Entrevista/ “É essencial alinhar as políticas de formação com as necessidades concretas do mercado de trabalho”
“As organizações que estão verdadeiramente preparadas para responder às rápidas mudanças das exigências do mercado são aquelas que estão a integrar a aprendizagem nos seus processos de transformação empresarial”, afirma JPS Kohli, Group CEO da SkillUP, plataforma de aprendizagem digital que chegou a Portugal em 2025.
A SkillUp, plataforma global de aprendizagem digital para a requalificação profissional, escolheu Lisboa para instalar o seu centro de I&D e sede europeia.
Em entrevista ao Link to Leaders, JPS Kohli, Group CEO da empresa, defende que a formação contínua deve passar a fazer parte da estratégia das organizações e alerta para o impacto da inteligência artificial na transformação das competências exigidas aos profissionais.
Como surgiu a ideia de criar a SkillUp?
A SkillUp nasceu da convicção de que os modelos tradicionais de formação já não conseguem acompanhar o ritmo a que o mercado de trabalho está a evoluir. À medida que a tecnologia começou a transformar profissões e setores inteiros, tornou-se evidente a necessidade de uma abordagem mais eficaz para apoiar profissionais e organizações na aquisição contínua de competências que garantam a sua relevância e competitividade.
Desde o início, a ideia não era simplesmente disponibilizar conteúdos de formação, mas criar uma abordagem que repensasse a forma como a aprendizagem é estruturada e vivida, garantindo uma resposta mais direta às exigências concretas do mercado. Isto significava encarar a formação como algo integrado na realidade profissional, acompanhando ao longo do tempo a evolução das funções e das competências.
Neste contexto, desenvolvemos um modelo baseado na combinação de tecnologia e acompanhamento humano, criando percursos de aprendizagem mais personalizados e capazes de gerar um impacto direto no desenvolvimento de competências dos profissionais. Esta foi a visão que esteve na origem da SkillUp e continua a orientar a nossa evolução.
“A SkillUp procura, acima de tudo, ajudar trabalhadores e empresas a encarar a requalificação profissional como uma prioridade estratégica“.
Que necessidade de mercado é que a SkillUp procura responder e como tem evoluído desde a sua criação?
Num mercado de trabalho em que a velocidade da transformação tecnológica altera constantemente aquilo que é esperado dos profissionais, a SkillUp procura, acima de tudo, ajudar trabalhadores e empresas a encarar a requalificação profissional como uma prioridade estratégica e a tornar o desenvolvimento contínuo de competências mais eficaz.
Desde a sua criação, a SkillUp evoluiu de uma plataforma digital de aprendizagem para um parceiro estratégico no desenvolvimento profissional. Atualmente, trabalhamos com empresas, instituições académicas e profissionais em diferentes mercados, ajudando-os a desenvolver competências alinhadas com as necessidades atuais e futuras do mercado de trabalho. Esta evolução reflete-se numa abordagem mais integrada, baseada na combinação de tecnologia e apoio humano para criar experiências de aprendizagem personalizadas, com impacto direto nas competências dos utilizadores.
A requalificação profissional tornou-se uma urgência no mercado de trabalho atual?
Sem dúvida. A velocidade da transformação tecnológica e, em particular, da inteligência artificial está a acelerar a obsolescência de muitas competências, obrigando os profissionais a atualizar continuamente as suas capacidades para se manterem relevantes.Isto traz mudanças profundas à forma como as carreiras são construídas. A ideia de que a base de conhecimentos adquirida no início da vida profissional permanece válida durante longos períodos já não faz sentido perante as exigências atuais do mercado.
Em ambientes de trabalho em constante mudança e com o rápido surgimento de novas ferramentas digitais, a capacidade de adaptação contínua tornou-se cada vez mais necessária. Assim, o valor profissional está a deslocar-se do conhecimento consolidado para a capacidade de adquirir rapidamente novas competências e aplicá-las de forma eficaz no dia a dia.
“Em muitos casos, a aprendizagem continua a ser encarada como uma iniciativa isolada, e não como uma componente estrutural da estratégia empresarial (..)”.
As empresas já encaram a aprendizagem contínua como uma prioridade estratégica?
Existe uma consciência crescente da importância da aprendizagem contínua, mas a urgência com que é encarada varia significativamente entre organizações. Muitas empresas já compreenderam que a aquisição de competências é um fator crítico para a sua capacidade de inovação e competitividade. No entanto, em muitos casos, a aprendizagem continua a ser encarada como uma iniciativa isolada, e não como uma componente estrutural da estratégia empresarial, o que limita bastante a sua eficácia.
As organizações que estão verdadeiramente preparadas para responder às rápidas mudanças das exigências do mercado são aquelas que estão a integrar a aprendizagem nos seus processos de transformação empresarial, encarando-a como um investimento a longo prazo e não apenas como uma resposta pontual a necessidades imediatas.
Quais são hoje as competências mais críticas para os profissionais se manterem relevantes?
