Opinião

Comunicação intercultural em equipas globais: o protocolo como ferramenta estratégica

Isabel Amaral, especialista em protocolo e comunicação intercultural

Num mundo empresarial cada vez mais global, saber comunicar não significa apenas dominar uma língua. Significa compreender que as mesmas palavras, gestos e silêncios podem produzir significados muito diferentes.

Uma reunião termina. O líder pergunta se existem objeções à decisão apresentada. Segue-se o silêncio. Para uns, significa concordância. Para outros, pode significar respeito pela hierarquia, desconforto em discordar publicamente ou simplesmente a necessidade de mais tempo para pensar. Nada de extraordinário aconteceu. E, no entanto, pode ter começado ali um problema.

Nas equipas globais, os conflitos raramente começam com grandes divergências. Muitas vezes nascem de pequenos gestos ou comportamentos aos quais pessoas de diferentes culturas atribuem significados distintos. Um email demasiado direto pode ser entendido como eficiência por uns e agressividade por outros. Uma interrupção pode significar entusiasmo e participação numa cultura e ser interpretada como falta de respeito noutra. Cinco minutos de atraso podem ser irrelevantes para alguém e constituir um sinal de desconsideração para outra pessoa.

O desafio não está apenas em comunicar. Está em interpretar corretamente aquilo que recebemos. O que não dizemos também comunica.  A comunicação intercultural começa precisamente onde termina a ideia de que comunicar é apenas transmitir informação.

Em qualquer organização existem códigos, muitos deles não escritos. A forma de cumprimentar, utilizar o nome ou o título profissional, estabelecer contacto visual, discordar de uma decisão, fazer uma crítica ou dirigir-se a alguém hierarquicamente superior transmite informação sobre respeito, proximidade, autoridade e confiança.

Quando uma equipa reúne pessoas de diferentes países, esses códigos deixam de ser universais. Uma cultura pode valorizar uma comunicação muito explícita, em que se espera que cada pessoa diga claramente aquilo que pensa. Outra pode privilegiar formas mais indiretas, nas quais preservar a relação ou evitar constrangimentos públicos é considerado essencial. Nenhuma destas abordagens é, por si só, melhor.

O problema surge quando uma delas é tomada como norma absoluta e a outra passa a ser julgada como falta de profissionalismo. É aqui que aparece um dos maiores riscos da comunicação intercultural:  confundir diferença cultural com incompetência, desinteresse ou má educação.

  1. Liderar sem presumir

Nas equipas globais, a responsabilidade pela comunicação intercultural não deve ser colocada exclusivamente sobre os colaboradores. Cabe sobretudo à liderança criar condições para que as diferenças possam ser compreendidas.

Um líder internacionalmente competente não precisa de conhecer todas as regras culturais do mundo. Precisa, sobretudo, de desenvolver curiosidade, capacidade de observação e consciência dos próprios pressupostos. Em vez de presumir que o silêncio significa concordância, pode perguntar: “Gostaria de ouvir a opinião de quem ainda não se pronunciou.” Em vez de interpretar imediatamente uma resposta indireta como evasiva, pode procurar clarificar: “Devemos considerar esta opção como uma possibilidade real ou existem reservas que devamos discutir?”

Em vez de impor uma única forma de participação, pode estabelecer diferentes canais para recolher contributos — oralmente, por escrito ou depois da reunião. São gestos simples. Mas a liderança é muitas vezes feita precisamente destes pequenos mecanismos de inclusão. Uma equipa multicultural precisa de regras claras, mas também de espaço para diferentes formas de expressão.

2.Protocolo como ferramenta estratégica

É neste ponto que o protocolo assume uma dimensão particularmente relevante. Frequentemente associado à etiqueta, à organização de cerimónias ou às regras de precedência, o protocolo pode ser entendido de forma mais ampla: como um instrumento de previsibilidade das relações. Quando sabemos como cumprimentar, apresentar, receber, convidar, dirigir-nos a alguém ou conduzir uma reunião, reduzimos a margem para interpretações erradas.

Num contexto internacional, esta previsibilidade ganha ainda maior importância. Definir previamente quem apresenta, quem intervém, como são tomadas as decisões, como se manifestam discordâncias ou qual o grau de formalidade esperado não significa burocratizar a comunicação. Significa retirar do caminho uma série de ambiguidades que podem consumir energia, criar desconforto e fragilizar relações.

O protocolo, neste sentido, não elimina a espontaneidade. Cria segurança para que a espontaneidade possa acontecer.

E essa é uma competência particularmente valiosa quando estão em jogo clientes internacionais, parceiros estratégicos, equipas multiculturais ou eventos de elevada exposição.

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Isabel Amaral

Isabel Amaral

Isabel Amaral é Presidente Emérita da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo que fundou em 2005 e Investigadora do Instituto do Oriente (ISCSP-Universidade de Lisboa), desde 2013. É oradora internacional, empresária, coach executiva, docente em universidades portuguesas e estrangeiras, palestrante e conferencista, em temas como Imagem, Protocolo e Comunicação Multicultural. Como formadora de protocolo, imagem e comunicação intercultural, assegurou a organização e monitoria de diversos cursos em Portugal, Angola, Cabo Verde, Namíbia. Espanha, Bélgica, Países Baixos e República Popular da... Ler Mais..

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