Opinião

A solidão estratégica

Sónia Jerónimo, CEO Modern Art Studio | Contemporary Art
Foto: Sónia Jerónimo

Existe uma solidão específica que surge quando uma pessoa começa a mudar internamente antes de o mundo à sua volta perceber. Não é ausência de companhia. Não é isolamento físico.

É outra coisa. É a sensação de estar entre versões de si mesma. Ainda reconhecível para os outros. Mas já irreconhecível para si. Esta fase raramente aparece nas narrativas públicas sobre mudança porque não é bonita, rápida nem inspiradora.

É lenta. Silenciosa. Desorganizada. E, no entanto, é aqui que as transições verdadeiras acontecem.

No início, quase toda a gente tenta explicar-se. Explica porque mudou. Explica o que está a construir. Explica o que já não fazia sentido. As explicações ajudam temporariamente. Dão estrutura. Reduzem ansiedade. Tornam o processo mais aceitável para os outros. Mas chega um momento em que explicar deixa de aliviar. Porque o que está a acontecer já não cabe numa narrativa simples.A mudança tornou-se estrutural. E é precisamente aqui que muitas pessoas começam a sentir uma solidão difícil de nomear.

As pessoas continuam presentes. Mas já não conseguem acompanhar verdadeiramente o ponto interno em que elas estão. Algumas apoiam. Outras observam. Outras esperam discretamente que tudo volte ao normal. E talvez o mais duro seja isto: às vezes, nós próprias também esperamos.

Esperamos acordar e voltar a caber confortavelmente na vida antiga. Esperamos recuperar entusiasmo automático. Esperamos voltar a sentir alinhamento onde ele já desapareceu.

Mas há mudanças internas que não têm marcha-atrás emocional.

Quando uma pessoa já viu demasiado, já percebeu demasiado ou já deixou de se reconhecer profundamente numa determinada estrutura, voltar atrás deixa de ser regressar. Passa a ser fragmentar-se. E isso cria solidão. Porque o mundo lida melhor com decisões claras do que com processos ambíguos. As pessoas compreendem mudanças concluídas. Não compreendem facilmente travessias. Querem respostas rápidas: “Então, o que vais fazer?” “Já decidiste?” “Mas tens a certeza?” Como se a identidade pudesse reorganizar-se na velocidade de uma conversa.

O problema é que as transformações profundas raramente acontecem de forma linear. Há dias de clareza. Há dias de medo. Há dias em que tudo parece possível. E outros em que a vontade de voltar atrás surge apenas para aliviar o desconforto. Isto não significa incoerência. Significa humanidade. Mas muitas pessoas confundem esta oscilação emocional com erro.

Acham que, se ainda sentem medo, então talvez estejam a exagerar. Se ainda duvidam, talvez devam esperar mais. Se ainda não conseguem explicar perfeitamente o caminho, talvez ainda não estejam preparadas. Na realidade, muitas vezes estão apenas a atravessar. E atravessar é um estado desconfortável por definição. A solidão estratégica aparece exatamente aqui: quando já não existe pertença total ao antigo e ainda não existe estrutura suficiente no novo.

É uma fase sem espelhos claros. O cargo antigo já não organiza. A identidade nova ainda não estabilizou. E, durante algum tempo, a única referência possível é interna. Isso assusta.Porque fomos treinadas para validar constantemente as nossas decisões através da reação dos outros.

Quando essa validação diminui, a tendência natural é tentar compensar:

  • explicar mais,
  • justificar mais,
  • procurar aprovação,
  • tornar a mudança mais aceitá

Mas existe um momento em que continuar a pedir compreensão externa começa a enfraquecer a própria transição. Porque a liderança madura nasce precisamente quando deixamos de precisar de convencer toda a gente para continuar.É importante dizer isto com honestidade: nem todas as pessoas vão compreender a tua mudança. Algumas porque não conseguem. Outras porque a tua coragem confronta diretamente a estagnação delas. E outras simplesmente porque ainda te conhecem apenas na versão antiga.

Isso dói.

Especialmente para pessoas habituadas a sustentar relações, criar harmonia e garantir aprovação. Mas crescer implica inevitavelmente perder algumas formas antigas de reconhecimento.A pergunta decisiva torna-se então: Quem és quando já não recebes confirmação constante?Esta não é uma pergunta espiritual. É uma pergunta prática. Porque determina se uma pessoa consegue permanecer tempo suficiente para que a nova estrutura interna assente. A maioria das mudanças falha aqui. Não por falta de talento. Não por falta de visão.

Mas por desgaste emocional.

A solidão cansa. O silêncio cansa. A ausência de feedback claro cansa.

E é precisamente por isso que tantas pessoas regressam cedo demais a versões de si mesmas que já não eram verdadeiras.Não porque estejam erradas. Mas porque estão cansadas de sustentar sem confirmação. Talvez seja isto que precisamos normalizar mais: Há fases da vida em que a maior prova de liderança não é avançar rapidamente. É permanecer sem garantias.

Permanecer enquanto a identidade reorganiza. Permanecer enquanto o medo perde autoridade. Permanecer enquanto o novo ainda não produz resultados suficientes para convencer ninguém. Porque algumas das transformações mais importantes da vida não crescem em ambiente de aplauso.

Crescem em silêncio.

* Este artigo é um excerto de um livro em elaboração de minha autoria, denominado “ Este livro não é para te convencer”

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Sónia Jerónimo

Sónia Jerónimo

Sónia Jerónimo é atualmente CEO Modern Art Studio | Contemporary Art. . Anteriormente foi Startup Builder EmpowHER®, cofundadora da GO IT Concept & Ambassador na Fábric@ Empreendedorismo do Município de Seia, foi Entrepreneur & Board Advisor e passou pela Winning, como COO e Board Advisory. Tem mais de 20 de experiência na área da gestão e liderança de empresas ligadas às tecnologias de informação. Após a licenciatura em Economia, iniciou a sua carreira no mundo académico como professora nas áreas... Ler Mais..

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