Opinião

Kabu Verdi: Lideransa di Nha Genti

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education
Foto: José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Há equipas que ganham jogos. Há equipas que ganham respeito. Cabo Verde não ganhou e, no entanto, apurou-se na fase de grupos. E conseguiu muito mais que respeito: saiu do mundial 2026 como o exemplo de liderança.

Não foi apenas futebol. Foi carácter, humildade, coesão e equipa. A grandeza não se mede pelo tamanho do país, pela folha salarial ou pelo número de estrelas. Nada disso jogava a favor. Mede-se pela forma como se entra em campo, como se sofre, como se responde e como se sai.

Bubista, fora de campo, e Vozinha, dentro dele, foram dois rostos da mesma liderança. Um construiu o contexto. O outro deu o exemplo. Um alinhou a equipa. O outro segurou-lhe a alma. Liderança é dar direção (Kotter), alinhar pessoas e criar energia para a mudança. Foi isso mesmo que aconteceu. Sem frases de parede e sem slogans espúrios, a equipa de Cabo Verde criou uma bonita história de liderança, assente no autocontrolo, na coragem, na disciplina e na confiança. Com um profundo sentido de serviço.

A seleção de Cabo Verde não se vitimizou. Não pediu desculpa por existir. Não entrou em campo ajoelhada perante os grandes. Jogou. Lutou. Organizou-se. Sofreu. Acreditou. E isso é liderança.

Vozinha representou a autoridade que não precisa de palco. Terá feito o seu último jogo contra a Argentina, em pleno mundial 2026 e depois de deixar o Desportivo de Chaves, finalizando a carreira. Um guarda-redes que soube viver no lugar mais solitário do campo. Viu tudo e, quando falhou, assumiu-o sozinho, quando salvou, fê-lo em silêncio. Quando resgatou colegas fê-lo por amor à bandeira, à nação, a essa gente pelos quatro cantos do mundo e pelas suas 9 ilhas habitadas. E salvou e resgatou tanto. Aos 40 anos, liderou com presença, não com prosápia. Com algum humor, até, porque é um guarda-redes bom de pés.

Bubista fez o mais difícil: afastou o ego do centro. Há treinadores que usam equipas para se promoverem. Há líderes que usam pessoas como degraus. Bubista fez o contrário: colocou-se ao serviço de uma causa. Quando o ego sai da frente, a equipa aparece.

E depois há Messi. Jogador enorme. Mas a grandeza técnica não absolve a pequenez dos gestos. Quando um jogador de Cabo Verde lhe pede a camisola e ele, segundo relatos e imagens, responde que “lá dentro deram-me pancada e depois pediram-me a camisola”, há pequenez. Há falha simbólica. Em jogos de bola a virilidade faz parte. A camisola, naquele momento, não era um pano. Era reconhecimento. Era memória. Era respeito.

Messi não tinha obrigação de dar a camisola, verdade. Mas os grandes não vivem apenas de obrigações. Vivem de gestos. E foi aí que Cabo Verde foi muito maior. Porque há quem tenha milhões de seguidores e pouco sentido de cerimónia. E há quem tenha uma nação pequena às costas e uma dignidade gigante no coração.

A liderança também se vê no detalhe. No cumprimento. No olhar. Na forma como se ganha. Na forma como se perde. Na forma como se respeita quem nos enfrentou.

Cabo Verde mostrou que uma equipa é mais do que onze jogadores. É confiança organizada. É humildade competitiva. É ambição com raízes.

O futebol e as empresas deviam mesmo estudar este caso. Porque há demasiados líderes preocupados em parecer grandes e poucos disponíveis para fazer crescer os outros.

No dia a seguir, no Mindelo, onde estive na altura do jogo, ninguém de São Vicente dispensou a sua camisola da seleção. Na noite do jogo, mesmo perante a derrota, ninguém dispensou a festa até altas horas. Perguntar-se-á porquê? Porque se deu a elevação de um povo perante um percurso. Não foi um conjunto de jogos. Foi uma história de resistência e, acima de tudo, de humildade e serviço: Es staba lá pa faze stória i pa sirbi un pobu. I ki stória bunita es skrebi!

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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