Entrevista/ “As empresas que invistam em Torres Vedras podem beneficiar de fundos europeus com taxas até 85%”

Carlos Bernardes, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras

Torres Vedras tem mais de 10 mil empresas, que faturam 2,5 mil milhões de euros por ano. Os benefícios fiscais, a instalação de novas empresas, a proximidade a Lisboa e o acesso a maiores fundos comunitários são alguns dos trunfos para atrair a inovação para este concelho, apontou Carlos Bernardes, presidente da autarquia, em entrevista ao Link To Leaders.

Torres Vedras há muito que deixou de ser o concelho que é conhecido apenas pelas praias de Santa Cruz, pelos terrenos férteis e pelo bom vinho. Por toda a região, fervilham novas empresas que vieram dar um novo dinamismo à economia local e aos mais variados setores. Atualmente, os dois programas de incubação de empresas da Agência Investir Torres Vedras, que foi inaugurada no início deste ano pela autarquia, contam com 31 projetos incubados.

Carlos Bernardes, presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, esteve à conversa com o Link To Leaders e falou deste e de outros projetos que têm como missão atrair investimentos a este concelho do distrito de Lisboa. O autarca traçou ainda o balanço do seu mandato e destacou as ideias que gostaria de ver implementadas.

No início deste ano, o município de Torres Vedras lançou um projeto direcionado para empreendedores – a Agência Investir Torres Vedras. Em que é que consiste?
A Agência Investir Torres Vedras é um projeto da Câmara Municipal de Torres Vedras que, em março deste ano, abriu portas no Centro de Apoio ao Empresário da Região Oeste – CAERO. O que pretendemos é fazer o acompanhamento de todas as formas de investimento no concelho, dinamizar o empreendedorismo local e continuar a captar investimento para este território, que conta com mais de 10 mil empresas.

O nosso tecido empresarial é muito diversificado e dinâmico. Mas é importante continuar a atrair investimento, especialmente aquele que fixa empresas e cria emprego. E para cumprirmos esse desígnio, precisamos de ter condições que deem resposta às necessidades dos empresários e dos investidores. Vários serviços direcionados aos agentes económicos do concelho que eram prestados na Câmara Municipal, passaram a ser exclusivamente prestados ali. E tudo isto só é possível porque existe um trabalho de articulação com os serviços municipais e outras entidades, que nos permite dar esta resposta integrada e diferenciadora a todos os que nos procuram.

“No fundo, a Agência Investir acompanha empresários e investidores em toda a fase de investimento. Da ideia à sua concretização, passando pelo crescimento da empresa”.

Qual foi o investimento realizado no projeto até ao momento?
Esta resposta é bastante abrangente, que vai da mediação realizada no âmbito do “Licenciamento Zero” à incubação dos mais variados projetos e negócios. Para isso, contamos com programas de empreendedorismo como o TORRES INOV-E e o EcoCampus, mas também com entidades de promoção do investimento como o ecoMAR e o SMART FARM COLAB, e o centro de conhecimento Torres Vedras LabCenter.

No fundo, a Agência Investir acompanha empresários e investidores em toda a fase de investimento. Da ideia à sua concretização, passando pelo crescimento da empresa. Em muitos casos, os projetos chegam ainda em fase “embrionária”, não existindo sequer informação sobre o valor de investimento. Calcular o investimento que já conseguimos fazer será um exercício interessante para o futuro, com o amadurecimento do projeto.

Qual a importância desta agência para o desenvolvimento da economia da região?
Consideramos que a Agência Investir Torres Vedras tem um papel fundamental para fomentar uma cultura empreendedora no nosso concelho. É aqui que congregamos importantes instrumentos que visam dinamizar o empreendedorismo local, mas também atrair novos investimentos. Para isso, paralelamente, também é importante fazer uma pesquisa e análise constante de instrumentos e apoios financeiros destinados ao apoio a empresas e a novos projetos. Mas também temos de promover e acompanhar projetos estratégicos e estruturantes para a inovação e desenvolvimento económico do território, com vista a dinamizar a economia, o empreendedorismo, a inovação e a investigação.

