Entrevista/ “A IA já está a transformar o negócio, não necessariamente a substituí-lo”

Rui Neves, CEO da Nimber
Foto: Rui Neves, CEO da Nimber

“O desafio é transformar tecnologia numa prioridade de gestão, não apenas numa função técnica”, defende Rui Neves, CEO da Nimber, empresa criada em 2023 e que já está a caminhar no sentido da internacionalização.

Especializada em serviços de tecnologia, com destaque para consultoria IT, desenvolvimento de projetos à medida, cibersegurança e inteligência artificial, a Nimber tem como meta que em 2028 pelo menos metade do seu volume de negócios tenha origem em serviços de “cybersec” e “IA”. Rui Neves, CEO, explica como é crescer sem investimento externo, mas com uma lógica muito orientada para o mercado e conseguir escalar sem perder identidade.

A internacionalização, avança Rui Neves, está a ser feita de “forma gradual, consistente e assente em mercados onde a nossa proposta de valor faça sentido”, com especial atenção a mercados europeus onde exista procura por talento tecnológico. Neste momento, a empresa já trabalha com clientes na Dinamarca e no Canadá.

Três anos depois da criação da Nimber, como avalia este percurso? Principais desafios, oportunidades…

Os primeiros três anos da Nimber foram muito intensos, mas também muito positivos. Começámos com uma visão clara: criar uma empresa tecnológica próxima dos clientes, exigente na qualidade e muito focada nas pessoas. O maior desafio foi crescer mantendo a cultura, a agilidade e a confiança que nos trouxeram até aqui. A maior oportunidade tem sido perceber que há espaço no mercado para empresas tecnológicas que combinem competência técnica com uma relação muito próxima e transparente com clientes e talento. O mais difícil foi escalar sem perder identidade. Quando uma empresa cresce depressa, há sempre o risco de criar processos demasiado pesados ou, pelo contrário, de não profissionalizar o suficiente. Temos tentado encontrar esse equilíbrio: manter a energia de start-up, mas com cada vez mais rigor de gestão.

Qual o “segredo” para passados três de atividade terem atingido a meta dos 3 milhões de euros de faturação, sem investimento externo nem envolvimento de aceleradoras, por exemplo?

Não sei se lhe chamaria segredo. Foi sobretudo foco, consistência e uma enorme capacidade de entrega. Crescemos sem investimento externo porque desde o primeiro dia tivemos uma lógica muito orientada para o mercado: conquistar clientes, entregar bem e reinvestir no crescimento da empresa. Isso obriga a uma gestão muito disciplinada, mas também cria uma empresa mais resiliente, porque o crescimento vem da confiança dos clientes e não apenas de capital disponível.

Na verdade, estamos a fechar o ano de 2025 com um valor superior a 4M o que prova que temos crescido de forma muito sustentada. E é algo significativo para uma empresa cujo primeiro ano operacional foi 2023. A nossa tração veio de clientes que voltaram a trabalhar connosco, de referências positivas e de equipas que conseguiram entregar em contextos exigentes

“A nossa meta é em 2028 termos pelo menos metade do nosso volume de negócios que tenham origem em serviços de “cybersec” e “IA””

Quais as vossas principais áreas de atuação e para onde pretendem crescer mais?

Atuamos sobretudo em serviços de tecnologia, com quatro grandes eixos: consultoria IT, desenvolvimento de projetos à medida, cibersegurança e inteligência artificial. A área de “consulting” continua a ser uma área muito relevante, porque há uma necessidade enorme de talento tecnológico nas empresas. Mas queremos crescer cada vez mais em áreas de maior valor acrescentado, nomeadamente cibersegurança, IA, equipas dedicadas e projetos de transformação digital. A nossa ambição é sermos vistos não apenas como fornecedor de perfis, mas como parceiro tecnológico. Hoje muitas empresas não precisam apenas de mais pessoas; precisam de equipas capazes de resolver problemas concretos, com rapidez, qualidade e visão de negócio. A IA já está a transformar o negócio, não necessariamente a substituí-lo. Vai mudar a forma como se desenvolve software, se analisam dados e se automatizam processos. Quem souber integrar IA com conhecimento de negócio vai ter uma vantagem enorme. A cibersegurança deixou de ser um tema apenas técnico. Hoje é um tema de continuidade de negócio, reputação, compliance e confiança. É uma área onde queremos crescer com rigor. A nossa meta é em 2028 termos pelo menos metade do nosso volume de negócios que tenham origem em serviços de “cybersec” e “IA”.