O mercado está a evoluir para um modelo em que a vantagem competitiva já não resulta apenas do domínio tecnológico, mas da capacidade de combinar literacia digital com competências humanas.
Neste contexto, os profissionais precisam de desenvolver conhecimentos em áreas como inteligência artificial, análise de dados, automação e utilização eficaz de ferramentas digitais. Mais do que compreender estas tecnologias, o importante é saber aplicá-las no trabalho diário para aumentar a produtividade e resolver problemas reais de forma mais eficiente.
Ao mesmo tempo, à medida que mais tarefas rotineiras são automatizadas, competências como pensamento crítico, liderança, comunicação, criatividade e tomada de decisão tornam-se cada vez mais importantes. Na minha opinião, será precisamente a combinação destes dois grupos de competências que distinguirá os profissionais e definirá o seu valor no mercado.
“Existe uma consciência crescente da necessidade de investir na requalificação da força de trabalho e um forte interesse, tanto por parte das empresas como dos profissionais (…)”.
Portugal está preparado para acompanhar o ritmo global de transformação das competências?
Portugal encontra-se numa posição bastante positiva quando comparado com outros mercados. Existe uma consciência crescente da necessidade de investir na requalificação da força de trabalho e um forte interesse, tanto por parte das empresas como dos profissionais, em garantir que a economia é capaz de acompanhar a velocidade da transformação tecnológica. Ainda assim, o desafio está em ganhar escala e consistência. Tal como noutros países, a aprendizagem continua a ser promovida através de iniciativas pontuais, que não estão totalmente integradas nas estratégias de crescimento das organizações ou até da economia, algo que limita o seu impacto.
Para gerar verdadeira transformação nas competências dos portugueses, é necessário que a formação seja encarada como um processo estratégico e contínuo, que incorpore a aprendizagem no próprio funcionamento das empresas e a posicione enquanto prioridade económica, garantindo a sua eficácia, sustentabilidade e alinhamento com as necessidades do mercado.
Que barreiras ainda impedem os trabalhadores de investir mais na sua formação?
Na minha perspetiva, as barreiras atuais à formação estão menos relacionadas com o acesso e mais com a forma como as experiências de aprendizagem são concebidas. Os profissionais têm, geralmente, acesso fácil a conteúdos e recursos de formação, mas enfrentam dificuldades em transformar esse acesso numa aprendizagem consistente. A falta de tempo é frequentemente apontada como um dos principais motivos, mas muitas vezes reflete o facto de a formação não estar naturalmente integrada nas rotinas diárias, tornando-se fácil adiá-la.
A motivação também desempenha um papel central. Muitos profissionais iniciam processos de aprendizagem com vontade de evoluir, mas esse impulso tende a diminuir quando não existem objetivos claros, feedback consistente ou uma perceção de progresso contínuo.
A cultura organizacional é igualmente determinante, pois quando a aprendizagem não é valorizada pela liderança nem associada à progressão de carreira, perde prioridade face às exigências do dia a dia.
Ultrapassar estas barreiras exige uma abordagem mais intencional e estruturada à aprendizagem, baseada em percursos personalizados e relevantes, apoiados por mentoria e orientação contínua. Quando a aprendizagem é integrada nas rotinas e reforçada por acompanhamento e progresso visível, o envolvimento e o desenvolvimento de competências aumentam significativamente.
“Uma das principais barreiras é o facto de, em muitas organizações, a aprendizagem contínua continuar a ser vista como uma atividade separada, em vez de estar integrada no trabalho diário dos colaboradores”.
O que está a travar uma aposta mais consistente das empresas na formação ao longo da vida?
Uma das principais barreiras é o facto de, em muitas organizações, a aprendizagem contínua continuar a ser vista como uma atividade separada, em vez de estar integrada no trabalho diário dos colaboradores. A isto junta-se a pressão operacional, que reduz o espaço disponível para iniciativas de formação mais estruturadas, sobretudo quando estas não estão diretamente ligadas aos resultados do negócio.
Por isso, promover uma verdadeira cultura de aprendizagem contínua exige uma mudança de abordagem, na qual o desenvolvimento de competências passa a fazer parte natural dos fluxos de trabalho e está diretamente ligado aos desafios reais da empresa.
Como é que a inteligência artificial está a alterar as necessidades de requalificação profissional?
A inteligência artificial está a transformar profundamente a natureza das competências exigidas aos profissionais, introduzindo continuamente novas ferramentas que automatizam tarefas anteriormente dependentes da intervenção humana. Isto está a conduzir a uma reorganização progressiva das funções e das competências necessárias em diferentes profissões, impactando diretamente a forma como o trabalho é definido dentro das organizações.
Neste contexto, a requalificação profissional deixa de ser apenas uma resposta ao progresso tecnológico e passa a constituir uma exigência da própria prática profissional, impulsionada não só pela necessidade de dominar novas ferramentas digitais, mas também pela necessidade de adaptação a novas formas de trabalhar e ao desenvolvimento de competências exigidas pelo mercado.