Além de diagnosticar a realidade do concelho, é nossa responsabilidade ter connosco todos estes dados. Só assim poderemos encontrar as melhores repostas a implementar, no futuro, mas também no presente.

“No que diz respeito à incubação física, seis projetos encontram-se incubados no Torres Vedras LabCenter, enquanto 22 encontram-se incubados virtualmente”.

Quantas empresas já estão instaladas no espaço? E de que áreas?
No total, os dois programas de incubação de empresas da agência contam com 31 projetos incubados. O TORRES INOV-E centra-se em projetos inovadores que se baseiam na economia do conhecimento. No que diz respeito à incubação física, seis projetos encontram-se incubados no Torres Vedras LabCenter, enquanto 22 encontram-se incubados virtualmente. Já o EcoCampus conta com três projetos incubados, dentro da área da Paisagem Protegida Local das Serras do Socorro e Archeira.

A agência de investimento acolhe start-ups de todo o país?
A Agência Investir faz atendimentos a qualquer entidade que queira investir em Torres Vedras. Temos o exemplo do Espaço Empresa, que é um polo do Espaço Empresa da OesteCIM, em que fazemos atendimentos a qualquer investidor ou empresa que queira recorrer a um serviço de mediação, no âmbito do “Licenciamento Zero”. No entanto, os programas de incubação só estão acessíveis para entidades com sede social no concelho de Torres Vedras.

“(…) oferecemos vários benefícios fiscais a projetos que demonstrem ser de interesse municipal. É disso exemplo a isenção total ou parcial de impostos municipais como o IMI ou o IMT”.

Quais os benefícios que conseguem dar às empresas que se queiram instalar no concelho?
Só por si, as características do nosso concelho apresentam inúmeras mais-valias para quem se queira instalar no território. Encontramo-nos na Região Centro, mas também no distrito de Lisboa, pelo que as empresas que realizem investimentos aqui podem beneficiar de fundos europeus com taxas de cofinanciamento até 85%.

Além destas condições-base, oferecemos vários benefícios fiscais a projetos que demonstrem ser de interesse municipal. É disso exemplo a isenção total ou parcial de impostos municipais como o IMI ou o IMT. Esta é uma das formas de incentivar o investimento e a fixação de atividades económicas, que está ao alcance de todas as iniciativas de interesse municipal estratégico e que visem a instalação, relocalização ou ampliação das respetivas instalações no Concelho.

Quando falo em “interesse municipal”, falo em projetos que, de facto, pretendem contribuir para o desenvolvimento estratégico da economia local. E para isso, essas iniciativas devem cumprir, cumulativamente, vários fatores: investimento mínimo de um milhão de euros à data da apresentação da candidatura, criação líquida de um mínimo de 10 postos de trabalho, investimento não concluído à data de candidatura e manutenção da localização da atividade por um período mínimo de cinco anos (após a conclusão do investimento).

O apoio local não fica por esta agência. Que outros projetos/iniciativas visam a promoção do empreendedorismo?
Os nossos programas de empreendedorismo cumprem, precisamente, essa função de promoção do empreendedorismo. Além da incubação de projetos, o TORRES INOV-E dinamiza, todos os meses, a iniciativa “9 é dia de INOV-E”. E assim, cada dia nove é dia de reflexão sobre temáticas e dinâmicas do empreendedorismo. Já aqui referi o EcoCampus e o Torres Vedras LabCenter. Este último é um laboratório de fabricação digital e centro de conhecimento, investigação, desenvolvimento de projetos e protótipos. Um polo de excelência situado no centro histórico da Cidade, que é uma das zonas em que queremos apostar, cada vez mais.

