Entrevista/ “Não espere que a situação se agrave para reorganizar as suas finanças pessoais”
“Muitas pessoas chegam à e-loan porque precisam de uma nova solução de financiamento e pensam contratar mais um crédito pessoal. No entanto, quando já existem vários créditos ativos, acrescentar mais uma prestação pode aumentar a pressão no orçamento familiar”, afirma Pedro Leite, CEO da e-loan.
Com 13 anos de atividade, a e-loan tem acompanhado de perto a evolução da relação dos portugueses com o crédito e com a gestão do orçamento familiar. Num contexto marcado pelo aumento do custo de vida, pela pressão da habitação e por maiores exigências no acesso ao financiamento, a empresa já ajudou mais de 80 mil pessoas em Portugal a encontrar soluções financeiras ajustadas à sua realidade.
À frente da empresa está Pedro Leite, CEO da e-loan, que, nesta entrevista ao Link to Leaders, analisa a crescente procura pelo crédito consolidado, o papel dos intermediários de crédito na tomada de decisões financeiras mais informadas e os principais desafios enfrentados pelas famílias portuguesas. Do estigma ainda associado à reorganização de créditos à importância da literacia financeira, o responsável defende que antecipar problemas e procurar aconselhamento especializado pode fazer a diferença na recuperação do equilíbrio financeiro.
A e-loan assinala este ano 13 anos de atividade. Que balanço faz deste percurso e que mudanças mais significativas observou no comportamento financeiro dos portugueses ao longo deste período?
Estes 13 anos representam um percurso de aprendizagem constante e de proximidade com milhares de portugueses. Ao longo deste tempo, vimos mudar não só o mercado financeiro, mas também a forma como as pessoas encaram o crédito. Hoje existe uma maior preocupação em perceber as condições, comparar soluções e procurar informação antes de tomar uma decisão. Ao mesmo tempo, também sentimos que muitas famílias passaram por uma maior pressão financeira, sobretudo devido ao aumento do custo de vida, das despesas fixas e das taxas de juro.
O nosso papel tem sido ajudar os portugueses a transformar decisões financeiras complexas em escolhas mais simples, conscientes e informadas.
“(…) em maio de 2026, pela primeira vez, os intermediários de crédito passaram a ser o principal canal de contratação de Crédito ao Consumo em Portugal, representando 50,6% da nova produção”.
A empresa já ajudou mais de 80 mil pessoas em Portugal a encontrar soluções financeiras. Que tipo de problemas chegam hoje com mais frequência à e-loan?
Grande parte das pessoas que nos procura sente que perdeu algum controlo sobre o seu orçamento. São clientes que têm vários créditos em simultâneo, com diferentes prestações, datas de pagamento e instituições financeiras, e começam a sentir dificuldade em gerir todos esses compromissos.
Nestas situações, o crédito consolidado da e-loan pode ser uma solução para simplificar a gestão financeira, reunindo vários créditos numa única prestação e permitindo, em muitos casos, recuperar margem no orçamento mensal.
No entanto, os desafios nem sempre estão relacionados apenas com o número de créditos existentes ou com uma taxa de esforço elevada. Encontramos frequentemente situações que podem limitar o acesso a um novo financiamento, como incumprimentos registados no Banco de Portugal, renegociações de dívida que tiveram impacto no perfil de crédito ou documentação essencial que não está regularizada.
É precisamente aí que o papel do intermediário de crédito faz a diferença. Não é por acaso que, em maio de 2026, pela primeira vez, os intermediários de crédito passaram a ser o principal canal de contratação de Crédito ao Consumo em Portugal, representando 50,6% da nova produção. Este marco demonstra que os consumidores valorizam cada vez mais o aconselhamento especializado e independente na procura da solução mais adequada às suas necessidades.
Mais do que procurar uma solução de financiamento, analisamos cada caso de forma individual, ajudamos o cliente a compreender a sua situação financeira e identificamos as alternativas mais adequadas à sua realidade.
Mesmo quando concluímos que uma operação não é viável, o nosso trabalho não termina aí. Explicamos de forma transparente os motivos que levaram à recusa, identificamos os fatores que precisam de ser melhorados e orientamos o cliente sobre os comportamentos e as medidas que poderão aumentar a probabilidade de aprovação no futuro. É muito gratificante ver que alguns desses clientes voltam a contactar-nos meses mais tarde, depois de seguirem essas recomendações, e conseguem concretizar o financiamento que inicialmente não foi possível.
O crédito consolidado ainda é uma solução pouco conhecida por muitos portugueses. Como explicaria, de forma simples, em que consiste e em que situações pode fazer sentido?
O crédito consolidado é muitas vezes associado apenas à ideia de juntar vários créditos numa única prestação, mas é uma solução que pode ir além disso. Na prática, permite reunir diferentes responsabilidades financeiras, como créditos pessoais, cartões de crédito ou outros financiamentos, numa única solução, tornando a gestão mensal mais simples e permitindo analisar se existem condições mais ajustadas para o cliente.