Qual o vosso diferencial?

O nosso diferencial está na combinação entre proximidade, velocidade e qualidade. Somos suficientemente ágeis para responder depressa, mas temos a exigência necessária para trabalhar com clientes empresariais em contextos complexos. Além disso, damos muita importância ao lado humano: conhecemos bem os nossos clientes, conhecemos bem as nossas pessoas e tentamos criar relações transparentes. No fim, tecnologia é sobre confiança, e é aí que queremos fazer a diferença. Tentamos estar próximos do cliente antes, durante e depois da entrega. Não queremos desaparecer depois de colocar uma equipa ou fechar um projeto. Tentamos estar muito envolvidos na seleção, no acompanhamento das equipas e na relação com o cliente. É fundamental garantir contexto, alinhamento e continuidade. O crescimento só faz sentido se conseguirmos preservar o que nos tornou relevantes. Por isso estamos a investir em processos, liderança intermédia e cultura interna.

“Portugal tem talento tecnológico de grande qualidade e pode competir muito bem em modelos nearshore, equipas dedicadas e serviços especializados”.

O mercado nacional é suficiente para a vossa ambição empresarial ou já estão a olhar além-fronteiras?

O mercado português continua a ser muito importante para nós e ainda tem muito espaço de crescimento. Mas, para a nossa ambição, olhar além-fronteiras é inevitável. Portugal tem talento tecnológico de grande qualidade e pode competir muito bem em modelos nearshore, equipas dedicadas e serviços especializados. Já temos pelo menos dois clientes (Dinamarca e Canadá) atualmente. A nossa internacionalização está a ser feita de forma gradual, consistente e assente em mercados onde a nossa proposta de valor faça sentido. Estamos atentos a mercados europeus onde exista procura por talento tecnológico, proximidade cultural e modelos de colaboração nearshore. Mais importante do que escolher rapidamente um país é garantir que entramos com foco e capacidade de entrega.

Desde a fundação da Nimber até agora, como vê a evolução do mercado empresarial português perante questões como recrutamento, talento, cibersegurança, IA… Na sua opinião, e pela sua experiência, as empresas portuguesas estão a conseguir acompanhar o ritmo da transformação do mercado?

O mercado português evoluiu muito, mas ainda há velocidades diferentes dentro das empresas. Há organizações muito maduras, que já olham para tecnologia como eixo estratégico, e outras que ainda reagem tarde, sobretudo em temas como cibersegurança, dados e inteligência artificial. No talento, continua a existir uma grande competição por bons profissionais, mas também uma oportunidade: Portugal tem talento forte, boas universidades e capacidade para servir mercados internacionais. O desafio é transformar tecnologia numa prioridade de gestão, não apenas numa função técnica.

Sobre IA, muitas empresas já perceberam que a questão não é ‘se’ vão adotar IA, mas ‘como’ o vão fazer com segurança, dados de qualidade e impacto real no negócio. Algumas estão atrasadas, outras estão bastante avançadas. O ponto crítico é que muitas ainda estão numa fase exploratória. O próximo passo é passar de pilotos e curiosidade para casos de uso concretos, medição de impacto e governação. Em relação a cibersegurança, a consciência aumentou muito, mas ainda há trabalho a fazer. Muitas empresas só olham para cibersegurança depois de um incidente ou por pressão regulatória. O ideal é que seja vista como prevenção e proteção de negócio.

Queremos estar mais perto dos estudantes (…) enquanto estão a construir visão, competências e expetativas sobre o mercado”.

Estão a planear o lançamento de um programa de embaixadores em faculdades. Qual o papel que a academia pode/deve ter na inovação e desenvolvimento tecnológico do país e na cooperação com o ecossistema empreendedor?