A estes “pilares” soma-se, ainda, o trabalho que desenvolvemos em articulação com o ecoMAR, uma estratégia de desenvolvimento local que atua nas freguesias do litoral de Torres Vedras e da Lourinhã, unindo um conjunto de parceiros públicos e privados.

Já o SMART FARM COLAB – Laboratório Colaborativo para a Inovação Digital na Agricultura irá contar com financiamento da FCT [Fundação para a Ciência e a Tecnologia] ao longo dos próximos cinco anos e pretende ser um centro gerador de soluções digitais inovadoras para a agricultura. Queremos continuar a apostar neste setor e não temos dúvidas de que as tecnologias de ponta podem ter, aqui, um papel fundamental. Torres Vedras quer contribuir para melhorar as performances da atividade agrícola.

Qual o seu envolvimento nestes projetos?
O meu compromisso sempre foi o de estimular o nosso tecido empresarial, de dar todas as condições para que as empresas encontrem, aqui, tudo o que precisam para se fixarem e para contribuírem para o desenvolvimento económico e social deste território. Sou e serei sempre o “primeiro” a querer encontrar soluções que beneficiem quem nos procura e, acima de tudo, que contribuam para a qualidade de vida de quem aqui vive.

“Atualmente, Torres Vedras tem mais de 10.500 empresas com um volume de negócios que ronda os 2,5 mil milhões de euros”.

Quantas empresas existem atualmente em Torres Vedras e quanto faturam por ano?
Atualmente, Torres Vedras tem mais de 10.500 empresas com um volume de negócios que ronda os 2,5 mil milhões de euros.

Como avalia o apoio das entidades públicas aos novos projetos que têm surgido em Portugal?
Essencialmente, creio que as entidades públicas devem assumir o papel de facilitadores de novos projetos. A postura tem de ser essa e, acima de tudo, há que criar os mecanismos que façam com que isso aconteça na prática, no dia a dia de quem quer avançar com os seus projetos. É isso que procuramos fazer com a isenção de alguns impostos municipais para projetos que sejam do interesse municipal. Mas também o fazemos, todos os dias, na Agência Investir, através do Espaço Empresa. Ali, através de um balcão único de atendimento (presencial, digital e telefónico), apoiamos os empresários na criação e gestão do seu negócio.

“Conseguimos levar 47 projetos a votação, num processo amplamente participado, em que distribuímos 300 mil euros para a implementação dos projetos vencedores”.

 Foi anunciado recentemente que o Orçamento Participativo de Torres Vedras vai financiar 16 projetos, que resultam das ideias e propostas dos cidadãos do Concelho. O que mais destaca nestes projetos?Acima de tudo, considero que se trata de um dos instrumentos mais nobres ao serviço da cidadania ativa. Em Torres Vedras temos vindo a trabalhar o seu modelo, de forma a conseguirmos dar resposta às ideias que são apresentadas pelos cidadãos. A edição deste ano, por exemplo, contou pela primeira vez com duas tipologias de projeto, o que permitiu assegurar a implementação de um projeto por cada freguesia, mas também de três projetos supra freguesia. Conseguimos levar 47 projetos a votação, num processo amplamente participado, em que distribuímos 300 mil euros para a implementação dos projetos vencedores. Um montante que vai aumentar para os 350 mil euros no próximo ano e a que se vai somar a primeira edição do Orçamento Participativo Jovem.

Torres Vedras está entre os 100 destinos mais sustentáveis, reconhecimento atribuído pela Green Destinations . O que acha que tem contribuído para esta distinção?
É um caminho que temos vindo a traçar ao longo das últimas décadas. O desafio em torno do ambiente e da sustentabilidade não é novo para nós. Foi em 1999 que demos início ao nosso Plano Municipal de Ambiente. Porque começámos a ter esta visão, este entendimento de que há medidas que podem dar resposta a estes desafios. Seguiu-se a Estratégia de Adaptação às Alterações Climáticas, a Agenda 21 Local e a Agenda Torres Vedras 2030, que nos coloca na primeira linha das boas práticas internacionais de desenvolvimento sustentável.

