais de diversas áreas e perceber quais os desafios comuns e quais as parcerias certas.

Terceiro ponto: Recursos humanos 

Os recursos humanos são a base de qualquer estrutura organizacional e estão intimamente ligados ao bom desempenho empresarial. Numa situação de crise, construir uma equipa que desempenhe as suas funções com dedicação, empenho e brio profissional é imprescindível.

Para tal, é necessário potenciar a eficiência dos funcionários fomentando uma relação de confiança e segurança. A comunicação é crucial; deve-se reduzir a incerteza mantendo a equipa aliviada no seu plano pessoal, de forma a esta se conseguir focar na sua atividade profissional. O medo não é, nem nunca foi o motor do progresso.

A confiança, abertura e humildade são práticas fundamentais para uma gestão eficiente dos recursos humanos; só assim iremos criar uma equipa que “vista a camisola”, e enraizar o conceito de intraempreendedorismo que nos permitirá enfrentar este período turbulento.

Reforçar a equipa com elementos jovens poderá ser uma aposta vencedora. Os chamados millennials constituem a geração mais promissora, com um alto nível de educação e um perfil versátil, ambicioso, dinâmico e criativo, que certamente trará vantagens competitivas para qualquer organização.

“Um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um otimista vê uma oportunidade em cada dificuldade.” – Winston Churchill

 

*Licenciado em Comunicação e Design Multimédia, André Espinha estava longe de imaginar que o seu percurso iria apontar para a área do turismo. Após oito anos de trabalho na área de marketing e publicidade, decidiu aliar este know-how à sua paixão por viagens e gastronomia, dando o salto para o mundo do empreendedorismo.

Hoje é CEO da Keykeeper, especialistas em gestão de Alojamento Local, e da Portugal in a Can, criadores de experiências gastronómicas. Ambas as atividades possibilitam um contato muito próximo e enriquecedor com pessoas vindas dos quatro cantos do mundo e têm em comum o grande objetivo de potenciar as riquezas culturais e sociais do nosso país. André Espinha é secretário da mesa da Assembleia Geral da Associação Começar Hoje.

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