Muitas pessoas chegam à e-loan porque precisam de uma nova solução de financiamento e pensam contratar mais um crédito pessoal. No entanto, quando já existem vários créditos ativos, acrescentar mais uma prestação pode aumentar a pressão no orçamento familiar.
Em alguns casos, pode ser mais vantajoso consolidar os créditos existentes e, caso exista capacidade financeira e aprovação da instituição, incluir um montante adicional para uma nova necessidade. Desta forma, o cliente evita acumular vários créditos separados e mantém apenas uma prestação mensal.
Existe ainda uma modalidade menos conhecida, que é o crédito consolidado com garantia hipotecária. Para clientes que têm um imóvel, esta solução pode permitir aceder a condições diferentes, como prazos mais longos e uma prestação mais ajustada, sempre através de uma análise cuidada do perfil e da situação financeira.
No fundo, o crédito consolidado deve ser visto como uma ferramenta de reorganização financeira, que pode ajudar a simplificar compromissos, melhorar a gestão do orçamento e encontrar uma solução mais adequada para cada situação.
“Existe a ideia de que recorrer ao crédito consolidado é sinónimo de sobre-endividamento ou de graves dificuldades financeiras, mas essa perceção está longe da realidade”.
Existe ainda algum estigma associado a procurar ajuda para reorganizar créditos? Os portugueses chegam tarde demais a este tipo de solução?
Sim, ainda existe algum estigma associado a procurar ajuda para reorganizar créditos. Existe a ideia de que recorrer ao crédito consolidado é sinónimo de sobre-endividamento ou de graves dificuldades financeiras, mas essa perceção está longe da realidade.
Na verdade, apenas uma pequena parte dos clientes que recorrem à e-loan se encontra numa situação financeira verdadeiramente complicada. A maioria procura reorganizar os seus compromissos de forma preventiva, antes que surjam problemas mais graves.
Aliás, uma das maiores surpresas para quem não conhece esta realidade é a diversidade de perfis que acompanhamos. Temos clientes de praticamente todas as profissões e níveis de rendimento, desde trabalhadores não qualificados a diretores-gerais de grandes empresas, juízes, médicos, engenheiros ou empresários. Ter um bom salário não significa, por si só, estar imune à pressão financeira. Muitas vezes, são precisamente pessoas com rendimentos elevados que assumem compromissos financeiros igualmente elevados e procuram reorganizar as suas finanças para recuperar margem e previsibilidade no orçamento.
Naturalmente, também acompanhamos casos em que o cliente já chega numa fase em que acumulou várias dificuldades e em que as opções disponíveis acabam por ser mais limitadas. Um dos principais motivos pelos quais alguns pedidos não conseguem avançar está precisamente relacionado com situações de incumprimento.
Por isso, a nossa principal mensagem é simples: não espere que a situação se agrave para reorganizar as suas finanças pessoais. O crédito consolidado não deve ser visto apenas como uma solução de emergência, mas sim como uma ferramenta de gestão financeira. Quanto mais cedo houver uma análise do seu perfil, maior é a probabilidade de encontrar uma solução.
Uma análise recente da e-loan mostra que os solteiros representam o maior grupo entre quem consolida crédito. Este dado surpreendeu-vos? O que revela sobre a realidade financeira atual?
Este dado mostra que as dificuldades financeiras não estão associadas apenas a um determinado perfil familiar. Durante muito tempo existia a ideia de que estas situações estavam sobretudo ligadas a famílias numerosas ou agregados com vários encargos. Hoje percebemos que pessoas solteiras também enfrentam desafios relevantes, seja pela habitação, pelo custo de vida ou pela acumulação de diferentes compromissos financeiros. A realidade financeira dos portugueses é cada vez mais diversa.
O estudo também mostra uma presença relevante de divorciados e separados. Até que ponto eventos de vida, como divórcio, desemprego ou doença, continuam a estar na origem de situações de maior pressão financeira?
Os acontecimentos de vida têm um impacto muito grande na estabilidade financeira. No setor financeiro existe um conceito amplamente conhecido como os 3D do sobre-endividamento: Divórcio, Doença e Desemprego. Estes três acontecimentos estão entre as principais causas que levam muitas famílias a enfrentar dificuldades financeiras, porque provocam alterações significativas no rendimento, nas despesas ou na própria organização do agregado familiar.
O que estes dados mostram é que a pressão financeira não depende apenas do rendimento ou do valor dos créditos contratados, mas também das mudanças que acontecem na vida das pessoas. Um divórcio, uma perda de rendimento, uma alteração no agregado familiar ou uma despesa inesperada podem mudar completamente a capacidade de uma pessoa gerir os seus compromissos.
Um financiamento que fazia sentido em determinado momento pode tornar-se mais difícil de suportar quando existe uma mudança significativa na vida pessoal ou profissional. É precisamente nesses momentos que é importante parar, analisar o orçamento mensal e perceber se existe uma forma de reorganizar os compromissos financeiros antes que a pressão aumente.