Mas convém recordar que esta é uma distinção que não surge isolada. Todos os anos, um vasto número de praias que dão forma aos nossos 20 km de costa recolhem galardões que as distinguem no que toca à sua qualidade. Não é por acaso que hasteamos a bandeira “Quality Coast” desde 2009. Fomos, ainda, um dos primeiros municípios a receber o galardão “European Green Leaf”, em 2015, com a Comissão Europeia a destacar a nossa estratégia de mobilidade, mas também o esforço em torno da preservação da biodiversidade e da gestão da água.

Que balanço faz dos cerca de quatro anos que está à frente da Câmara de Torres Vedras?
É um balanço extremamente positivo. A vida autárquica é desafiante, especialmente quando está em causa uma câmara como a de Torres Vedras, cheia de dinamismo. São muitas iniciativas e projetos desenvolvidos por equipas muito competentes, criativas e jovens, que dão o melhor de si pelo município. E quando assim é, a experiência, por mais desafiante que seja, é extremamente enriquecedora.

“Aos dias de hoje, são centenas de camiões que saem, todos os dias, de Torres Vedras para abastecer o país e vários pontos do mundo. E isso deve-se à qualidade dos nossos produtos endógenos”.

O que gostaria de implementar e ainda não conseguiu?
Neste momento estamos a fazer uma aposta forte na mobilidade. Estamos a dotar a cidade de uma rede de ciclovias urbanas, de percursos pedonais cómodos e acessíveis e de sistemas inteligentes de controlo de tráfego, que se aliam a um sistema de bicicletas públicas partilhadas. Sabemos que a vida urbana tem de ser profundamente alterada. E isso passa, indubitavelmente, por mudar a forma como circulamos. São mudanças que não se fazem de um dia para o outro. Exige discussão, esclarecimento, reflexão e planeamento. É um processo que envolve muito mais do que decisores políticos e equipas técnicas. É necessário envolver a população e conquistá-la para esta “batalha”, que é de todos nós.

No que toca ao concelho como um todo, somos um dos principais territórios no âmbito da indústria agroalimentar. Aos dias de hoje, são centenas de camiões que saem, todos os dias, de Torres Vedras para abastecer o país e vários pontos do mundo. E isso deve-se à qualidade dos nossos produtos endógenos.

Mas também somos uma referência, a nível nacional, no que toca aos cuidados de saúde. Depois de Lisboa, Porto e Coimbra, somos a principal cidade no que toca à oferta de serviços de cuidados de saúde. O “Torres Vedras Health Park for Multidisciplinary Care”, que resulta de um trabalho em conjunto com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, é disso exemplo. O espaço do antigo Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior vai passar a ser um espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, mas também à formação, ao ensino e à investigação.

Este território encerra um potencial enorme em todas estas áreas, tal como no que ao turismo diz respeito. Neste sentido, estão em desenvolvimento vários projetos que, muito em breve, irão enriquecer a nossa oferta hoteleira. E neste campo, não posso deixar de sublinhar a importância do galardão de “Cidade Europeia do Vinho 2018”. A oferta enoturística disparou, com o desenvolvimento de vários projetos que têm vindo a revelar-se de sucesso, o que nos levou, muito recentemente, a lançar o nosso próprio Guia de Enoturismo.

Respostas rápidas
O maior risco: Não aproveitar todas as oportunidades que temos “na mão”, todas as nossas potencialidades.
O maior erro: Subestimar a nossa capacidade de ir mais longe, de agir de forma global a partir do local.
A maior lição: É impossível escolher uma. Ao ser presidente de Câmara, todos os dias há uma nova lição a assimilar.
A maior conquista: Colocar Torres Vedras no “mapa” do combate às alterações climáticas.

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