Opinião

Duas fatias de pão com mel e chá: simplicidade e desempenho

Carlos Rocha, economista e gestor
© D. R.

Será que existem limites para o desempenho humano (físico, mental)? Para alguns, os limites são barreiras reais, para outros, representam apenas a fronteira das condições existentes.

O que hoje parece impossível amanhã pode tornar-se real. Foi o que aconteceu na Maratona de Londres, realizada a 26 de abril em que o atleta Sawe superou um recorde que permanecia há três anos (2h00m35s) com 1h59m30s. Durante muito tempo discutiu-se se a marca das duas horas seria um limite intransponível. E o mais interessante é que o limite foi quebrado pelo vencedor e pelo segundo classificado.

As condições facilitadoras

Correr 42,2 quilómetros exige muito mais do que resistência física. A maratona coloca músculos, tendões, ossos e o sistema cardiovascular sob enorme pressão durante horas. Cada segundo conquistado exige preparação extrema, disciplina, tecnologia e inteligência estratégica.

O recente recorde foi alcançado graças à conjugação de vários fatores: tecnologia, condições atmosféricas favoráveis e nutrição adequada.

Sawe utilizou um dos mais avançados ténis da Adidas, concebido para transformar parte do impacto em impulso e melhorar a eficiência energética do atleta. A temperatura amena daquele dia também contribuiu para um melhor desempenho.

Um detalhe surpreendente foi a simplicidade da refeição: antes da corrida, o atleta ingeriu apenas duas fatias de pão com mel e um chá. Nutricionistas explicam que esta combinação fornece carboidratos simples, de rápida absorção, capazes de gerar energia imediata sem sobrecarregar o organismo.

Por vezes, o desempenho não nasce da complexidade, mas da capacidade de simplificar o essencial.

Trazendo para o contexto organizacional

O mesmo princípio aplica-se às organizações.

Os limites do desempenho organizacional e das equipas também podem ser ultrapassados quando se criam as condições adequadas. O desafio pode estar menos na capacidade dos seus colaboradores e mais nos sistemas, processos e modelos de gestão que moldam o ambiente de trabalho.

As organizações modernas possuem hoje acesso a ferramentas tecnológicas, Metodologias Ágeis e inteligência analítica capazes de aumentar significativamente a produtividade e a velocidade de resposta. No entanto, muitas continuam presas a estruturas e procedimentos excessivamente burocráticas, lentas e centralizadas, vetustas.

Revisitando os clássicos de gestão, lembremos que Peter Drucker defendia que a eficácia depende da capacidade de tomar decisões rápidas e relevantes — uma crítica clara à burocracia como entrave à ação; James O. McKinsey alertava para o facto de estruturas demasiado rígidas sufocarem a eficiência organizacional; Jeff Sutherland, criador do Scrum, demonstrou como metodologias ágeis permitem acelerar projetos, reduzir desperdícios e aumentar a produtividade através de ciclos curtos e feedback contínuo; Gary Hamel afirma que a burocracia é um dos maiores inimigos da inovação.

A Inteligência Artificial está aumentando a produtividade e já permite que tarefas repetitivas e rotineiras sejam executadas por bot, libertando tempo para atividades de maior valor acrescentado, como análise e criatividade. Também metodologias ágeis ajudam equipas a responder mais rapidamente às mudanças, melhorar a execução e manter o foco nos resultados.

Liderar é criar condições para o desempenho

O papel da liderança não é controlar excessivamente, mas criar as condições para que as pessoas e as equipas consigam ter um desempenho melhor. A liderança deve focar em definir metas flexíveis e claras; promover feedback rápido e contínuo; incentivar autonomia; reduzir burocracias desnecessárias; realizar reuniões curtas e objetivas; medir resultados pelo impacto gerado e não apenas pela execução de tarefas.

Também implica investir continuamente nas pessoas. As organizações precisam de “nutrir” os seus recursos humanos com formação, tecnologia, metodologias modernas e ambientes de trabalho mais inteligentes. O maior obstáculo, muitas vezes, não está na falta de talento ou tecnologia, mas nos próprios sistemas criados para manter controlo excessivo, poder ou formalismos sem criar valor.

E essa é talvez a grande lição: organizações que querem quebrar recordes precisam primeiro de simplificar.

Concluindo
Tal como numa maratona, o desempenho excecional nas organizações resulta da combinação entre preparação, tecnologia, simplicidade e contexto favorável. Nem sempre o segredo está em fazer mais. Muitas vezes está em eliminar o que não cria valor e focar energia naquilo que realmente gera impacto.

As organizações que conseguirem simplificar processos, reduzir burocracias, investir nas pessoas e utilizar inteligentemente a tecnologia estarão mais preparadas para alcançar melhores resultados. Quebrar recordes não depende apenas de esforço, mas sobretudo das condições que a liderança é capaz de criar.

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Carlos Rocha

Carlos Rocha

Carlos Rocha é economista e atualmente é vogal do Conselho de Finanças Públicas de Cabo Verde e ex-presidente do Fundo de Garantia de Depósitos de Cabo Verde. Foi administrador do Banco de Cabo Verde, onde desempenhou anteriormente diversos cargos de liderança. Entre outras funções, foi administrador executivo da CI - Agência de Promoção de Investimento. Doutorado em Economia Monetária e Estabilização macroeconómica e política monetária em Cabo Verde, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão – Lisboa, é mestre em... Ler Mais..

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