Opinião

Transformação digital não é tecnologia. É mudança operacional

Daniela Costa, COO da Eurotux
Foto: Daniela Costa

Nos últimos meses assisti a uma aceleração que raramente se vê neste setor. O salto mais recente na inteligência artificial, sobretudo na área técnica, deixou-nos sem grande margem para dúvidas: os resultados já não são apenas úteis. Em muitas tarefas, são melhores do que os de um humano.

Há poucos meses, pedir a uma ferramenta de IA generativa que ajudasse a diagnosticar um problema técnico numa máquina dava um resultado com alguma utilidade, mas que não substituía ainda a experiência de uma pessoa. Hoje, essa mesma tarefa é resolvida em minutos, com um nível de detalhe que, com frequência, supera o que um técnico conseguiria entregar sozinho.

Isto é, ao mesmo tempo, entusiasmante e desconfortável. E é precisamente por isso que insisto num ponto que considero central: o verdadeiro desafio da transformação digital nunca foi tecnológico. É operacional. É humano.

A tecnologia já lá está. A organização, não.

As ferramentas de IA generativa estão hoje acessíveis a qualquer empresa, por um custo (ainda) relativamente baixo. Isso, por si só, já não é novidade. A novidade é que deixaram de ser “úteis, mas limitadas” para passarem a ser, nalgumas tarefas técnicas, mais rigorosas e mais rápidas do que uma pessoa experiente. E quanto maior é uma organização, maior é o desafio, não porque falte tecnologia, mas porque falta tempo e método para a incorporar nos processos de trabalho reais.

Veja-se o caso do desenvolvimento de software. Um programador habituado a um modelo sequencial: recebe um pedido, codifica, testa, entrega, recebe o pedido seguinte. Esse modelo está a terminar. O trabalho passa a ser em paralelo: dar um pedido à máquina, avançar para o pedido seguinte enquanto o primeiro é executado, validar o que foi feito, e repetir o ciclo. E em muitos casos, o pedido é o software inteiro. É como ter um assistente extremamente capaz, que precisa que lhe expliquemos bem o que pretendemos, e que, quando erra, pode errar de forma significativa.

Não é a IA que substitui pessoas. É a falta de adaptação.

Quero ser clara quanto a isto: neste momento, a inteligência artificial ainda depende do ser humano para trabalhar. Precisa de alguém que lhe dê o contexto certo e que valide o resultado. E aqui está o ponto que mais me preocupa: tanto o pedido como a validação exigem experiência real, não apenas conhecimento técnico. É a experiência de já ter passado por várias situações que permite a alguém perceber se o que a máquina entregou faz sentido. Sem essa maturação, corre-se o risco de validar tudo de forma automática, sem espírito crítico. Isso é particularmente arriscado para os profissionais com menos experiência, que são também os que mais precisam de espaço para desenvolver esse critério.

Por outro lado, já não creio que o essencial esteja em dominar a arte de escrever o prompt perfeito. Isso deixou de ser uma competência diferenciadora, já que as próprias ferramentas ajudam a construir bons prompts. O que importa, hoje, é saber dar o contexto certo: explicar bem o que se quer alcançar e deixar que a ferramenta ajude a chegar lá.

O tempo que temos é limitado

Estimo que as empresas tenham, no máximo, entre um ano e um ano e meio para se organizarem em torno desta mudança: para perceberem que, a partir de agora, todos vamos ter de trabalhar em dois planos simultâneos: identificar, dentro das nossas próprias funções, quais as tarefas que devem continuar a ser feitas por pessoas e quais podem passar a ser feitas por IA. E depois investir precisamente nas tarefas humanas, que continuam, e continuarão, a ser essenciais.

Porque isto não é uma corrida para eliminar tudo o que é humano do processo. Ninguém gosta de passar meia hora ao telefone com uma máquina para resolver um problema com uma companhia aérea. Substituir contacto humano por automação a qualquer custo não é transformação, é apenas corte de custos disfarçado, e o cliente sente a diferença. A verdadeira transformação está em saber escolher onde a máquina acrescenta valor e onde a pessoa continua a ser insubstituível.

Ler os sinais, preparar as pessoas

Há uma área que se destaca com a evolução da IA: a cibersegurança. A mesma tecnologia que ajuda a proteger ajuda também a atacar, o que torna o jogo mais competitivo dos dois lados. É também um lembrete de que, mesmo num mundo mais automatizado, continuaremos a precisar de pessoas profundamente especializadas nalgumas áreas. Só que noutras, o conhecimento técnico deixará de ser, por si só, uma vantagem competitiva.

Em Portugal ainda estamos longe da realidade que se vive nos Estados Unidos, onde este debate já avançou muito mais. Isso não deve tranquilizar-nos. Deve, pelo contrário, dar-nos tempo para nos prepararmos com mais cuidado. Porque a pergunta que as organizações têm de responder não é “que tecnologia devemos comprar”. É “como vamos reorganizar o trabalho das nossas equipas”. A tecnologia já está disponível para quase todos. A vantagem vai estar em quem souber transformá-la numa nova forma de trabalhar, mais depressa do que os concorrentes.

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