Opinião

Se a inteligência artificial fizer o trabalho, como aprendemos a pensar?

Ana Rita Frazão, CEO da ONE Watch Company
Foto: Ana Rita Frazão, CEO ONE Watch Company

Sabem quando antes sequer de irmos à fórmula ou procurarmos a origem do erro, há qualquer coisa que salta à vista: “Isto não pode estar certo?”. Não sabemos necessariamente ainda onde está o problema. Mas sabemos que há um problema.

Esse instinto não nasceu connosco. Construiu-se depois de vermos centenas de análises, fazermos contas, cometermos erros, percebermos ordens de grandeza e aprendermos como determinadas variáveis se relacionam. Se deixarmos de fazer o trabalho, como desenvolvemos o critério para avaliar o trabalho que a IA faz por nós?

Sou uma entusiasta de IA, parei a ONE por 4 dias para todos termos uma formação em ferramentas de IA muito prática – é uma preocupação e algo que pode potenciar muito uma organização.

E não tenho dúvidas de que a IA nos vai tornar muito mais produtivos. Já o está a fazer. Eu própria a uso diariamente e seria absurdo defender que devemos continuar a fazer manualmente aquilo que uma ferramenta consegue fazer melhor e mais depressa.

Durante muito tempo, uma parte importante da nossa aprendizagem profissional aconteceu precisamente enquanto fazíamos o trabalho. Um analista não aprendia apenas a construir um modelo. Ao construir dezenas de modelos, começava a ganhar referências. Um número parecia demasiado alto. Uma margem não podia ter variado daquela forma.

Com o tempo, deixava de precisar de verificar tudo para perceber que alguma coisa não batia certo. Chamamos-lhe experiência, judgement, sentido crítico. Mas foi construído fazendo.

E o mesmo acontece noutras áreas. Como aprende alguém a construir uma estratégia se começa sempre por pedir dez opções à IA? Como aprende a escrever bem se nunca passa pelo esforço de organizar uma ideia? Como desenvolve criatividade e aquele rasgo de ligar duas coisas aparentemente desconexas se começa sempre com uma página já preenchida?

Curiosamente, esta reflexão fez-me voltar a um dos valores que mais quero cultivar na ONE e que aprendi a valorizar muito onde trabalhei antes: obligation to dissent.

Se não concordamos com alguma coisa, temos a obrigação de o dizer. Não apenas a liberdade. A obrigação.

Gosto muito deste princípio porque está diretamente ligado a ownership. Se sou responsável pelo resultado, e não pela tarefa, não posso executar algo que não me faz sentido e, se correr mal, dizer no final: “eu já achava”. Mas para discordar não basta ter coragem. É preciso ter pensamento próprio.

E há aqui um equilíbrio importante. Pensamento crítico não é discordar de tudo. Também exige humildade para perceber o que não sabemos, fazer perguntas, ouvir argumentos melhores e mudar de opinião. Nem aceitar por defeito, nem discordar por sistema. Pensar. E claro, questionar o que a IA nos diz, porque diz muita coisa que não está bem.

E se começarmos a usar a IA antes de desenvolvermos esse músculo, será que podemos tornar-nos muito mais eficientes sem necessariamente nos tornarmos melhores?

Sabiam que alunos com acesso livre a uma ferramenta de IA tiveram resultados 48% melhores enquanto praticavam matemática, mas 17% piores num exame posterior, quando deixaram de ter acesso à ferramenta? Fiquei muito impressionada com esta métrica da OCDE e com o conceito de “cognitive offloading”. Na prática, delegamos numa ferramenta parte do esforço mental que antes era necessário para executar uma tarefa. Ou seja, conseguir chegar a uma resposta melhor não significa necessariamente ter aprendido a pensar melhor.

E isto não me parece ser apenas um problema da escola. É um problema das empresas.

Se uma parte do trabalho mais júnior for progressivamente automatizada, temos de pensar em como substituímos também a aprendizagem que acontecia enquanto esse trabalho era feito. Como se ganha experiência sem algumas das repetições que construíam experiência? Como ensinamos alguém a questionar uma resposta antes de essa pessoa ter referências suficientes para perceber que está errada?

Não acredito que a resposta seja usar menos IA. Não tenho a resposta, tenho a inquietação.

Deixo um último desafio, muito simples, para quem coloca o Waze ou o Google Maps assim que entra no carro: experimentem conduzir dois ou três dias sem GPS, pelo menos em percursos que conhecem razoavelmente. Provavelmente vão enganar-se numa saída, demorar mais tempo ou descobrir que afinal não sabiam tão bem o caminho como pensavam. O GPS é uma ferramenta extraordinária porque nos leva mais depressa ao destino, mas, se nunca fizermos o caminho sem ele, deixamos progressivamente de construir o nosso próprio mapa mental.

Talvez com a IA o desafio seja semelhante: usá-la para chegarmos mais longe e mais depressa, sem deixarmos de construir o mapa que nos permite perceber se estamos, de facto, no caminho certo.

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Ana Rita Frazão

Ana Rita Frazão

Ana Rita Frazão é CEO da ONE desde 2023 e tem conduzido a estratégia de crescimento com foco na consolidação do posicionamento da marca, no rejuvenescimento do produto e da comunicação e, sobretudo, na expansão internacional. Trabalha de forma transversal com as equipas na transformação de um negócio de origem familiar numa marca com ambição global, hoje presente em várias categorias para além de relógios e joalharia, incluindo smartwatches, acessórios de homem e óculos de sol. Antes de assumir a... Ler Mais..

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