Opinião
Duas fatias de pão com mel e chá: simplicidade e desempenho
Será que existem limites para o desempenho humano (físico, mental)? Para alguns, os limites são barreiras reais, para outros, representam apenas a fronteira das condições existentes.
O que hoje parece impossível amanhã pode tornar-se real. Foi o que aconteceu na Maratona de Londres, realizada a 26 de abril em que o atleta Sawe superou um recorde que permanecia há três anos (2h00m35s) com 1h59m30s. Durante muito tempo discutiu-se se a marca das duas horas seria um limite intransponível. E o mais interessante é que o limite foi quebrado pelo vencedor e pelo segundo classificado.
As condições facilitadoras
Correr 42,2 quilómetros exige muito mais do que resistência física. A maratona coloca músculos, tendões, ossos e o sistema cardiovascular sob enorme pressão durante horas. Cada segundo conquistado exige preparação extrema, disciplina, tecnologia e inteligência estratégica.
O recente recorde foi alcançado graças à conjugação de vários fatores: tecnologia, condições atmosféricas favoráveis e nutrição adequada.
Sawe utilizou um dos mais avançados ténis da Adidas, concebido para transformar parte do impacto em impulso e melhorar a eficiência energética do atleta. A temperatura amena daquele dia também contribuiu para um melhor desempenho.
Um detalhe surpreendente foi a simplicidade da refeição: antes da corrida, o atleta ingeriu apenas duas fatias de pão com mel e um chá. Nutricionistas explicam que esta combinação fornece carboidratos simples, de rápida absorção, capazes de gerar energia imediata sem sobrecarregar o organismo.
Por vezes, o desempenho não nasce da complexidade, mas da capacidade de simplificar o essencial.
Trazendo para o contexto organizacional
O mesmo princípio aplica-se às organizações.
Os limites do desempenho organizacional e das equipas também podem ser ultrapassados quando se criam as condições adequadas. O desafio pode estar menos na capacidade dos seus colaboradores e mais nos sistemas, processos e modelos de gestão que moldam o ambiente de trabalho.
As organizações modernas possuem hoje acesso a ferramentas tecnológicas, Metodologias Ágeis e inteligência analítica capazes de aumentar significativamente a produtividade e a velocidade de resposta. No entanto, muitas continuam presas a estruturas e procedimentos excessivamente burocráticas, lentas e centralizadas, vetustas.
Revisitando os clássicos de gestão, lembremos que Peter Drucker defendia que a eficácia depende da capacidade de tomar decisões rápidas e relevantes — uma crítica clara à burocracia como entrave à ação; James O. McKinsey alertava para o facto de estruturas demasiado rígidas sufocarem a eficiência organizacional; Jeff Sutherland, criador do Scrum, demonstrou como metodologias ágeis permitem acelerar projetos, reduzir desperdícios e aumentar a produtividade através de ciclos curtos e feedback contínuo; Gary Hamel afirma que a burocracia é um dos maiores inimigos da inovação.
A Inteligência Artificial está aumentando a produtividade e já permite que tarefas repetitivas e rotineiras sejam executadas por bot, libertando tempo para atividades de maior valor acrescentado, como análise e criatividade. Também metodologias ágeis ajudam equipas a responder mais rapidamente às mudanças, melhorar a execução e manter o foco nos resultados.
Liderar é criar condições para o desempenho
O papel da liderança não é controlar excessivamente, mas criar as condições para que as pessoas e as equipas consigam ter um desempenho melhor. A liderança deve focar em definir metas flexíveis e claras; promover feedback rápido e contínuo; incentivar autonomia; reduzir burocracias desnecessárias; realizar reuniões curtas e objetivas; medir resultados pelo impacto gerado e não apenas pela execução de tarefas.
Também implica investir continuamente nas pessoas. As organizações precisam de “nutrir” os seus recursos humanos com formação, tecnologia, metodologias modernas e ambientes de trabalho mais inteligentes. O maior obstáculo, muitas vezes, não está na falta de talento ou tecnologia, mas nos próprios sistemas criados para manter controlo excessivo, poder ou formalismos sem criar valor.
E essa é talvez a grande lição: organizações que querem quebrar recordes precisam primeiro de simplificar.
Concluindo
Tal como numa maratona, o desempenho excecional nas organizações resulta da combinação entre preparação, tecnologia, simplicidade e contexto favorável. Nem sempre o segredo está em fazer mais. Muitas vezes está em eliminar o que não cria valor e focar energia naquilo que realmente gera impacto.
As organizações que conseguirem simplificar processos, reduzir burocracias, investir nas pessoas e utilizar inteligentemente a tecnologia estarão mais preparadas para alcançar melhores resultados. Quebrar recordes não depende apenas de esforço, mas sobretudo das condições que a liderança é capaz de criar.