Que mudanças são necessárias dentro das organizações para que a aprendizagem faça parte da rotina dos profissionais?
Acredito que a maior mudança passa por alterar a perceção da formação como uma atividade separada das tarefas quotidianas.
Para isso, as organizações devem desenvolver modelos em que a aquisição de competências esteja integrada nos fluxos de trabalho e diretamente ligada aos desafios que os colaboradores enfrentam diariamente. Quanto mais relevante e imediatamente aplicável for o conhecimento adquirido, maior será o envolvimento e a retenção da aprendizagem.
Ao mesmo tempo, a importância da aprendizagem contínua deve ser reforçada através da cultura organizacional. Quando toda a organização valoriza ativamente a requalificação profissional e a posiciona como uma prioridade estratégica, a aprendizagem passa a fazer parte da forma como a organização opera e evolui, aumentando o envolvimento dos colaboradores nas iniciativas de formação.
Que papel devem ter as lideranças na criação de uma cultura de aprendizagem contínua?
A liderança desempenha um papel decisivo na construção de uma cultura sustentável de aprendizagem contínua. Embora a motivação individual seja importante, são os líderes que criam as condições para que o desenvolvimento de competências seja encarado como uma parte natural da vida organizacional.
Na prática, isto significa identificar as competências necessárias para responder aos desafios atuais e futuros do negócio e criar oportunidades para que estas sejam desenvolvidas e aplicadas no local de trabalho. Significa também reforçar de forma consistente a importância da aprendizagem contínua na dinâmica organizacional, garantindo que não é vista como uma atividade pontual, mas como parte integrante da evolução da empresa e das equipas. Quando os colaboradores percebem claramente este compromisso, o seu envolvimento aumenta significativamente.
“Para acelerar a requalificação profissional em Portugal, é essencial alinhar as políticas de formação com as necessidades concretas do mercado de trabalho”.
Que políticas públicas poderiam acelerar a requalificação profissional em Portugal?
Para acelerar a requalificação profissional em Portugal, é essencial alinhar as políticas de formação com as necessidades concretas do mercado de trabalho. Num contexto em que a tecnologia está a transformar setores e profissões a um ritmo cada vez maior, é fundamental garantir que a aprendizagem contribui efetivamente para a competitividade dos profissionais e das organizações.
As políticas públicas devem não apenas ampliar a oferta formativa, mas também criar condições para uma aprendizagem contínua mais acessível e sustentável. Isto exige uma colaboração mais forte entre instituições públicas, empresas e organizações educativas, garantindo um melhor alinhamento entre os programas de formação e as reais exigências do mercado.
Em última análise, a requalificação profissional só ganha escala quando a ambição das políticas é acompanhada de relevância prática, garantindo que as estratégias públicas se traduzem em oportunidades reais de desenvolvimento com impacto tanto nas competências individuais como na competitividade económica.
Que vantagens podem ter as plataformas de e-learning face aos modelos tradicionais de formação?
A principal vantagem das plataformas de e-learning é a sua capacidade para proporcionar experiências de aprendizagem mais flexíveis e adaptadas às necessidades de cada profissional.
A combinação de automação e análise de dados permite identificar lacunas de conhecimento, adaptar percursos de aprendizagem às necessidades individuais e recomendar conteúdos relevantes em função do progresso e dos objetivos definidos. Isto torna a aprendizagem mais direcionada e eficiente, reduzindo o tempo necessário para adquirir novas competências e aumentando a sua aplicação prática.
No entanto, a tecnologia, por si só, não é suficiente. A aprendizagem continua a depender fortemente do acompanhamento humano.
Sem mentoria e orientação, muitos percursos de aprendizagem perdem consistência ao longo do tempo, afetando diretamente a motivação, o compromisso e a aplicação prática do conhecimento.
Que papel pode Portugal desempenhar na estratégia global da SkillUp?
Portugal ocupa uma posição muito importante na visão internacional da SkillUp. A decisão de estabelecer o nosso centro de I&D e sede europeia em Lisboa surgiu numa fase em que já trabalhávamos com vários clientes na Europa e procurávamos construir uma base sólida para apoiar o nosso crescimento no continente. A cidade revelou-se uma escolha natural devido à qualidade do talento tecnológico disponível, ao elevado nível de proficiência em inglês dos profissionais portugueses e ao dinamismo do ecossistema nacional de inovação.
Estes fatores não só facilitam a atração e retenção de profissionais altamente qualificados, como também criam condições ideais para desenvolver e aperfeiçoar novos modelos de aprendizagem e desenvolvimento profissional com potencial global. Neste sentido, o hub de Lisboa funciona como o motor da nossa expansão europeia, apoiando a aquisição de novos clientes e servindo de porta de entrada para outros mercados europeus e lusófonos.
A médio prazo, a nossa ambição é consolidar uma operação europeia cada vez mais autónoma, com capacidades próprias de desenvolvimento de negócio e entrega tecnológica, posicionando Portugal como um dos pilares centrais da nossa estratégia de expansão internacional.