O crédito consolidado pode ser uma ferramenta importante nestas situações, porque permite ajustar a estrutura dos encargos à nova realidade da pessoa, sempre mediante uma análise da sua capacidade financeira.
“Este dado demonstra que a pressão financeira não está limitada a rendimentos muito baixos”.
A maioria dos clientes aufere entre 900 e 1.500 euros líquidos mensais. Que leitura faz deste dado num contexto de aumento do custo de vida, habitação e crédito?
Este dado demonstra que a pressão financeira não está limitada a rendimentos muito baixos.
O que este indicador nos mostra é que, atualmente, mesmo pessoas com rendimentos considerados estáveis sentem dificuldades em equilibrar o orçamento mensal. Estamos a atravessar um período particularmente desafiante, em que o aumento do custo de vida reduziu significativamente a margem financeira das famílias.
A habitação é um dos maiores exemplos dessa realidade. As rendas continuaram a aumentar, tendo registado uma subida média de 5,3% em 2025, segundo dados do INE. Além disso, o aumento das taxas de juro nos últimos anos teve um impacto direto nas prestações de crédito, com a Euribor a passar de valores negativos durante vários anos para níveis superiores a 2%, aumentando a pressão sobre muitas famílias com crédito à habitação.
Isto significa que hoje uma pessoa pode ter um rendimento regular, mas ainda assim ter pouca margem disponível depois de pagar habitação, créditos, alimentação e restantes despesas essenciais.
É precisamente por isso que vemos cada vez mais pessoas procurar soluções de reorganização financeira. Muitas vezes não estamos perante uma situação de falta de rendimento, mas sim perante a necessidade de ajustar os compromissos financeiros à realidade atual e recuperar algum equilíbrio no orçamento.
Quais são os principais erros que os consumidores cometem quando têm vários créditos em simultâneo?
O principal erro é as pessoas adiarem demasiado a procura, olhando para cada crédito de forma isolada e não para o impacto conjunto no orçamento. Uma prestação individual pode parecer comportável, mas quando somamos todos os compromissos percebemos o verdadeiro peso financeiro.
Outro erro frequente é focar apenas na prestação mensal e não analisar fatores como prazo, custo total do crédito e condições associadas.
“Muitas pessoas assumem compromissos financeiros sem terem uma visão completa do impacto que terão no orçamento”.
A literacia financeira é uma componente cada vez mais presente na comunicação da e-loan. Que temas considera mais urgentes para ajudar os portugueses a tomar melhores decisões financeiras?
Acredito que os temas mais urgentes passam por aquilo que vemos diariamente no contacto com os clientes: muitas pessoas assumem compromissos financeiros sem terem uma visão completa do impacto que terão no orçamento.
É importante perceber como funciona um crédito, comparar propostas, compreender taxas de juro, avaliar a taxa de esforço e perceber a diferença entre uma prestação mais baixa e um custo total mais elevado.
O comportamento dos consumidores também tem evoluído muito, com uma procura crescente por informação e decisões mais conscientes.
Outro ponto essencial é aprender a planear. Ter um fundo de emergência para imprevistos e acompanhar regularmente a própria situação financeira pode evitar que pequenos desequilíbrios se transformem em problemas maiores.
Na e-loan acreditamos que a literacia financeira deve fazer parte das decisões do dia a dia e não apenas surgir quando aparecem problemas financeiros. Foi por isso que criámos o blog de literacia financeira “As Minhas Finanças”, onde disponibilizamos artigos, dicas e conteúdos práticos para ajudar os portugueses a melhorar os seus conhecimentos financeiros e a tomar decisões mais informadas.
“A partir de agosto de 2026, a redução da taxa de esforço máxima aplicável ao crédito pessoal de 50% para 45% tornará a aprovação de novos pedidos de crédito pessoal mais exigente”.
Olhando para os próximos anos, que evolução antecipa no mercado de crédito consolidado em Portugal e quais são os principais objetivos da e-loan nesta nova fase?
Acredito que o crédito consolidado vai continuar a ganhar importância porque responde a uma necessidade real: ajudar as pessoas e as famílias a organizar melhor os seus compromissos financeiros. A partir de agosto de 2026, a redução da taxa de esforço máxima aplicável ao crédito pessoal de 50% para 45% tornará a aprovação de novos pedidos de crédito pessoal mais exigente. Neste contexto, é expectável que, em muitas situações, o crédito consolidado com liquidez adicional se torne uma alternativa mais adequada do que um crédito pessoal simples, permitindo reorganizar os encargos existentes. Além disso, quando a capacidade financeira o permitir, poderá também ser possível obter financiamento adicional.
O objetivo da e-loan é continuar a crescer mantendo aquilo que sempre foi a nossa prioridade: acompanhar os clientes, esclarecer dúvidas e apresentar soluções ajustadas à realidade de cada pessoa. Queremos continuar a ser uma referência na intermediação de crédito, com base na confiança, na transparência e na promoção de decisões financeiras responsáveis.








