Opinião

O medo, afinal, estava só no mapa

Sérgio Viana, Managing Partner – Customer Experience na Xpand IT

Passo grande parte do meu tempo a falar sobre Inteligência Artificial — com clientes, com as minhas equipas, em palcos. E há uma pergunta que aparece quase sempre, dita de várias maneiras diferentes: por onde é que se começa? Qual é o caminho certo?

A resposta honesta, que nem sempre é a que as pessoas querem ouvir, é que não há caminho certo. Não há mapa. Mas isso não nos deve impedir de avançar.

Costumo recorrer a uma imagem que me parece a mais fiel para descrever este momento: a dos Descobrimentos. Quando as caravelas largavam de Lisboa rumo ao sul, não levavam a bordo um mapa completo que indicasse o caminho — esse mapa não existia. Existia até onde alguém já tinha chegado, e acabava numa linha para lá da qual os cartógrafos desenhavam monstros e avisos de que, num determinado ponto, as águas ferviam. O mapa não era a condição para navegar. Era o resultado de se ter navegado. Cada viagem trazia uma correção, e o desenho do mundo ficava um pouco menos errado do que estava antes.

É exatamente aqui que estamos com a IA. Não há um manual que nos diga o que fazer com ela no nosso negócio — porque esse manual só se escreve viajando. As organizações que estão a ganhar terreno não são as que esperaram por clareza; são as que largaram do porto, fizeram viagens curtas, trouxeram feedback e corrigiram o mapa. As minhas equipas aprenderam mais em alguns meses de projetos reais com IA do que em qualquer relatório sobre o tema. Nesta matéria, a compreensão vem sobretudo da prática, não do estudo.

Mas convém compreender bem os papéis nesta viagem. A IA não é o mapa. O mapa somos nós a desenhá-lo — as nossas formas de trabalhar, o que aprendemos em cada projeto, o conhecimento que só se ganha navegando. A IA é outra coisa: é o instrumento mais poderoso que alguma vez levámos a bordo, aquele que de repente nos deixa ir mais longe, mais depressa e com menos gente do que pensávamos necessário. É uma conquista assombrosa. Só que nenhum instrumento, por mais extraordinário que seja, nos diz para onde devemos ir. Não nos diz se a viagem vale a pena. Não nos diz se a serpente desenhada na margem é real ou se é apenas o medo de quem nunca lá foi. Isso — o rumo, o critério, a decisão — continua a ser desenhado por nós.

Durante séculos, o esforço esteve em “fazer”: escrever, desenhar, calcular, produzir. Fazer era caro, lento, difícil. A IA muda precisamente isso — fazer passou a ser barato e rápido. E quando fazer deixa de ser o desafio, o valor desloca-se para outro sítio: para “avaliar e decidir”. Saber se aquilo que foi feito é bom, se é verdadeiro, se é adequado, se sequer devia ter sido feito. Essa é a tarefa que se tornou mais importante — e é profundamente humana. Exige critério, experiência, sentido de responsabilidade e a coragem de assinar por baixo.

Para quem lidera, isto tem uma consequência concreta e imediata. O valor das nossas equipas vai estar cada vez menos na velocidade com que executam e cada vez mais na qualidade com que avaliam e decidem. As competências que temos de desenvolver — em nós e nas nossas pessoas — chamam-se pensamento crítico, discernimento, capacidade de olhar para um texto impecavelmente escrito e dizer “isto não faz sentido”. A IA vai dar-nos mil respostas plausíveis por minuto. Continua a caber-nos a nós saber qual delas vale — e é para aí que temos de puxar as pessoas, não para competirem com a máquina naquilo em que a máquina já ganhou.

Em 1434, depois de muitas tentativas falhadas e de uma geração inteira convencida de que era impossível, Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador — o cabo a que os marinheiros chamavam, com toda a propriedade, o Cabo do Medo. Dizia-se que para lá dele as águas ferviam e que nenhum navio regressaria. Eanes passou-o. As águas não ferviam, os monstros não estavam lá — tinham sido desenhados no mapa por gente que nunca tinha ido ver. E o que se seguiu não foi o fim do mundo, foi o princípio de outro.

A IA é, hoje, o nosso Cabo Bojador. Está cercada de monstros desenhados por quem ainda não largou do porto e de promessas exageradas feitas por quem nunca navegou de verdade. A única forma de saber o que está realmente para lá da linha é fazer a viagem — com cuidado, com critério, mas fazê-la. E a pergunta que vale a pena fazer já não é “o que é que a IA consegue fazer?”. É o que vamos escolher que valha mesmo a pena ser feito. Porque o mapa far-se-á a navegar. Mas a mão no leme continua a ter de ser a nossa.

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Sérgio Viana

Sérgio Viana

Sérgio Viana é Managing Partner da Xpand IT e coordena a área de Customer Experience na empresa, onde lidera a definição estratégica e a oferta de uma unidade especializada em criar experiências digitais inovadoras de base tecnológica. A sua equipa atua em áreas como User Experience, Customer-Facing Apps, Core Services e Business Process Transformation, e hoje em dia com um foco especial na área da Inteligência Artificial e das arquiteturas multiagente. É apaixonado pelo desenvolvimento pessoal e melhoria contínua, em particular... Ler Mais..

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