Opinião

Adaptabilidade como vantagem competitiva

Tiago Rodrigues, gestor e investidor
Foto. Tiago Rodrigues

A experiência profissional em diversas geografias ensinou-me que num contexto global, a competência técnica é apenas o ponto de partida. A eficácia depende também da capacidade de compreendermos e nos adaptarmos a diferentes realidades organizacionais e culturais.

Ao longo das quase três décadas da minha carreira, tive a oportunidade e o grato privilégio de trabalhar em diferentes geografias – de Portugal ao Reino Unido, dos Estados Unidos ao Brasil, e mais recentemente na Suécia. Durante este percurso, percebi que a competência não é um conceito absoluto e tão “universal” quanto acreditamos, sendo, em certa medida, contextual.

Quando saí de Portugal pela primeira vez, em 2004, levava comigo uma convicção simples: se sabemos fazer bem o nosso trabalho, saberemos fazê-lo em qualquer lado. Afinal, os princípios e as ferramentas de gestão são, em grande medida, globais.

A teoria e a prática nem sempre coincidem. Existe obviamente uma base comum que atravessa fronteiras e que facilita a mobilidade e a colaboração, mas creio que essa base, per si, está longe de garantir a eficácia em diferentes contextos.

Percebi, com o tempo, que o que muda não é apenas o contexto, mas também a forma como as organizações e as pessoas interpretam, comunicam, decidem e constroem relações de confiança, e isso acaba por impactar a forma como executamos, influenciamos ou gerimos. É a este nível que a experiência internacional se torna seguramente mais exigente e, simultaneamente, mais rica.

Numa visão simplista, inevitavelmente incompleta, identifico alguns traços distintos entre os diferentes contextos que experienciei. Em Portugal, a proximidade relacional e a capacidade de adaptação coexistem frequentemente com estruturas e dinâmicas menos formais. No Reino Unido, a formalidade, o pragmatismo, o respeito pelo processo e uma comunicação frequentemente subtil influenciam a forma como as decisões são construídas. Nos Estados Unidos, a orientação para resultados, a clareza na responsabilização e a rapidez de execução são particularmente evidentes. No Brasil, onde vivi cinco anos, a dimensão humana, a proximidade e a capacidade de adaptação influenciam fortemente o ritmo e a dinâmica das interações. Já na Suécia, o foco no consenso, na previsibilidade e no equilíbrio traduz-se em processos mais estruturados e deliberados.

Nenhuma destas abordagens está certa ou errada, mas ajudam a ilustrar como diferentes contextos influenciam a forma como se trabalha, colabora ou decide, muitas vezes enraizados em fatores históricos, sociais e até institucionais que moldam comportamentos ao longo do tempo.

Neste contexto, a experiência internacional deixa de ser apenas a aplicação de competências adquiridas e passa a ser um exercício contínuo de adaptação. Na forma de comunicar, no ritmo de decisão, na leitura das dinâmicas organizacionais e na construção de alinhamentos.

A eficácia não resulta apenas da qualidade das decisões, mas também da forma como estas são enquadradas e implementadas em cada realidade específica. Por outras palavras, uma mesma decisão, aplicada de forma idêntica em contextos distintos, pode produzir resultados muito diferentes.

A experiência internacional acrescenta, naturalmente, diversidade de contextos e desafios, mas também – talvez sobretudo – uma maior consciência da complexidade inerente à gestão e à liderança em ambientes diversos e da capacidade de adaptação necessária para enfrentar essa complexidade.

Num mundo interligado, essa capacidade de navegar em contextos distintos não é apenas uma vantagem, tornando-se, progressivamente, um requisito. E talvez seja nesta interseção entre competências e capacidade de adaptação que reside uma das dimensões mais importantes da gestão contemporânea.

Aprendi muito – e estou muito grato por isso – nas organizações e projetos em que participei neste percurso internacional. Aprendi que trabalhar fora do nosso contexto natural é um exercício contínuo de humildade: para reconhecer que não dominamos todas as variáveis; para ajustar o nosso estilo sem perder a nossa identidade; para perceber que, por vezes, temos mais a aprender do que a ensinar.

A experiência internacional tem, naturalmente, uma dimensão profissional muito rica. Mas o seu impacto mais profundo é frequentemente pessoal, ao desafiar referências adquiridas e obrigar-nos a olhar para a realidade com uma perspetiva diferente.

No final, talvez essa seja a maior mais-valia: não nos tornamos apenas profissionais mais completos, tornamo-nos pessoas mais conscientes da complexidade do mundo em que vivemos e operamos.

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Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues

Tiago Rodrigues conta com vinte anos de experiência em funções de gestão e administração em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, com experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido, Estados Unidos e Suécia. Concluiu um programa de liderança em Harvard, uma pós-graduação em finanças, uma licenciatura em economia e um bacharelato em contabilidade e administração. Foi palestrante em dezenas de eventos de negócios na Europa e em programas de universidades... Ler Mais..

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