A academia tem um papel absolutamente central no desenvolvimento tecnológico do país. As universidades e politécnicos formam talento, promovem investigação e podem ser uma ponte muito importante entre conhecimento e mercado. O nosso programa de embaixadores pretende precisamente aproximar a Nimber dos estudantes, perceber melhor as suas ambições e criar oportunidades reais de contacto com o mundo empresarial. A inovação acontece mais depressa quando empresas, academia e talento jovem trabalham de forma mais próxima. Queremos estar mais perto dos estudantes, não apenas quando estão à procura do primeiro emprego, mas antes disso: enquanto estão a construir visão, competências e expetativas sobre o mercado.

Quais as próximas etapas de desenvolvimento da Nimber?

A próxima etapa passa por consolidar o crescimento e aumentar a sofisticação da nossa oferta. Queremos reforçar áreas como cibersegurança, inteligência artificial, projetos à medida e serviços geridos. Também estamos muito focados em desenvolver liderança interna, processos e capacidade de escala. O objetivo é crescer, mas crescer com qualidade. Para nós, a próxima fase não é apenas vender mais. É construir uma empresa mais forte, com melhores processos, melhores líderes e maior capacidade de entrega.

Enquanto fundador e CEO, quais são as suas principais “lutas” atualmente?

Enquanto CEO, uma parte importante do meu papel é dizer sim às oportunidades certas, mas também saber dizer não ao que nos pode tirar foco. A principal luta é equilibrar crescimento com foco. Quando uma empresa cresce, surgem muitas oportunidades, mas nem todas são as oportunidades certas. Outra luta importante é garantir que a cultura da Nimber se mantém forte à medida que a equipa aumenta e os processos ficam mais exigentes. E, naturalmente, há o desafio permanente de atrair talento, desenvolver líderes e continuar a entregar valor aos clientes. Outro enorme desafio é ter que tomar decisões com informação incompleta e aceitar que nem todas serão perfeitas. Mas faz parte da função. O importante é decidir com clareza, assumir responsabilidade e ajustar rapidamente quando necessário.

“A pergunta certa não é “que ferramenta de IA vamos usar?”, mas sim “que problema de negócio queremos resolver?”

Que tendências antevê na sua área de atividade para o próximo ano?

A grande mudança, a meu ver, tem a ver com IA. Será passar da experimentação para a operacionalização: usar IA para ganhar eficiência, reduzir tarefas repetitivas e melhorar decisões, ou seja, a adoção mais prática da inteligência artificial, já não como curiosidade, mas como ferramenta integrada em processos de negócio. A segunda é o crescimento da cibersegurança como prioridade de gestão, muito impulsionada por risco, regulação e reputação. A terceira é a procura por modelos de talento mais flexíveis, com equipas especializadas, nearshore e parceiros capazes de entregar rapidamente.

Existe uma enorme transformação que já está em curso: algumas tarefas vão ser automatizadas, mas também vão surgir novas necessidades em dados, integração, segurança, governação e desenho de soluções. É possível que cada vez mais as empresas deixem de começar a pensar na ferramenta em vez de começar pelo problema. A pergunta certa não é “que ferramenta de IA vamos usar?”, mas sim “que problema de negócio queremos resolver?

Parceria com outras empresas, fusões, idas ao mercado de investidores… algum destes cenários faz parte dos vossos planos?

Estamos sempre abertos a parcerias que acrescentem valor real à Nimber, aos nossos clientes e às nossas pessoas. Até agora, o nosso crescimento foi orgânico e independente, e isso deu-nos uma base muito sólida. Fusões, aquisições ou investidores não são um objetivo, pelo menos, nesta fase.

Como gostaria de ver a Nimber daqui a cinco anos?

Gostaria de ver a Nimber como uma empresa tecnológica portuguesa de referência, com presença internacional, equipas altamente qualificadas e uma cultura muito forte. Quero que sejamos reconhecidos pela qualidade da entrega, pela proximidade aos clientes e pela forma como desenvolvemos talento. Ter clientes que continuam connosco, pessoas que crescem dentro da empresa e uma marca reconhecida pela qualidade. Daqui a cinco anos, mais do que sermos apenas maiores, quero que sejamos melhores: mais maduros, mais especializados e com impacto real nos negócios dos nossos clientes. Se conseguirmos crescer sem perder a nossa identidade, teremos feito um bom caminho.

Comentários

Artigos Relacionados